sábado, 26 de abril de 2008

Edson Guedes de Morais

Edson Guedes de Morais nasceu em Campina Grande (PB) em 1930. Reside em Pernambuco. Poeta, contista e crítico. Autor de Vinte Anos Outra Vez e a Virgindade do Mundo, contos, 1987, e outros livros. Estreou em 1956 com Dispersão, poesia. Seguiram-se A História Verdadeira da Morte do Delegado, poesia-cordel, 1963; Um Homem e os Homens Lá Fora, contos, 1963; In Oito, 1964, poesia; Artesãos do Nada, 1973, romance; Outras Lembranças, Outra Casa, Outros Mortos, 1976, novela; Monstro, Besta-Fera, Como Saiu nos Jornais, 1975, teatro; As Coisas, Assim Como São, Assim São, 1978, teatro. Tem romances e peças de teatro inéditos.

********


Vinte anos outra vez e a virgindade do mundo

 

O sol a prumo, tininte, as sombras por debaixo das coisas, as sombras das árvores à roda dos troncos, geometricamente, sobre os dormidos da grande sesta. O céu ardendo, campanulado de prata, sobre a casa, o lago, a vastidão perdida nos confins vislumbrados, sobre o caminho, o que chamavam de caminho, passagem de ventos, remoinho, sem vegetação, terra crestada, pedra, pó, quase esquecida lembrança de gente passando, chegando. Silêncio. Imobilidade.
Uns nas redes rotas, outros nos batentes das portas ou sobre troncos e pedras sombreados, tosquenejando, baba escorrendo, cheiro forte de sumim, de tabaco, de urina velha pelos cantos. Velhas paredes, velho teto esburacado, velha mesa, um copo, um livro, uma faca.
De repente, um grito. Sobressalto, cunha no sono, no entorpecimento de depois do sumim. Confundidos, sem entenderem, ainda, aquele grito, a própria surpresa de haver um grito, um silêncio maior, depois, expectante, e o burburinho, ruído de passos, novos gritos: “No Caminho!” Alguns deixando a casa, suas ruínas, as sombras das árvores, subindo ao mirante, confirmando o grito: “No Caminho!”.

Impulsionados por uma força nova ou muito antiga – fermento ou lia de muitas noites de esperança ou desesperação, sempre um deles subindo e no alto do mirante o olhar no longe – tentam correr. Alguns se sentaram, sem forças para mais, no desconforto, torpor depois dos sonhos, lembranças perdidas, lugares, nomes, rostos – nevoeiro, imagens morrendo – papel amarelado, tinta esmaecida, o livro, a revista, onde as mulheres viam um rosto sem rugas, cabelos escuros, palavras como família, filhos, juventude, amor, coisas antigas, quase esquecidas, como os nomes dos que se perderam pelas montanhas, dos que se afogaram por um excesso de sumim, como os nomes esquecidos daqueles que, loucos ou conscientes, saíram em dias nebulentos, contornaram a casa para o lado do abismo e se precipitaram. Muitos ainda conseguiram, no entanto, levantar e caminhar, chegar ao pátio, e puderam ver, aproximando-se, o inacreditável, o visitante cercado pelos outros, caminhando depressa, à frente dos outros, como se fosse ele a guiar aqueles que, em trepolia, tentavam alcançá-lo, tocá-lo, abrindo espaço maior junto da casa, quando os que saíam levantavam os braços em susto e cumprimento, dando as boas vindas, indicando a sombra, o banco de pedra.

E o visitante sentou-se, tirou o chapéu, aliviou os pés, despiu o casaco, aceitou a água, perguntou quem eram, se disse perdido, desencaminhado naqueles ermos, vindo de outras terras. E eles ouviram aquela voz clara, precisa – mais que as palavras, o som, a música; e olhavam aquela pele lisa, rosada, aqueles cabelos negros esvoaçantes; bastavam-se naquela contemplação: o movimento das mãos, os gestos leves, desprendidos, o nada esforço das pernas a se alarem por sobre o banco, aquele fruir de energia, aquela radiação que lhes acendia no peito tumescido de sombras o esquecido calor, afogando cansaços e desesperanças. E, quando ele riu, todos riram com ele: suas bocas se abriram, gengivais, em risos, coisa nova ali, que eles gozaram sem poupança, em suspensão, como crianças excitadas no jardim zoológico, como crentes em adoração aos pés do altar, como velhos que se lembravam da alegria.

O suor a lhe descer do rosto, ao longo do pescoço – inútil a sombra e os repetidos goles de água fresca – a roupa aderente ao corpo: ele sentiu-se cansado; aquelas criaturas o incomodavam, aqueles olhos chamejantes o perturbavam. Ele esticou as pernas, recostou-se no banco e fechou os olhos por um momento. Estaria sonhando? Que língua falava aquela gente? Nenhuma resposta lhe deram às suas perguntas: sorriam, pareciam dementes, mas, estranhamente, sentia-se aturdido com a força que parecia vir daqueles olhos e amedrontado por continuar a senti-la mesmo com os olhos fechados. Afastando o calafrio, olhou à volta, sorriu um sorriso largo, ostensivo – e todas as bocas se abriram à sua volta, sorrindo. Levantou-se e caminhou, saindo da sombra. Sentiu que o conduziam para o lago, por entre as árvores.

No lago, algumas mulheres entraram na água e se sentaram no raso, entre as pedras; outros molharam os pés, as mãos e o rosto e se contentaram; os demais fizeram um círculo, o visitante era o centro, e eles o olhavam e ele se sentiu envolto, flutuante, desligado, leve e, ao mesmo tempo, presa, coisa ancorada, peixe na rede; maior, então, o desprazimento de ver aquela gente como zumbis de olhos acesos, em desvairança, ossos muxibentos sob os farrapos, peitos e sexos descobertos.

A superfície do lago uma chapa de aço, um grande espelho ao declive do sol; os que estavam na água pareciam a gosto e ele, o visitante, quis, também, aquele refrigério. “Sim, eu quero”, disse alto, como se o tivessem convidado. Despiu a camisa, tirou os calções, a malha e, desnudo também de qualquer cuidado, caminhou para dentro do lago, sob a luz intensa que caía oblíqua, reverberava e se espargia, envolvendo seu corpo, convergindo para ele e, simultaneamente, como se irradiada dele, de seu corpo branco-dourado-nacarado, mirificamente, segundo o viam aqueles olhos ansiosos enquanto ele corria para o meio do lago.

Elasticidade, ritmo solto, espelho quebrado se refazendo, calicromia, esferas douradas, opalescentes, os respingos brilhantes salpicados, rolando na pele vibrante. Abraço, grito partido, instante suspenso. Ele pulou, mergulhou; completou-se o grito. Mas logo, de novo, o corpo surgindo, recriando o mundo.

Alguns caíram apagados, dormidos para sonhos mais leves; outros correram, revigorados, para o meio do lago, contaminados, possuídos, soprados de novo, transfigurados, pois se viam, reviam-se, naquele corpo jovem, tinham vinte anos, outra vez, e a virgindade do mundo. Não podiam deixar, novamente, lhes escapasse a Primavera: correram para ela, lutaram por ela, prenderam-na nos braços, aos gritos, desesperados, garras fincadas, espadanando sangue e a areia do fundo, amontoado de corpos derrengados, mas, naquele momento, possuídos da febre, como no tresvario de mil frutos de sumim.

Depois, um corpo rijo amolentado – postura de ave após o tiro, braços abertos, inúteis asas sobre a água, sopro desfeito – mancha crescendo rubra, ocaso do sol por sobre o lago.
/////

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Maximiano Campos

Maximiano Campos nasceu no Recife, em 1940, e morreu em 2008. No final da década de 60, publicou o primeiro romance, Sem Lei Nem Rei, transposto para a música por Capiba, com um longo prefácio de Ariano Suassuna, que analisava as qualidades de sua obra e o desenvolvimento da literatura nordestina. Na década de 70, publicou o livro As Emboscadas da Sorte, onde se encontra o conto "Na Estrada", um dos seus melhores trabalhos literários e dos momentos mais altos da literatura brasileira. Em 75, a Editora Artenova, do Rio de Janeiro, publicou a novela Major Façanha, que se transformou, imediatamente, num sucesso de crítica e de público. A Memória Revoltada foi publicada no início dos anos 80, pelas Edições Pirata, em co-edição com a Civilização Brasileira. Escreveu um longo ensaio para o posfácio do livro A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, saudando as qualidades do autor de O Auto da Compadecida. Tem contos publicados em várias revistas e antologias brasileiras, além de livros para-didáticos. Publicou duas antologias e deixou muitos contos inéditos.

***

As feras mortas

 

Você pode dizer que é mentira minha. Quem sabe? A verdade é que estou sendo perseguindo. As notícias dos jornais falam de misérias. Alguns amigos se afastaram, arrebentaram-se algumas esperanças. No rastro dos meus fracassos, chegou a angústia endemoniada. Mas, o pior é o tempo que me persegue. O tempo anda me perseguindo. O tempo do relógio, o que me escraviza na repartição, e o outro: o tempo comum a todos nós, espectadores dos grandes desassossegos da ambição universal que, às vezes, assume a forma de massacres, guerras, explosão de ódios, como espasmos epiléticos da humanidade. O tempo é um calhorda, tanto serve a Deus quanto ao Diabo. Você está rindo, mas eu lhe digo: o tempo é um assassino perigoso. Mata a mocidade, desejos, amizades, depois, na velhice, dá o golpe final no que resta de nós. Meu amigo, a realidade nem sempre é a verdade. Além do mais, cada qual tem a sua. Sabe de uma coisa? A realidade também anda me perseguindo. Agora é que você vai rir mesmo, mas vou lhe dizer: eu sou o que sonho. Eaqui, nesta sala, o meu sonho anda solto, fera liberta, desembestada em descampos sem cerca nem dono. A realidade quer arrebentar comigo. Mas eu vou me proteger com o sonho. Esse vai ser o meu castelo, nele vou colocar o mundo verdadeiro, o descompromissado com as etiquetas, os horários, as convivências interesseiras. É assim mesmo: a realidade quis me fazer medo. O tempo quis e quer acabar comigo. Sei que há dois grandes circos armados por Deus: o da vida e o da morte. O danado, mesmo, é o preço que se paga para tomar parte no espetáculo. Os que têm fé afirmam que o circo da morte é limpo asseado. Mas ninguém, ainda, conseguiu sair dele e voltar para contar aos que estão no circo da vida como é o espetáculo. Pode até ser o silêncio. Não sei porque, mas acho que o tempo é um palhaço maldoso e meio sem graça. E a realidade é uma velha atriz cansada, com uma maquilagem agressiva e a mania de dar más notícias. E a nossa atuação nisso tudo? Nisso tudo não, no circo da vida. Obrigam a gente a entrar na jaula do leão, dar saltos mortais, aplaudir o palhaço, ser o palhaço, e tudo isso sem repouso, mudando sempre de lugares. Pois bem, não saio mais desta sala . Sei que o tempo não é um cão que a gente enxote com facilidade, nem a realidade apenas uma percepção, espécie de fotografia da obra de Deus. Fechei os olhos para toda essa farsa. Sonho. Pra mim, sonhar é que é viver. Olhe: esta casa tem duas salas: numa coloquei o passado, noutra, o futuro. O presente não me interessa muito. Além do mais, o presente é feito água de rio, quando a gente vê já passou. E nunca se pode distinguir a que passou da que está passando e da que vai passar; o importante é o rio. Naquela sala, ali em frente, há dois retratos: um de Napoleão e outro de César. Todos os dias eu indago a eles: "Onde está agora o poder de vocês"?

- E o que é que eles lhe respondem?


sábado, 19 de abril de 2008

Astrid Cabral


Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda, transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 em conseqüência do golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa. Publicou diversos volumes de poemas e contos.



Águas represadas

Terei eu três anos? Pouco importa. É quando me sinto inaugurando o mundo dentro de enorme bacia de alumínio cheiinha d’água. Estou ao sol e o sol se multiplica e se esfacela em reflexos que dançam e ondulam sob minhas mãos. Em vão tento agarrá-los, esses pseudos peixes. Bato no corpo da água fresca, fria, penetrável. Corpo que se fende, salta, saltita, se estilhaça em gotas que espirram das bordas molhando o mosaico do chão, ou se recompõem rapidinho, escorrendo por meus ombros e braços, regressando à bacia e deixando-me entrever o corpo imerso, barriga, pernas, pés, tudo oscilando, mesmo que eu fique imóvel. Chamam-me e me finjo de surda, atenta que estou ao chapinhar da água sob as palmadinhas que improviso transbordante de euforia. Tenho o rosto mais úmido que focinho de cachorro e língua de gato. Ouço dizerem, deixa a patinha na lagoa dela enquanto houver sol. O sol não se apagou. Esse dia nunca anoiteceu, sempre luminoso dentro de mim.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

Aleilton Fonseca



Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, Bahia, em 1959, viveu em Ilhéus, Uruçuca, Salvador, João Pessoa, Vitória da Conquista e São Paulo e atualmente reside em Salvador. Poeta, ensaísta e professor universitário, é graduado e mestre em Literatura Brasileira e fez Doutorado na USP. Já publicou contos, poemas, artigos e resenhas em jornais, revistas e periódicos especializados. Publicou três livros de poesia: Movimento de Sondagem (Coleção dos Novos, 1981), O Espelho da Consciência (1984) e Teoria particular (mas nem tanto) do poema (1994). Acaba de publicar o ensaio crítico Enredo Romântico música ao fundo (Manifestações lúdico-musicais no romance urbano do Romantismo). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996. Rua Rubem Berta 267, ap 402 Ed. Iana - Pituba CEP 41.820-040 Salvador- Bahia

O sabor das nuvens

Era aquele cheiro cálido de biscoitos no formo. Invadir o portão era sempre o sonho, a vontade de ver como se faziam biscoitos, quantas mãos os amassavam, enfornavam, acomodavam nas embalagens coloridas. Mas não podia, que lá sempre havia o homem a vigiar, sozinho, quieto na guarita. Ele se ocupava em ouvir um rádio de pilha, enquanto os nossos olhos escalavam o ar para colher a fumacinha, um sorriso sorrateiro da chaminé multiplicando-se em nuvens baixas. Elas levavam aos arredores de nossas casas as cores silenciosas daquele gosto morninho. Dava-nos vontade de saborear a fábrica inteira.
Era uma enorme casa. O ruído dos geradores era o aviso, o coração da fábrica pulsava: distraía-nos como um motor de nave em vôo, zumbindo nos ouvidos curiosos. Mas, o portão! Sempre fechado aos estranhos – estranho, eu?! –, a guarita e seu morador solitário, escutando aquelas notícias. Seu mundo saía do rádio e ali mesmo se esvaía. E as letras vermelhas, iradas, gritavam: ENTRADA PROIBIDA
Agora, não: eu ia vencendo portão adentro, de repente escancarado; nem portão que era, mas a entrada que me chamava sem impor condições:
– Ei, o senhor está procurando alguma coisa? - um menino me atalhou.
– Biscoitos! – respondi, sem deixar escapar-me o fio de meu próprio tempo.
– No meio do mato? - ele insistiu.
– Não, no meio da fábrica.
– ?!
– Huummm. Esse cheiro! - murmurei, sentindo-me orvalhar nos lábios.
– Cheiro de mato e insetos - ele pontuou-se no real.
– Não, biscoitos quentinhos.
– ?!
– Veja a fumaça da chaminé.
O menino olhou para as nuvens, que se iam altas e ensolaradas, me encarou e, distanciando-se um pouco, me observava de um certo soslaio, bem que desconfiava de mim. Eu estava um doido? Ambos fizemos pausas, entrecortadas de olhares esconsos. E, nesse diálogo, já de somente olhar, nos tangenciávamos, nos recortes do tempo. Cada qual seus quais, com suas estampas, em que a vida pode ser revisitada.
Era um menino e sua bicicleta, nas rodas de seu presente. Eu, então... Ele encostou o brinquedo numa estaca sobrevivente, entrou na fábrica saltando por sobre um resto de parede. E me disse que seu avô trabalhara ali antigamente. Ao se aproximar, ele afastou as ramagens tenras, por entre as touceiras de mato. Colheu um melão-de-são-caetano e o apertou entre os dedos, as partes se abrindo em estrela, expondo as carnes vivas e sementes do fruto silvestre. Era bonito, desde menino eu achava: pena que não se prestava a melhor degustação, só servia para alimentar o sonho. Aquele fruto viera do passado, entrando portão adentro para tomar conta de tudo. Eram as ramagens da mão do tempo.
– Olhe isso!
O menino tocou o pé na parede e me disse que estava tudo podre. O telhado viera abaixo, os cupins devoraram as madeiras. Eu ouvia o relato, mas não acompanhava seus olhos. Ouvia mesmo era a engrenagem trabalhando. As máquinas que nunca vi, apenas as imaginara, pelo som do trabalho que os cobogós me avisavam. Dois tijolos saltaram, quebrando-se sobre o capim rasteiro que assoalhava o lugar. Eram dois tijolos que se esmigalhavam, mas eu os revia intactos, na parede firme, na cor do óxido de terra, sempre novos.
O menino montou de um salto, saiu cavalgando a bicicleta, ia-se equilibrado. Segui atrás, sem saber ao certo por que o acompanhava. Lá adiante, vi quando ele entrou num terreiro, a casa simples mais ao fundo. Continuei caminhando, até me acercar da grade baixa do portão. Na frente da casa compunham-se pequenos canteiros de flores, acenavam-me ali nessa busca as rosas e seus espinhos. Havia uma aroeira jovem, sob a qual um banco de madeira convidava à sombra:
– Ô de casa! – me arrisquei a novo rumo.
Um homem de boa idade assomou à porta, logo me averiguava as feições, certamente para ver se me conhecia de outro tempo ou lugar. Ele veio ao meu encontro. Senti o seu esforço a esmo: não, ele não me conhecia. Eu desatei a cena:
– Boa-tarde. O senhor é seu...?
– Ivo, eu mesmo. Boa tarde. É alguma coisa? – ele respondeu e perguntou, reticente.
– Nada. Ia passando, seu neto me disse que o senhor trabalhou na antiga fábrica, então...
– Ah, sim, trabalhei, né? Mas isso faz muitos anos, pra lá de uns trinta! – ele informou, enquanto apontava o banco de madeira, num convite.
– É, faz tempo! - comentei, enquanto nos sentávamos à sombra.
– O senhor veja: o tempo passa, leva tudo. Leva a gente também - ele filosofou, buscando apoio nas nuvens.
– O senhor se importaria de me falar um pouco daquele tempo, da fábrica, como era antigamente?
A primeira frase de sua resposta foi um gesto silencioso, de quase em quase, desde seus olhos para os meus. Depois seu olhar fugiu para os galhos da aroeira que nos assistia. Esse seu Ivo, avô do menino, estava já encabulado. Eu lhe trazia aquele assunto morto, num repente voltando à luz da tarde. Ele estava surpreso. Depois de se cultivar absorto, num quase sorriso, ele murmurou, com jeito de certa tristeza:
– Ah, não sei lhe contar, não. Não sei de lá, nada.
– Mas, e o serviço, lá dentro? – eu quis insistir.
– Lá dentro, não lembro.
– Mas se o senhor trabalhou lá?!
– Mas eu só trabalhava fora.
– Ah – murmurei, desapontado.
– Quem é o senhor? – ele reverteu a entrevista, mas já eu desanimara.
Fiquei de pé, olhei a aroeira tranqüila, ele também se levantou. O menino vinha de volta, os olhos acesos em nossa direção.
– Contou a ele, vô? – disse, com o ar orgulhoso.
– O quê?
– Que o senhor era vigia da fábrica?
Para mim, esta revelação do menino, diante da fala vazia do seu avô. Meio a contragosto, o velho esfregou as mãos, com os dedos entrelaçados, e confirmou:
– Eu era só mesmo vigia.
Os três ficamos calados. Eu reconhecia naquele homem a função que nos impedia de alimentar a curiosidade, de nos arriscar à prova de alguns biscoitos. Ele ficava de guarda na guarita para que os meninos vadios não entrassem. No seu sem jeito, ele confessava isso, meio que pesaroso, até mesmo descontente. Restava-nos aquele silêncio em branco.
Então eu cumprimentei o velho com um gesto e disse “até logo”. Aquilo era mesmo um adeus. Ele, cabisbaixo, nem respondeu. Segui pelo caminho de barro, sem ânimo sequer de olhar para trás. De repente, ouvi que o menino me seguia, em meu rumo direto de volta à fábrica. Meus olhos ainda iam cheios das imagens que aquele avô não pudera me contar. Toda a fábrica para ele resumia-se à mínima guarita, o tamanho exato de sua história. Eu me senti pleno, tinha a fábrica inteira dentro de meus olhos. E agora ia seguindo, o menino guiando, sem palavras quais que fossem.
– Essa fábrica foi importante aqui, o senhor sabe? – ele se esforçava para preencher a página que o seu avô rasgara sem querer.
Eu fui seguindo pelo acostamento da pista recém-asfaltada, enquanto o menino me acompanhava, pedalando devagar. Aproximei-me do velho prédio e agora eu via de fato as ramagens que invadiam os restos das paredes, entrando e saindo pelos cobogós sobreviventes.
De novo, entrei pelo vão aberto das ruínas da guarita onde ficava o vigia: era a boca do tempo que tudo engolira. E percorri aquele mapa da fábrica, um debucho antigo perdido nas memórias envelhecidas de uns e sepultadas de outros. Eu rabiscava as imagens, preenchendo-me de todos os talvezes. Riscava por onde fosse que ficava cada máquina, onde era o forno, onde se empacotava, tudo agora um ex-existir das coisas e dos gestos. Os operários de novo a postos, suas vozes e passos abafados pela vibração das máquinas. Quantas vezes eu sonhara ser um deles! Dentro de mim a massa ia engrossando, os biscoitos tomando forma e daí ao forno, saindo de lá quentinhos para os pacotes e para as latas.
Eu não podia me perder daquele cheiro. Eu precisava me repor no saber experiente que a vida desbota e destrata, nas rimas certas do texto, a súmula do sim e do nada, as respostas que a gente colhe como frutos de safra no pomar. Estou aqui, mas cheguei tarde, contudo em data aprazada: em vez de massa, preparo um outro tipo de fermento.
O relógio sumiu de minha rota, eu me vi num ponto suspenso, as reticências entre duas vírgulas absortas, antes de assinar aquela sentença. Eu tinha de reconhecer: três gerações, o avô, eu e o menino vivíamos cada um sua própria alegoria, cada qual a mais plausível e incerta. Em cada um de nós havia uma fábrica diferente brotando de dentro do mato, que invadia os nossos olhos e os nossos dias. Dos três sobreviventes do sonho, apenas eu tinha pena e papel; e sabia sentir as cores, o gosto e o sabor das nuvens.
Tudo sobrevive nos sulcos que as letras escavam sobre o mudo pergaminho. Debaixo dos riscos, sobrevivem as demais escritas.
Eis a fábrica. Entrei de novo, sem licença. Eu andava a esmo, pelo meio do salão de trabalho, tropeçando nos matos rasteiros. Eu só queria repor as peças em seus lugares, ligar as máquinas, aquecer o forno e despertar a chaminé. O menino de novo me observava, talvez curioso ante minha empreitada. Eu perscrutava-lhe uma pergunta que ele não alcançou formular. Eu, também funcionário, em certo depois, minha função era a última de todas. Enfim, eu agora a exercia. Ouvi que a fábrica apitava e me senti arrepiar inteiro. Estava findo esse turno de trabalho. Então eu fui saindo.
– Esta fábrica está morta.
O menino disse isto e retomou sua bicicleta. Deu uma última olhada, foi-se a guiar para longe, fazendo girar o tempo presente. Era já o cair da tarde; e dentro de mim o apito da fábrica chorava. Eu via de novo a fumaça formando nuvens e provava o cheiro morno dos biscoitos. Continuei caminhando, sem olhar para trás, os matos já não me incomodavam. Era hora, e eu ia saindo pelo mesmo portão aberto, por onde as minhas lágrimas passavam.

(Do livro O Desterro dos Mortos (Relume Dumará), 2001)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cyro de Mattos




Cyro de Mattos nasceu em Itabuna em 31 de janeiro de 1939. Advogado e jornalista com passagem na imprensa do Rio. Autor de 16 livros. Colaborador de revistas e jornais culturais importantes do Brasil. Contos seus foram publicados em Portugal, Alemanha, Suíça, Dinamarca e Rússia. Com o livro Os Brabos conquistou o Prêmio Nacional de Contos Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e com Os Recuados conquistou o Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras e Menção Honrosa do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Sua narrativa “Ladainha das Pedras” foi incluída na antologia Visões da América Latina, publicada na Dinamarca e organizada por Uffe Harder e Peter Poulsen. Publicou alguns livros de poesias. Seu nome figura em obras como Novo Dicionário de Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes; Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho; Literatura e Linguagem, de Nelly Novaes Coelho; Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado; Bibliografia Crítica do Conto Brasileiro, de Celuta Moreira Gomes e Theresa da Silva Aguiar; e na Enciclopédia Barsa.

Terras da Morte

Queria acompanhar um enterro e ver pela primeira vez como era que enterravam o defunto no cemitério. O enterro às vezes passava pela rua do comércio. As pessoas cabisbaixas atrás seguiam o caixão com o defunto, que era levado pelos homens mais jovens. Quando cansavam, revezavam-se. Outros homens seguravam agora nas alças do caixão, e o cortejo prosseguia em silêncio na rua de chão batido. Contornava a rua do comércio, rumo ao cemitério.
Gente parava nos passeios, tirava o chapéu em sinal de respeito ao morto, curiosos apareciam na porta das lojas. Ficavam olhando o enterro passar com as pessoas tristes. Algumas levavam flores nos braços, os parentes e amigos do morto. Quando era enterro de criança, meninos e meninas acompanhavam o cortejo à frente do caixão, vestidos como anjo num camisolão de cetim branco, uma coroa de flores na cabeça. Tinham asas feitas com penas de galinha, presas às costas. Levavam flores alvas e cantavam canto de igreja com os pequenos corações contritos.
A primeira vez que vi um enterro de criança soube então que menino como eu também morria. Ia para o céu, claro, o padre dizia isso na missa, que Jesus gostava muito das crianças porque eram puras, não tinham os pecados de gente grande.
Mas o que era a morte, comecei a indagar lá em casa. A mãe falou que era uma mulher feia, mas quem acreditava em Jesus e seguia os preceitos que o filho de Deus ensinava não devia temê-la. Quando ela chegava para carregar uma pessoa para o além, que é o outro mundo, quem foi bom aqui nesta terra, não cometeu pecado pesado, vai ter o seu anjo de guarda para levar a alma para morar na casa de Nosso Senhor. Quem foi mau, cometeu os piores pecados, como matar o semelhante, a morte leva a alma dele para o fogo do inferno. Quem foi ora bom, ora mau, vai ser levado para o purgatório, uma espécie de lugar onde a alma fica sofrendo pelos pecados menos pesados que cometeu até se purificar e alcançar o perdão de Deus.
Tudo isso que a mãe explicava sobre a morte podia ter sua verdade e até me convencia em parte sobre o que essa mulher feia gostava de fazer a cada pessoa que levava para outras terras.. Só não gostava quando perguntava se um menino depois de morto podia voltar de novo para brincar com os amigos aqui na terra, e a mãe revelava que nunca ninguém soube que isso já havia acontecido um dia.
- Então a morte que vá comer bosta de galinha! – dizia eu, fazendo com que minha mãe desse uma boa risada.
Quando perguntava ao pai o que era a morte, ele prontamente dizia que com ele a bicha imunda não viesse se fazer de prosa. A taca de couro grosso estava ali mesmo guardada no baú para dar umas boas tacadas na indesejada, se ela algum dia entendesse de querer lhe fazer uma visita.
Sorria agora eu, satisfeito com a coragem que o pai demonstrava para fazer correr a morte, se ousasse aparecer lá em casa, ia receber na mesma hora uma boa surra aplicada nas costelas dela com a taca de couro grosso.
Naquele dia resolvi acompanhar o enterro que passava pela rua do comércio com poucas pessoas. No início acompanhei de longe, precavendo-me para que algum amigo de meus pais não me visse e fosse contar depois o que eles certamente não aprovariam. Ficariam zangados e me colocariam de castigo. Proibido de brincar com os amigos por vários dias.
Quando da ladeira em que o enterro subia vagaroso se avistou o muro do cemitério, aproximei-me por trás das pessoas que participavam daquele cortejo calado, com seus ares tristes. Pouco depois, entrava com o enterro no cemitério, que eu via pela primeira vez e que me deu com seus ares sombrios um frio na barriga, como nunca tinha sentido. Tímido passei os olhos pelas galerias com muitas gavetas tapadas com tijolos, pintadas de cal. O nome do falecido inscrito em cada gaveta. Observei capelas com retrato dos falecidos lá dentro, escultura de homens importantes em cima dos mausoléus de mármore. Lá embaixo, a terra cheia de cruzes indicava covas rasas, provavelmente ali os pobres eram enterrados. Foi para lá que o enterro se dirigiu.
A cova já estava cavada num buraco para receber o caixão com o morto. Antes de descerem o caixão, a mulher de cabelos brancos, num vestido pobre, pediu que tirassem a tampa. Queria ver o marido pela última vez. Ela passou a mão no rosto do morto, que estava preto feito carvão, os olhos fechados. A mulher começou a chorar alto. Esperei que descessem devagar o caixão no buraco, , estava amarrado com cordas grossas pelas alças..O coveiro jogou depois pás de terra, que aos poucos foi enchendo o buraco. A mulher continuava a chorar alto. Comecei também a chorar e, antes que ouvissem meu choro, fui saindo dali nervoso, tropeçando nos passos.
/////

sábado, 5 de abril de 2008

Paulo de Tarso Pardal




Paulo de Tarso Vasconcelos Chaves (Russas, 1955) é contista, artista plástico, crítico literário e músico. Licenciado em Letras e mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará. Professor de literatura em colégios e faculdades, atua na imprensa cearense como ficcionista e crítico literário. Tem editados os livros de contos Margem Oculta (Fortaleza: Edição Gráfica Oficina, 1995), Difícil Enganar os Deuses (Sobral: ASEL, 1999) e Do Pitoco (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2006); além da dissertação de mestrado O Espaço Alucinante de José Alcides Pinto (Fortaleza: UFC Edições, 1999), dos ensaios Pensaios (Fortaleza: O Curumin Sem Nome, 2000), Discurso do Imaginário (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2003) e Autores do Vestibular da UFC (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2005 e 2006), dos livros Sonetos (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2000), de poesias, e Pirralho (Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2002), de partituras.

O DORSO DO LIVRO

Comi uma barata inteira. Ouvi o estado da morte quando a esmaguei com o pé. Juntei os pedaços na palma da mão, separei pata por pata e distribuí-as pelas bordas do prato. A gelatina amarela e as asas ficaram no centro, formando um girassol, que girava com o meu olhar na solitária escura.
Estou aqui a trinta e dois milhões de traços. Tenho uma terrível angústia quando percebo que não existe mais espaço para fazer um só risco na parede. Conto o tempo por esses traços. Cada sono é um risco. Existem trinta e dois milhões de traços que conto a cada quatro sonos. É o que posso fazer para não ficar doido. Não sei a quantos dias equivalem os trinta e dois milhões de traços. Nos primeiros trinta e dois mil, eu ainda sabia o equivalente em dias. Mas tive que me abster de contá-los porque os traços, a partir de um certo sono, passaram a ser mais vitais para mim do que os dias. Por isso, não sei há quantos anos estou. Sei que há trinta e dois milhões de riscos.
Os traços na parede são a minha vida. Lembro que nos dez mil traços recordei a última rua por onde passei antes de vir para cá. Todos os acontecimentos que ocorreram naquele dia eu marquei com um risco. Tenho uma traço para o poste, outro para o ônibus, outro para a calçada, outro para o cigarro, outro para dono do bar, outro para uma mulher que bebeu comigo, outro para o balcão, outro para o sangue. Com eles fiz o meu universo – o mundo são riscos. Não posso ficar sem eles. Acho que ainda sei pensar porque tenho os traços, por isso eles são mais importantes do que os dias, que não sei mais como são. Não sei o que fiz para estar aqui. Sei que existe um traço no meio da parede, maior do que os outros, que deve significar algo importante, mas não me lembro mais. Devo ter, agora, só um pedaço do cérebro – aquele que sabe contar os trinta e dois milhões de riscos a cada quatro sonos: não sei pensar além disso.
Depois que eu comer a barata, vou dormir pensando no prazer de fazer mais um traço na parede.
Eles pensam que já morri: há trinta e dois traços que não me mandam comida: por isso comi uma barata inteira: azar dela!
Eles têm medo de mim. Acham que virei bicho, que não precisam mais gastar comida com um bicho.
Acho que daqui a trinta e dois riscos eles vão abrir a porta que há trinta e dois não abrem e, neste momento, vou mordê-los e engoli-los, como faço com esta barata. Daqui a trinta e dois traços, vou ficar livre de gritos do meu pensamento que ecoam desesperadamente nestas paredes, e eles vão notar que ainda não morri.
Daqui a trinta e dois gritos, depois que eu comer o primeiro homem, vou fazer o segundo contar os trinta e dois milhões de traços trinta e duas milhões de vezes. Só assim, poderei matá-lo também.
Enquanto os trinta e dois riscos não chegam, vou mastigar a última perna da barata que está no prato: trinta e duas milhões de vezes.

(Extraído de Margem Oculta)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Darcy Azambuja


Darcy Pereira Azambuja nasceu em Encruzilhada, RS, em 1901 e faleceu em Porto Alegre, em 1970. Sua estréia, em 1925, com No Galpão, teve o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, mereceu a melhor crítica e recebeu o favor público. Entretanto, só voltaria a publicar novo livro de contos regionalistas, nos moldes do primeiro, em 1956. Ao longo desse largo espaço de tempo, deixou de fazer literatura para entregar-se ao magistério superior e à administração pública. Chegou a catedrático da Faculdade de Direito de Porto Alegre e a secretário do Interior e Justiça do governo do Rio Grande do Sul. Nada, porém, impediria que seu livro de estréia continuasse a "fazer carreira literária". Dizem que, se os escritores deixassem sucessores, como nos inventários, este contista seria o herdeiro de Simões Lopes Neto.

Contrabando
Marchavam em fila indiana. Na frente ia o Fidêncio Lopes, o maioral do negócio. Dirigia do pescante a travessia arriscada, com tino e segurança de velho boleeiro de diligência que fora, batendo, anos, a mesma estrada. Logo atrás o Zeca e o Osório, em seguida os cargueiros sem arreta, pelas dúvidas, que acolherados num aperto, atrasariam qualquer manobra. Fechavam a marcha o Bento e o castelhano Negrito, que se lhes agregara, de acaso, — "pa mirar de mas cercano a los guitas". E como quarteador, para garantir nos repechos, a umas cinqüenta braças na frente, ia o Chiru — novilho de aspa fina, como dizia o Fidêncio —, para bombear o caminho.
A noite pendia para a madrugada, mas a névoa, adensada já nos baixios, cerrava mais a escuridão. Mal se divisavam, diluídos na noite os vultos negros das coxilhas mais próximas, e as árvores e as moitas fundiam-se na tinta escura, surgindo de chofre, a roçar os ombros e as bombachas dos cavaleiros. De quando em quando, ao contornar-lhes as faldas, os coxilhões elevavam-se numa grande mancha negra dentro da cerração e pareciam crescer, barrando a estrada.
Silencioso dentro da noite perdia-se o campo enorme, imerso nos vapores cada vez mais densos no ar frio e calmo.
Fidêncio Lopes fazia empenho em entregar o contrabando sem desconto algum, não só pelo valor das mercadorias, como por orgulho e capricho de velho cruzador clandestino das fronteiras. Era para diversos negociantes da vila e ia nos três cargueiros; sedas, jóias e armas, afora alguma miudeza de pouca monta. Dezessete a dezoito contos. Mas o comandante da guarda aduaneira, que de há muito lhe seguia os passos fugidiços, esperava desta vez seguramente apreender-lhe o negócio. Fidêncio sabia disso e era, pois, uma questão de honra profissional o enredar o rasto ao fisco e chegar a salvo. — Ultimamente para que serve o quarenta e quatro? — arrematava disposto, antevendo escaramuça quente.
Pouca gente levava sempre consigo — que em tropa grande há mais refugo que matambre gordo.
Do ponto em que estavam, pouco mais de três léguas havia para entrar na porteira do Capão Grande, já em terras do Fidêncio. Depois de alcançarem-na, estava concluída a empreitada, pois "nos campos dele, só Deus". Tinham passado a linha divisória um pouco acima do Centurion. Mais de uma semana de tempo ruim — as chuvas tinham levantado a água aos galhos — ilhara-os do outro lado da fronteira, na pulperia do Aguirre, a comer carne assada e jogar o truco. Aberto o tempo, fizeram-se de viagem, à boquinha da noite.O rio campo fora. Não era para qualquer achar o caminho certo naquele mundo de água solta. As picadas do passo, borradas pela enchente, perdiam-se por mais de duas quadras entre o mato baixo das margens, torcendo em cotovelos, mergulhando mato a dentro, contornando sangas e atoleiros, sumidas na noite densa. Amarraram os cargueiros uns aos outros para não se extraviarem e levantaram as canastras, se bem que tudo viesse retovado com oleados e as bruacas fossem de couro inteiriço. Mas, pelas dúvidas, que água não é brinquedo.Fidêncio, com as botas atadas nos tentos, cutucou com o calcanhar o colorado, que dava bufidos na beira d'água, e caiu na frente, certo que nem capincho em porto velho.
— Rédea curta e venham vindo no mais, que eu aqui estou mesmo que em casa.
A água marulhava, soturna, nas patas dos cavalos, subindo às vezes até meia costela. Através da noite grande e negra vinha o rumor abafado da cachoeira, quadras abaixo, afogada pelas águas grossas da cheia.
O Negrito, que vinha na retaguarda, chasqueou para o Bento: "Pero, chê, por acá ni los biguás". — E, livrando o corpo a um galho baixo: — "Palos, antonces, adrede pa rachar las aspas a um cristiano. Por lo seguro no me quedo aficionau".
O Bento, crioulo daqueles pagos e veterano em passagens idênticas, respondeu no mesmo calão: — "Hace fuego em los ojos, castejano, que te plantas em el charcó".
Passado o fio da correnteza, embrenharam-se pela picada que serpejava entre os caponetes ilhados, através dos sarandizais fechados, nunca em linha reta, sempre quebrando à direita, à esquerda, procurando a feição propícia da terra firme. Afinal tinham saído para o campo limpo, e já traziam duas léguas de marcha cautelosa e suspicaz, cada um com a Winchester atravessada no lombilho, a mão no delgado, esperando pelo que desse e viesse.
Era a zona perigosa. De dentro da treva podia a cada momento surgir, de abrupto, a guarda que velava. Desafeita e confundida na noite opaca, a emboscada podia atalhar, estrupindo de chofre numa arrancada, atacando à queima-roupa. Por isso, na frente, distanciado da coluna, ia o Chiru, de bombeiro. Nele e na sua perspicácia e sangue-frio, estava a segurança de todos. Era simples mas arriscadíssima a incumbência. Não tinha mais que, ao pressentir a guarda, avisar os companheiros. Se, ao perceber o perigo já não pudesse voltar, preveni-los-ia com um tiro, e depois cuidasse da vida... Era posto que demandava coragem e dedicação. Todos, porém, confiavam no Chiru que, mesmo a custo da vida, não os deixaria cair desapercebidos sob as carabinas da guarda.
Não as temiam, porém. Afeitos àqueles perigos e sobressaltos, sempre em risco, na iminência da morte, cristalizara-se-lhes em hábito a existência errante e insegura, noite e dia sobre as coxilhas da fronteira. Ora cautos, resvalando em fugas contornantes, ora afoitos, rebatendo de frente, a bala, o fisco vigilante, carregavam sempre as mercadorias que a tarifa fazia preciosas. Entre a vida e a morte, aproximadas na expectativa dos recontros, passavam calmos, quase indiferentes, derivando para aquele comércio perigosíssimo a bravura e o estoicismo da raça, vindos de longe, do passado guerreiro, aceso outrora nas lutas que haviam feito vibrar o imenso arco da fronteira, distenso do Iguaçu ao Chuí, nos vaivéns incertos das guerras e revoluções.
O Zeca, tentando divisar estrelas no céu encoberto pelo nevoeiro, murmurou a meia-voz para o Osório, que vinha logo atrás: "Deve ir virando para as quatro. Como quer, parece que escapamos".
Negrito, que não se sofria muito tempo calado, pôs o cavalo ao lado do Bento — "Sabes, chê, que estoy c'una gana danada de pitar?" — O Bento sacudiu os ombros. Que era ordem. Não se fumava. Acender farol aos guitas, não é? Só se fumasse com a brasa para dentro.
De feito, naquelas ocasiões bania-se tudo que pudesse assinalar a presença de passantes. Não se fumava e a conversa era pouca e em voz baixa. E deslizavam assim, cortando o campo em silêncio, evitando os pedregulhos da estrada, onde os cascos dos cavalos fariam ruído. O Fidêncio ia sempre alerta, ouvido atento aos mínimos ruídos que dissonassem do rangido abafado dos cargueiros e arreios.
Por sorte, nem quero-queros haviam encontrado, que os denunciassem com o alarma estrídulo de eternas sentinelas dos campos. O velho contrabandista prelibava já, no íntimo, mais aquele buçal passado aos aduaneiros. Também, era que nem sorro velho naquelas coxilhas, onde conhecia restinga por restinga, de há tanto que cruzava por ali. Mais algumas quadras e estavam em casa. Depois era um brinquedo.
Na frente, meio indistinto, ouviu um estrépito surdo, como de cavalo que tropeça. — Havia de ser o Chiru. Indiozinho de confiança, aquele! Ia certo e vivo no rumo da querência.
Com efeito, o Chiru ia na frente, no tranco do picaço, furando com os olhos a treva cinzento-negra da madrugada de névoa, orgulhoso daquele posto de honra que lhe dera o patrão. Era, apesar de muito moço, a confiança do velho Fidêncio. Morrera-lhe o pai o ano atrasado, e ele passou a ser o capataz, o faz-tudo da fazendola da Limeira, onde o dono quase não parava. Deixara o rancho com a mãe e instalara-se definitivamente na casa do patrão, tomando a si todo serviço. Pouco mais que adolescente, a vida do campo fizera-o homem depressa. Fidêncio estimava-o deveras, passando ao filho a velha gratidão que tivera ao pai, de quando andavam na revolução de 93, curtindo juntos as durezas da campanha, e onde fora por ele salvo, num entrevero, baleado na perna e destinado a morrer sob as patas dos cavalos, se o amigo o não tirasse na garupa. Morto o velho companheiro, que jamais juntara pecúlio, a proteção e a amizade reverteram ao filho, aquela amizade funda e concentrada, niveladora de peões e de patrões, criados nas mesmas lides, onde gradua, não o nascimento ou fortuna, mas o valor de cada um.
O Chiru ia pensando na sua vida. Tinha ainda que cangar duas juntas antes do inverno e debulhar as carradas de milho que estavam no girau do galpão pequeno.
Afora todo o trabalho do campo. Inda mais agora, com a compra das duzentas reses do Ferico. Gado lindo. Tudo pampa. Cada novilha de sobreano que dava gosto olhar-se. O patrão já dera ordem de ajustar mais um peão, que os dois que havia não davam conta do serviço. E ia passando em revista tudo o que havia a fazer, toda a sua vida simples e laboriosa, sem desvios nem ânsias perturbantes, onde mal aflorava uma ambição. Mais tarde, com certeza, assim que tivesse a sua juntinha de tambeiros, podia então, mesmo sem deixar a estância da Limeira, dar uma arrumação na vida. Essa "arrumação" era a Lavica... E ao pensar enchia-se-lhe o peito de uma onda doce. Ah! a Lavica... Como um homem se deixa bolear... A sua imaginação abria uma clareira na noite e, num retângulo do sol, via-a, todo o rosto trigueiro da chinoquinha inundado da luz dos olhos. Mais que os lábios úmidos, mais que o peitinho redondo de rola, mais que tudo nela, prendiam-no aqueles misteriosos olhos de mulher, onde havia o infinito e a suavidade das coxilhas, ora banhadas de sol, cantando de vida, ora imersas na saudade e no langor das noites enluaradas. Neles moravam todos os seus sonhos mal definidos e profundos. Queria-a e, pois, trabalharia para possuí-la. E uma doce certeza confortava-o. Era só mais...
Aqui, porém, interrompeu as cismas. Pareceu-lhe ouvir adiante um ruído de metais, qualquer rumor abafado quebrando o silêncio, agora pressago e inquietador. Puxou a pistola para frente e foi seguindo, de ouvido atento, os olhos muito abertos para absorverem a luz escassa da noite nas pupilas dilatadas. Nada percebeu, no entanto, e foi avançando. Raio de noite! Está que nem forno. Cresceu-lhe à direita o vulto negro de uma reboleira de arbustos, e não a passara ainda, quando uma voz grossa e seca intimou:— Faça alto, amigo!
E bem junto, como nascendo da treva, vultos de cavaleiros cercaram-no. Percebeu os reflexos frouxos de botões de metal em dólmãs escuros. Sentiu um nó na garganta, as fontes latejaram-lhe e nos ouvidos rolava como um trovão de intermitências surdas.— Não se mexa e diga quem é.
A hesitação foi rápida; aquela voz restituiu—lhe a calma. Num segundo lembrou os companheiros que se aproximavam do perigo sem suspeitar. Tinha que preveni-los. Viu o cano do revólver do guarda apontando-o. Talvez morresse, mas tinha que preveni-los. Foi levantando a mão direita, devagar, colada ao corpo; encontrou o cinto, apertou a coronha da pistola, o indicador tateava o gatilho.
— Fale, amigo, senão...
Torceu o cano para o lado e premeu o dedo. Uma linguazinha de chama relampejou, chamuscando-lhe os pelegos. O guarda, supondo-se alvejado, atirou também.
Era o quanto bastava. Prevenidos pelo duplo sinal, os contrabandistas executaram logo o preconcebido. O Zeca e o Osório, com os cargueiros, penderam por uma encosta, sem ruído, furtando a volta. Fidêncio e os outros infletiram à esquerda, coxilha acima, disparando as armas. Era a manobra de sempre. Os guardas seguiram a direção dos tiros, enquanto o contrabando mesmo, contornando, retomava longe o caminho, já à retaguarda do perigo, reaviado e certo no destino.
Fidêncio com os companheiros continuavam retirando. Diferenciava-se o estampido sonoro das Winchesters e a deflagração seca das Mausers da guarda, em tiroteio frouxo, ao acaso dos alvos móveis e indistintos, afastando-se dentro da noite.
Tênues, começaram a dealbar no oriente as primeiras claridades do dia. Uma aura leve foi dispersando a névoa adormecida nas baixadas. Em pouco surgiu o sol, longe na imensidão do horizonte, dourando a silhueta dos capões de mato que demoravam no campo como manchas escuras.
Arrastado pelo cavalo, Chiru ficara estendido num alto, os braços abertos e o rosto voltado para o céu. O primeiro raio de sol, tangenciando a lombada das coxilhas adormecidas, veio incidir-lhe na face, onde coagulara um fio de sangue.
Banhado daquela luz tépida, o gaúcho parecia apenas dormir, tão sereno tinha o rosto e tanto, para aquela alma nobre, era simples a lealdade e até mesmo a morte.
(Extraído do livro Entrevero, L&PM Editores, especial para MPM Propaganda, Porto Alegre — 1984, pág. 41.)