terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Moacyr Scliar



Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, bairro que até hoje reúne a comunidade judaica, em 23 de março de 1937. Em 1963, inicia sua vida como médico. Publica seu primeiro livro, Histórias de um Médico em Formação, em 1962. Autor de dezenas livros: romances, crônicas, contos, literatura infantil, ensaios, pelos quais recebeu inúmeros prêmios literários. Sua obra é marcada pelo flerte com o imaginário fantástico e pela investigação da tradição judaico-cristã. Algumas delas foram publicadas na Inglaterra, Rússia, República Tcheca, Eslováquia, Suécia, Noruega, França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Holanda e Espanha e em Portugal, entre outros países. Em 1968, publica o livro de contos O Carnaval dos Animais, que o autor considera de fato sua primeira obra. A convite, torna-se professor visitante na Brown University (Departament of Portuguese and Brazilian Studies), em 1993, e na Universidade do Texas, em Austin. Colabora com diversos dos principais meios de comunicação da mídia impressa. Alguns de seus textos foram adaptados para o cinema, teatro e tevê. Nos anos de 1993 e 1997, vai aos EUA como professor visitante no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University. Em 31 de julho de 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

A noite em que os hotéis estavam cheios


O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.

(O texto acima foi publicado no livro A Massagista Japonesa, Editora LPM — Porto Alegre, 1982, e extraído de Contos para um Natal brasileiro, Editora Relume: IBASE — Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.)

5 comentários:

josefa disse...

O conto "A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS" É superinteressante.Afinal, todos os seus contos são ótimos para ler se divertir, se emocionar e, principalmente,para refletir porque tratam sempre da realidade .Diante disso,gosto muito de trabalhar com eles na sala de aula.Não só li vários deles como também fiz com que meus alunos lessem a fim de conhecer grandes obras entender a realidade e refletir a realidade cotidiana e despertar o gosto pela leitura.Considero-lhe um escritor genial.Admiro bastante a arte de escrever.Suas obras vem dando um grande show nas escolas assim como os outros bons escritores pois com o uso da palavra vocês conseguem transformar vidas.Portanto o que seriam dos se não houvesse livros tão enriquecedores.Acredito que a leitura é capaz de construir a conduta humana.usar drogas, álcool e outros entorpecentes é preencher o vazio interior com coisas fúteis e se as pessoas ocupassem a mente com leituras sadias não teriam entrado no mundo da destruição.Eles substituiriam essas substâncias por um bom livro.

josefa disse...

O conto "A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS" É superinteressante.Afinal, todos os seus contos são ótimos para ler se divertir, se emocionar e, principalmente,para refletir porque tratam sempre da realidade .Diante disso,gosto muito de trabalhar com eles na sala de aula.Não só li vários deles como também fiz com que meus alunos lessem a fim de conhecer grandes obras entender a realidade e refletir a realidade cotidiana e despertar o gosto pela leitura.Considero-lhe um escritor genial.Admiro bastante a arte de escrever.Suas obras vem dando um grande show nas escolas assim como os outros bons escritores pois com o uso da palavra vocês conseguem transformar vidas.Portanto o que seriam dos se não houvesse livros tão enriquecedores.Acredito que a leitura é capaz de construir a conduta humana.usar drogas, álcool e outros entorpecentes é preencher o vazio interior com coisas fúteis e se as pessoas ocupassem a mente com leituras sadias não teriam entrado no mundo da destruição.Eles substituiriam essas substâncias por um bom livro.

Jeninha disse...

gostei!!!

Nanda :) disse...

Bem,meu nome é Maria Fernanda, tenho 11 anos e sou uma verdadeira amante da leitura.Meu professor passou como lição pesquisar um texto de Moacyr.Achei bem interessante,principalmente o final.

Gaby thami disse...

Boom Pra começar me chamo gabrielle thamires meu professor disse pra minha turma pesquizar um texto de moacyr achei beem interessante esse ... tirei a nota máxima muito boom .... Bjuus