sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Nilto Maciel


Nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77, tendo trabalhado na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Regressou a Fortaleza em 2002. Editou a revista Literatura, de 1992 a 2008.


Obteve primeiro lugar em alguns concursos literários nacionais e estaduais: Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1981, com o livro de contos Tempos de Mula Preta; Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1986, com o livro de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; “Brasília de Literatura”, 90, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica; VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, 1996, Fundação Cultural de Fortaleza, CE, com o conto “Apontamentos Para Um Ensaio”; “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 98, categoria conto, com o livro Pescoço de Girafa na Poeira; "Eça de Queiroz", 99, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com o livro Vasto Abismo.

Organizou, com Glauco Mattoso, Queda de Braço – Uma Antologia do Conto Marginal (Rio de Janeiro/Fortaleza, 1977). Participa de diversas coletâneas, entre elas Quartas Histórias – Contos Baseados em Narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes (Ed. Garamond, Rio de Janeiro, 2006); 15 Cuentos Brasileros/15 Contos Brasileiros, edición bilingüe español-portugués, org. por Nelson de Oliveira e tradução de Federico Lavezzo (Córdoba, Argentina, Editorial Comunicarte, 2007); e Capitu Mandou Flores, org. por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial, São Paulo, 2008).
Tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabra que Virou Bode foi transposto para a tela (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993. Seus livros estão publicados por pequenas editoras de Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis, Brasília e Campinas.

Livros publicados:

Itinerário, contos, 1.ª ed. 1974, ed. do Autor, Fortaleza, CE; 2.ª ed. 1990, João Scortecci Editora, São Paulo, SP.

Tempos de Mula Preta, contos, 1.ª ed. 1981, Secretaria da Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro, RJ.

A Guerra da Donzela, novela, l.ª ed. 1982, 2.ª ed. 1984, 3.ªed. 1985, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, RS.

Punhalzinho Cravado de Ódio, contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará.

Estaca Zero, romance, 1987, Edicon, São Paulo, SP.

Os Guerreiros de Monte-Mor, romance, 1988, Editora Contexto, São Paulo, SP.

O Cabra que Virou Bode, romance, 1.ª ed. 1991, 2.ª ed. 1992, 3.ª ed. 1995, 4.ª ed. 1996, Editora Atual, São Paulo, SP.

As Insolentes Patas do Cão, contos, 1991, João Scortecci Editora, São Paulo, SP.

Os Varões de Palma, romance, 1994, Editora Códice, Brasília.

Navegador, poemas, 1996, Editora Códice, Brasília.

Babel, contos, 1997, Editora Códice, Brasília.

A Rosa Gótica, romance, 1.ª ed. 1997, Fundação Catarinense de Cultura, Florianópolis, SC (Prêmio Cruz e Sousa, 1996), 2.ª ed. 2002, Thesaurus Editora, Brasília, DF.

Vasto Abismo, novelas, 1998, Ed. Códice, Brasília.

Pescoço de Girafa na Poeira, contos, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília.

A Última Noite de Helena, romance, 2003. Editora Komedi, Campinas, SP.

Os Luzeiros do Mundo, romance, 2005. Editora Códice, Fortaleza, CE.

Panorama do Conto Cearense, ensaio, 2005. Editora Códice, Fortaleza, CE.

A Leste da Morte, contos, 2006. Editora Bestiário, Porto Alegre, RS.

Carnavalha, romance, 2007. Bestiário, Porto Alegre, RS.

Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil, ensaio, 2008. Imprece, Fortaleza, CE.

Contos reunidos (volume I) – reunindo Itinerário, Tempos de mula preta e Punhalzinho cravado de ódio - 2009. Ed. Bestiário, Porto Alegre, RS.

Contos reunidos (volume II) – reunindo As insolentes patas do cão, Babel e Pescoço de girafa na poeira – 2010. Ed. Bestiário, Porto Alegre, RS.

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Pequenas esferas escuras

Na rua estreita e curta, de casinhas de porta e janela, sem jardins, nunca passavam carros. Os meninos se divertiam à vontade nas calçadas e no meio da rua revestida de pedra tosca. Dé chamava Li para jogar bola de meia. Eu chuto e você pega. Eu sou Mazola e você é Gilmar. Num rádio, Nelson Gonçalves cantava “Boemia, aqui me tens de regresso”. Não, eu não sou homem. Sou Li, a melhor goleira do Joaquim Távora.


O menino e a menina passavam os dias a brincar, de bola, boneca, correr, na calçada e em casa. As mulheres da vizinhança os viam com desprezo e advertiam os filhos: Não se aproximem deles. Parece que não têm pai nem mãe; vivem soltos na rua. Nada de brincar com eles. Mesmo assim, os bichinhos buscavam amizade com os outros. Em vão. Meninos e meninas fugiam deles. Dona Gertudes varria a calçada com exaltação, como se varresse toda a sujeira do mundo. Não estudam esses pestinhas. Dona Ismênia tentava se impor nas vassouradas. Quem fazia comida para eles? Certamente, eles mesmos, pois nunca vi adulto na casa. Dona Filomena se dizia cansada de tanto varrer papéis. Quem comprava os mantimentos? Eles mesmos, certamente. Ou talvez não comam nada. Dona Gertrudes apresentava mais preocupações: Como se chamam esses diabinhos? Dona Ismênia segredava a resposta, com voz compassada: O menino, ouvi dizer, se chama Décio. Aproximava-se dona Filomena, ouvidos bem abertos: Não, não é Décio. Meu filho descobriu o nome do menino. É um nome difícil: Demerval. À noite, sentadas na calçada, voltavam a falar dos nomes: Pois não é que o bichinho se chama Demétrio. Quem te disse isso? Descobri também o nome da menina: Lígia. Deu uma gargalhada dona Gertrudes. Como a amiga gostava de inventar coisas! Pois tinha certeza de que a garota se chamava Lília. Ao iniciar a explicação da descoberta, dona Ismênia a interrompeu: Lília coisa nenhuma. A pequena se chama Liliana. E provo o que afirmo. Remexia-se na cadeira e olhava firme nos olhos das vizinhas: Sabiam que são gêmeos?

Em casa, o menino às vezes dizia: Quando tivermos nossos filhos... A menina se irritava: Não fale mais isso. Não podemos ter filhos. Irmãos não podem se casar. É pecado. Além disso, filhos de irmãos nascem aleijados.

As mulheres não paravam de bisbilhotar, ora durante a varrição matinal da calçada, ora à noite sentadas em cadeiras diante das casas. Dona Gertrudes confidenciava: Eu soube que o pai morreu num acidente e eles vivem com a mãe paralítica. Dona Filomena conhecia outra versão: O pai não morreu. Saiu de casa há muitos anos e deixou os meninos com a mãe, que pede esmola. Dona Ismênia sabia de outra história: A mãe se prostituía e só voltava para casa de manhã. Ia dormir, enquanto os filhos se soltavam na rua.

Um dia Dé e Li dormiram até tarde, como nunca faziam. Esqueceram a hora de dormir, em brincadeiras na cama. Li acordou primeiro, pôs os pés fora da cama, calçou as chinelas e se dirigiu ao banheiro. Notou, porém, uma coisa estranha na casa: parecia pisar em bolinhas duras, pois escorregou diversas vezes. De volta do banheiro, já bem desperta, viu no chão pequenas esferas escuras. Seria cocô de bicho? Imaginou cabras dentro de casa. Com nojo, buscou uma vassoura e se pôs a varrer aquilo. Ao dar a primeira vassourada nas esferazinhas, se apavorou: os objetos se juntaram e passaram a se movimentar por si mesmos. Gritou pelo irmão. Acorda, homem. A casa está tomada por continhas. Talvez sejam bolinhas de gude pequenas. Parecem também com as do rosário de nossa mãezinha. Pegou uma e examinou-a de perto. Parecia de pedra, madeira, ferro, algum metal. Dé acordou sobressaltado. O que é isso, mulher? Está doida? Também examinou uma peça. E se irritou: O colar era seu, vagabunda? Quem foi o macho que lhe deu essa porcaria? Vou pisar com força para ver se estoura ou se quebra. Pisou com vigor e raiva, e nada de rachar a esférula. Cheia de pavor, a menina olhava para o menino e as bolinhas. Não tente mais fazer isso, Dé. Se uma delas estourar, nem sei o que pode acontecer.

Nos dias seguintes, passaram horas a discutir a origem e o destino das contas. Podemos vendê-las? Ou assustar as pessoas. Tudo faziam para nunca juntar as esferas. Quando elas se uniam, eles davam chutes no chão ou vassouradas para separá-las. Morriam de medo quando ocorria o ajuntamento de algumas delas, pois viravam um ser ameaçador que corria atrás deles, subia as paredes, as mesas, os móveis. De noite, galgava a cama e os atormentava. As mulheres da vizinhança espionavam pelas brechas da porta e da janela e cochichavam: Estão varrendo a sala. Não sei por que tanto varrem o chão? Devem ser uns porcos. Dona Gertrudes levava as mãos aos olhos, como se não quisesse ver a cena: Veja, Filomena, eles estão nus, os sem-vergonhas. Vamos chamar a polícia. Dona Ismênia queria enxergar a sem-vergonhice e empurrava as amigas.

Dé e Li continuavam à espreita para não deixar uma conta se juntar a outra, porque sem demora o ciclo se desencadeava: as duas se arrastavam e alcançavam a próxima. Crescia o animal e logo todas as continhas se juntavam, formando o monstro. O medo do menino e da menina era estarem dormindo e um ventinho qualquer juntar duas peças. Poderiam ser sufocados de noite. Por isso, dormiam no quarto trancados, todas as frinchas da porta obstruídas com panos.

Entretanto, precisavam se livrar daquele tormento: levar os objetos para bem longe de casa. Como? Num saco? Não, num saco não. Isso seria conduzir o monstro. Vamos levar as peças uma a uma. Para onde? Cada uma será deixada numa rua diferente. Dé se prontificou a fazer o serviço. Li ficasse de olho na casa e nas contas. Ela não gostou da ideia. Sentia medo ao ficar só. Ele então fez a proposta final: Ou as bolinhas ou eles em casa. Juntos é que não poderiam viver.

Certa tarde as comadres da rua sentiram falta do casal. Dona Gertrudes chamou dona Filomena e dona Ismênia. Precisavam averiguar direitinho a situação na casa. Vamos espiar pela brecha da janela. Olharam, olharam, e nem sinal dos meninos. Por onde andavam os pestinhas? Devem estar dormindo. Vamos ver isso. E se dirigiram à entrada. Dona Filomena empurrou a tábua e a porta se escancarou. Uma rajada de vento levou as três mulheres para o interior da casa. E uma coisa esquisita, a se arrastar pelo chão da sala, se aproximou dos pés delas.

Fortaleza, setembro de 2008.
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4 comentários:

Carlucio Bicudo disse...

À Moda Caipira"
(Autor: Elias José)

U musquitu ca mutuca
Num cumbina.
U musquitu pula
I a mutuca impina.

U patu ca pata
Num afina.
U patu comi grama
I a pata qué coisa fina.

U gatu cum u ratu
Vivi numa eterna luita.
U ratu vai cumê queiju,
Vem u gatu i insurta.

U galu ca galinha
Num pareci casadu.
A galinha vai atrais deli
I u galu sarta di ladu.

U pavão ca pavoa
Mais pareci muléqui.
A pavoa passa reiva
I eli só abri u léqui.

U macacu ca macaca
Num pareci qui si ama:
Ela pedi um abraçu,
Eli dá uma banana...

Eu mais ocê cumbina
Qui dá gostu di vê:
Eu iscrevu essas poesia
I ocê cuida di lê...

Carlucio Bicudo disse...

Passou o Tempo
(Elias José)
Passou o tempo de roubar amoras,
mangas, goiabas e mexericas
no quintal dos vizinhos.

Passou o tempo de sonhar vitórias,
com sorriso de campeão
de futebol, basquete ou corrida de carro.

Passou o tempo de empinar pipas
e dar asas aos olhos e ao corpo
para soltar-me no espaço com elas.

Passou o tempo de não ter vergonha de ser rei dos castelos de areia
ou de esconder tesouros de figurinhas,
bolinhas de gude e pedras preciosas.

Passou o tempo de caçar briga,
chamar pro abraço ou xingar a mãe
e a raça toda do amigo-inimigo.

(Elias José. Cantigas de adolescer. São Paulo: Atual, 1992)

No último sábado (dia 2) ficamos um pouco órfãos. O escritor mineiro Elias José faleceu, aos 72 anos, vítima de pneumonia. Nelly Novaes Coelho assim o definiu:

Elias José é dos escritores que se constroem ou reconstroem a cada novo livro, conscientes de que o discurso literário ou a escritura é o elemento-chave da criação literária. A matéria que mais o atrai é a que desafia os limites entre o real e o maravilhoso ou entre o conhecido e o mistério. Nos livros para adultos, essa matéria pe dramática e densa; nos livros para a meninada, surge filtrada pelo humor, ludismo, alegria e emoções. (Nelly Novaes Coelho. Dicionário crítico da literatura infantile juvenil brasileira. p. 289. São Paulo: Edusp, 1995. Atualmente publicado pela Cia. Editora Nacional)

Para mim, Elias José é daqueles autores que, por mais que tenham escrito, farão muita falta por todas as poesias e histórias que ficaram em sua cabeça e não se transformaram em palavras. Mas, para amenizar um pouco essa ausência, Elias José deixou mais de cem livros. Neles poderemos sempre ler suas histórias e sua poesia, “fruta doce e gostosa”.

E, agora, “quem quiser que conte outra”…

Carlucio Bicudo disse...

Passou o Tempo
( Autor: Elias José)
Passou o tempo de roubar amoras,
mangas, goiabas e mexericas
no quintal dos vizinhos.

Passou o tempo de sonhar vitórias,
com sorriso de campeão
de futebol, basquete ou corrida de carro.

Passou o tempo de empinar pipas
e dar asas aos olhos e ao corpo
para soltar-me no espaço com elas.

Passou o tempo de não ter vergonha de ser rei dos castelos de areia
ou de esconder tesouros de figurinhas,
bolinhas de gude e pedras preciosas.

Passou o tempo de caçar briga,
chamar pro abraço ou xingar a mãe
e a raça toda do amigo-inimigo.

(Elias José. Cantigas de adolescer. São Paulo: Atual, 1992)

Nayara Borato disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog ponto final. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs


Narroterapia:
Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.

Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.
http://narroterapia.blogspot.com/