domingo, 23 de dezembro de 2007

Graciliano Ramos



Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, sertão de Alagoas. Em 1927 é eleito prefeito da cidade de Palmeira dos Índios. Ao escrever o seu primeiro relatório ao governador, “um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas em 1929, a verve do escritor se revela ao abordar assuntos rotineiros de uma administração municipal. Em 1933 se dá o lançamento de seu primeiro livro, Caetés. No ano seguinte, publica São Bernardo. Em março de 1936, acusado de ter conspirado no levante comunista de novembro de 1935, é demitido, preso em Maceió e enviado a Recife, onde é embarcado com destino ao Rio de Janeiro. Seu livro Angústia é lançado no mês de agosto daquele ano. Foi libertado e passou a trabalhar como copidesque em jornais do Rio de Janeiro, em 1937. Em 1938, publica Vidas secas. Em 1942, recebe o prêmio "Felipe de Oliveira" pelo conjunto de sua obra. Lança, em 1944, o livro de literatura infantil Histórias de Alexandre. Em 1946, publica Histórias incompletas, que reúne os contos de Dois dedos, o inédito "Luciana", três capítulos de Vidas secas e quatro capítulos de Infância. Os contos de Insônia são publicados em 1947. Em janeiro de 1953 é internado na Casa de Saúde e Maternidade S. Vitor, onde vem a falecer, vitimado pelo câncer, no dia 20 de março. É publicado o livro Memórias do cárcere, que Graciliano não chegou a concluir, tendo ficado sem o capítulo final. Postumamente, são publicados os seguintes livros: Viagem, 1954, Linhas tortas, Viventes das Alagoas e Alexandre e outros heróis, em 1962, e Cartas, 1980, reunião de sua correspondência.


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O ESTRIBO DE PRATA


- Este caso se deu, começou Alexandre, um dia em que fui visitar meu sogro, na fazenda dele, léguas distantes da nossa. Já contei aos senhos que os arreios do meu cavalo eram de prata.
- De ouro, gritou Cesária.
- Estou falando nos de prata, Cesária, respondeu Alexandre. Havia os de ouro, é certo, mas estes só serviam nas festas. Ordinariamente eu montava numa sela com embutidos de prata. As esporas, as argolas da cabeçada e as fivelas dos loros eram também de prata. E os estritos, aerados, faiscavam como espelhos. Pois sim senhores, eu tinha ido visitar meu sogro, o que fazia uma ou duas vezes por mês. Almocei com ele e passamos o dia conversando em política e negócios. Foi aí que ficou resolvida a minha primeira viagem ao sul, onde me tornei conhecido e ganhei dinheiro. Acho que me referi a uma delas. Adquiri um papagaio...
- Por quinhentos e tantos mil-réis, disse mestre Gaudêncio. Já sabemos. Um papagaio que morreu de fome.
- Isso mesmo, seu Gaudêncio, prosseguiu o narrador, o senhor tem boa memória. Muito bem. Passei o dia com meu sogro, à tarde montamos a cavalo, percorremos a vazante, as plantações e os currais. Justei e comprei cem bois de era, despedi-me do velho e tomei o caminho de casa. Ia principiando a escurecer, mas não escureceu. Enquanto o sol de punha, a lua cheia aparecia, uma lua enorme e vermelha, de cara ruim, dessas que anunciam infelicidade. Um cachorro na beira do caminho uivou desesperado, o focinho para cima, farejando miséria. – “cala a boca, diabo.” Bati nele com o bico da bota, esporeei o cavalo e tudo ficou em silêncio. Depois de um golpe curto, ouvi de novo os uivos do animal, uns uivos compridos e agoureiros. Não sou homem que trema à toa, mas aquilo me arrepiou e deu-me um babecum forte no coração. Havia no campo uma tristeza de morte. A lua crescia muito limpa, tinha lambido todas as nuvens, estava com intenção de ocupar metade do céu. E cá embaixo era um sossego que a gemedeira do cachorro tornava medonho. Benzi-me e rezei baixinho uma oração de sustância e disse comigo: - “Está-se preparando uma desgraça neste mundo, minha Nossa Senhora.” Afastei-me dali, os gritos de agouro sumiram-se, avizinhei-me da casa pensando em desastres e olhando aquela claridade que tingia os xiquexiques e os mandacarus. De repente, quando mal me precatava, senti uma pancada no pé direito. Puxei a rédea, parei, ouvi um barulho de guizo, virei-me para saber de que se tratava e avistei uma cascavel assanhada, enorme, com dois metros de comprimento.
- Dois metros, seu Alexandre? Inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja muito.
- Espere, seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o senhor ou fui eu?
- Foi o senhor, confessou o negro.
- Então escute. O senhor, que não vê, quer enxergar mais que os que têm vista. Assim é difícil a gente se entender, seu Firmino. Ouça calado, pelo amor de Deus. Se achar falha na história, fale depois e me xingue de potoqueiro.
- Perdoe, rosnou o preto. É que eu gosto de saber as coisas por miúdo.
- Saberá, seu Firmino, berrou Alexandre. Quem disse que o senhor não saberá? Saberá. Mas não me interrompa, com os diabos. Ora muito bem. A cascavel mexia-se com raiva chocalhando e preparando-se para armar novo bote. Tinha dado o primeiro, de que falei, uma pancada aqui no pé direito. – “Os dentes não me alcançaram porque estou bem calçado”, foi o que presumi. Saltei no chão e levantei o chicote, pois ali perto não havia pau.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ronaldo Correia de Brito





Ronaldo Correia de Brito (Saboeiro, Ceará, 1950) aos cinco anos mudou-se para o Crato e aos dezoito para Recife, onde estudou medicina. Teatrólogo e ficcionista. Escreveu teatro para crianças: O Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, O Pavão Misterioso e Arlequim; teatro para adultos: O Reino Desejado, Retratos de Mãe, Malassombro, Auto das Portas do Céu e Os Desencantos do Diabo. Também roteiros de documentários e filmes para televisão e cinema: Lua Cambará (longa metragem para a TV Cultura), Caboclinhos (documentário para a TV Universitária), Brincadeira de Mateus (documentário para a TV Universitária), Cavaleiro Reisado e Brincadeira de Reisado (documentários para cinema), Maracatus (documentário para a TV BBC); além dos livros de contos: Três Histórias na Noite (Prêmio Governo do Estado de Pernambuco de 1989), As Noites e os Dias (Recife: Ed. Bagaço, 1996), Faca (São Paulo: Ed. Cosac & Naif, 2003) e O Livro dos Homens (São Paulo: Ed. Cosac & Naif, 2005).

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EUFRÁSIA MENESES


– Sentada estou. É aqui que me vêem todas as tardes e me imaginam a esperar a noite. O que mais esperaria além da passagem da claridade? A hora em que me trancarei no meu quarto à espreita de um visitante que rondará a casa e que nem sei se é real ou se urdido pela minha fatigada solidão? Meu marido é incerto no vir, e todos o sabem. Pressentem que anoiteço e, se passam à minha porta, me perguntam: “Esperando a noitinha, dona Eufrásia?”. Mas o que me trará a noite além de um vento frio e de um silêncio fundo? O cheiro de carne apodrecida do gado morto neste ano de seca, um bater de portas que se fecham, o balido de ovelhas se aconchegando, o fungar das vacas prenhes, o estalar das brasas que se apagam no fogão.
Meu filho dorme ao lado, numa rede alva e cheirosa. Ouço o seu respirar leve e tenho a certeza de que está vivo. Habitamos este universo de ausências: ele dormindo, eu acordada. Atrás de nós, uma casa nos ata ao mundo. É imensa, caiada de branco, com portas e janelas ocupando o cansaço de um dia em abri-las e fechá-las. Fechada, a casa lacra a alegria dos seus antigos donos, seus retratos nas paredes, selas gastas, metais azinhavrados, telhado alto que a pucumã vestiu. Ela julga e condena os nossos atos, pela antiga moral de seus senhores, de quem meu marido é herdeiro. Assim, se penso no casual nome de outro, o estrangeiro que me olhou com mansidão, ela me escuta pensar e depois, nos meus sonhos, grita-me com todas as suas vozes. Sou escrava destas paredes, prisioneira de pessoas mortas há anos que, agora, se nutrem de mim. Abarcada pelo calçadão alto, onde me sento e olho a eterna paisagem: o curral, as lajes do riacho, a curta estrada, a capoeira, os roçados, as casas dos moradores. Envolvendo tudo, um silêncio e um céu azul sem nuvens, que o vento nem toca. E longe, onde não enxergo, a terra de onde vim.
Já é quase noite. Meu marido e seus vaqueiros tangeram o gado até o curral e voltaram a campear reses desgarradas. Trouxeram as ovelhas, com seus chocalhinhos tinindo e uma nuvem mansa de lã e poeira. Os animais estão magros e famintos. Também os homens. O sol queima e requeima as doze horas do dia e, à noite, um vento morno e cortante bebe a última gota d’água do nosso corpo. Já somos garranchos secos, quebradiços, inflamáveis. Basta que nos olhem para ardermos numa chama brilhante e fugaz, que logo é cinza.
Minhas veias guardam um resto de vida, alimento do meu marido. Ele deita sobre mim, funga, rosna, machuca-me sem me olhar no rosto. Depois cai para o lado. Contemplo o telhado e toco, com as pontas dos dedos, o sêmen morno que molha o lençol.
Não sei como escapar. São tantos os anos e há este filho doce, que repousa na rede. De tardezinha, nos debruçamos na janela e vemos o gado que chega. As vacas mugem, os touros andam lentos. O sol se avermelha, morrendo. É tudo tão triste que choramos, eu e ele. Ensino-lhe o pranto e a saudade. O pai ensina-lhe a dureza e a coragem. Quero este filho só para mim. Fazê-lo ao meu modo é a maior vingança contra meu marido, que me trouxe para cá, terras de Sulidão, onde o galo só canta uma vez a cada madrugada.
É verdade que vim com as minhas pernas, que não fui forçada. Deixei o verde Paraí da minha mãe, onde meu pai descansa morto. Se fecho os olhos agora, vejo os canaviais ondulando e sinto o cheiro da rapadura. Nem sei como os meus pés despregaram de lá. Não consigo recompor o passo, na ligeireza que foi tudo. Um tio me levou para ser professora no Cameçá, a dez léguas de onde nasci. Ficaria por uns tempos na casa dos Meneses, que antes habitavam o Sulidão. Chegados há pouco na nova propriedade, o contato de pessoas civilizadas tinha-lhes imposto a necessidade de conhecer as letras. Meus alunos seriam os filhos: cinco mulheres e nove homens. Os velhos não se dariam a tais vexames.
Uma revoada de aves de arribação me acorda das lembranças. A África acolherá esses pássaros que abandonam o sertão. Se ficam aqui, morrem de fome e de sede. Voam num comprido manto, estendido no céu. Nós ficaremos, chupando a última gota d’água das pedras, lendo no sol, todos os dias, nossa sentença.
Um vaqueiro passa. Um galho de aroeira rasgou-lhe o couro do gibão e do braço. Vão à procura de mastruço para acalmar a ferida. A fome enerva o gado e os homens não conseguiram juntar os garrotes e os touros. Ouço-o dizer que o meu marido está nervoso e ameaçou de morte um chamado João Menandro, o de outras paragens. Desentendera-se. Meu marido, afeito ao mando, quer passar por cima de quem lhe esbarra na frente. Ou terá pressentido o que nenhum gesto meu jamais revelou? Tremo e mostro ao homem um canto do quintal onde poderá achar a sua meizinha. Ele me agradece, parece querer dizer outra coisa, porém cala e me olha com pena. Todos me olham assim. Se passam na minha porta, tiram o chapéu, desejam-me boa-hora e seguem em frente. Apesar dos anos passados, vêem-me como estrangeira. É difícil o caminho que leva aos seus corações. Gostarão de mim, tão silenciosa e distante? Suspeitarão dos meus ocultos sentimentos? Procuro a resposta no vaqueiro e, quando vai embora, se despede num brusco balançar de cabeça.
No começo tentei amar esta terra e sua gente. Trazia a minha fresca alegria, banhada de novo nas fontes do Paraí. Mas aqui o sol queima forte e somos bebidos até a última gota. Seca, deixei de bater às portas e me recolhi ao labirinto da casa, onde continuo esperando. Os homens são o sol abrasante, vistos de dia, ocultos de noite. Na casa dos Meneses, fiquei o tempo de me apaixonar por Davi, meu futuro marido, e de ensinar aos alunos as primeiras letras. Fui tratada a açúcar, enquanto os outros comiam rapadura. Tempo de corredores escuros. Conheci a força dos abraços do meu marido, o ímpeto do seu desejo, e cedi. E aqueci minha alma de mulher e nem perguntei pelo amor. Só ardia. Deixei-lhe a mão solta, o membro sem freios. Cavalgada, retornei à casa da minha mãe e esperei o dia do casamento. Dançamos os três dias de festa, viemos para este seco Sulidão. Esta casa fora abandonada por seus antigos donos, mas aguardava o peso cruel das suas presenças. Coube-nos perpetuar neste sertão uma herança de estirpe, sólida como as pedras do calçadão alto.
Meu filho, mexendo-se na rede, traz-me de volta à casa. Está tudo escuro e terei de acender os candeeiros. Numa noite como esta, passou correndo um lobo-guará. Meu marido deu tiros, mas não o acertou. Falou-se sobre o lobo por muitos dias. São os acontecimentos desta terra. Vivo de silêncio e de lembranças. Às vezes, quando não quero sonhar, penso em nomes de pássaros, retardando a hora em que terei de me trancar a ferrolhos. Procuro esquecer um tropel que ronda a minha janela, todas as noites em que me deito só. É a hora de decidir? Ouço um respirar que não é o meu. A noite é um lençol que cobre a fadiga dos homens. Dominada pelo cansaço, adio mais uma vez a minha escolha. A realidade de uma lâmina de faca, guardada sob o travesseiro, lembra-me o instante em que poderei cortar o sono e cavar a vida.
Um vaqueiro vem me avisar que meu marido não retornará esta noite. Celebram uma festa perto daqui. Vieram músicos e mulheres de longe. Na madrugada, ainda se ouvirão os gritos de prazer e as notas perdidas de uma música que não conseguirei identificar. O homem me oferece a companhia de uma filha sua e eu agradeço. Diz-me que a briga entre meu marido e o que veio de longe deixou no ar uma sentença de morte. A noite poderá trazer surpresas e eu devo me recolher cedo. Estou só. Não há pai, nem há mãe, nem sorriso de irmãos. Só a casa espreita, querendo me tragar.
João Menandro é um nome que se confunde com o meu sonho. Haverá mesmo, lá fora na noite, alguém que me aguarda, ou o meu desejo inventou esse ser? A noite interminável me cansa e penso em apressar o desfecho de tudo. Não há tempo para contemplar passiva o mundo morrendo em volta. A mão se endurece ao toque da lâmina que o travesseiro esconde. Meu marido retornará sonolento. O outro virá até minha janela. Eu me olharei num espelho. Chegará sim, a madrugada. Aquela que poderá ser a última, ou a primeira.

(Extraído de Faca)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Murilo Rubião



Murilo Eugênio Rubião nasceu em Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas, MG, no ano de 1916. Formado em Direito, foi professor, jornalista, diretor de jornal e de estação de rádio (Rádio Inconfidência). Responsável pela organização do Suplemento Literário do Minas Gerais (1966). Publicou seu primeiro livro de contos, O ex-mágico, em 1947. Seguiram-se A estrela vermelha (1953); Os dragões e outros contos (1965); O pirotécnico Zacarias e O convidado (1974); A casa do girassol vermelho (1978); e O homem do boné cinzento e outras histórias (1990). Teve seus principais contos traduzidos para as línguas inglesa, alemã e espanhola. Alguns de seus contos foram adaptados para o cinema e o teatro. Sua obra foi objeto de dezenas de artigos publicados em jornais e revistas, além de ter sido estudada em mais de quarenta teses de doutorado e dissertações de mestrado, no Brasil e no exterior. Faleceu em Belo Horizonte, em 1991, onde residiu a maior parte da vida.

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Para ler João Ubaldo Ribeiro e Gustavo Barroso clique nos nomes.
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A Armadilha

Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do número de andares a serem vencidos. Dez. Não demonstrava pressa, porém o seu rosto denunciava a segurança de uma resolução irrevogável. Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana. Parou diante do último escritório e perdeu algum tempo lendo uma frase, escrita a lápis, na parede. Em seguida passou a mala para a mão esquerda e com a direita experimentou a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para forçá-la. E o fez com tamanha violência que ela veio abaixo ruidosamente. Não se impressionou. Estava muito seguro de si para dar importância ao barulho que antecedera a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os móveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga. Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa tonalidade azul. Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante: — Estava à sua espera — disse, com uma voz macia. Alexandre não deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar, algumas palavras duras, num vão de escada. O outro teve que insistir:
— Afinal, você veio.Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto: — Ah, esperava-me? — Não aguardou resposta e prosseguiu exaltado, como se de repente viesse à tona uma irritação antiga: — Impossível! Nunca você poderia calcular que eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ninguém está informado da minha presença na cidade! Você é um farsante, mau farsante. Certamente aplicou sua velha técnica e pôs espias no meu encalço. De outro modo seria difícil descobrir, pois vivo viajando, mudando de lugar e nome.
— Não sabia das suas viagens nem dos seus disfarces. — Então, como fez para adivinhar a data da minha chegada? — Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, nesta cadeira, na mesma posição em que me encontro, aguardava-o certo de que você viria. Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque, convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez do adversário. Este, entretanto, percebeu-lhe a intenção e antecipou-se: — Antes que me dirija outras perguntas — e sei que tem muitas a fazer-me — quero saber o que aconteceu com Ema.— Nada — respondeu, procurando dar à voz um tom despreocupado. — Nada? Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.— Abandonou-me — deixou escapar, constrangido pela vergonha. E numa tentativa inútil de demonstrar um resto de altivez, acrescentou: — Disso você não sabia!Um leve clarão passou pelo olhar do homem idoso:— Calculava, porém desejava ter certeza.Começava a escurecer. Um silêncio pesado separava-os e ambos volveram para certas reminiscências que, mesmo contra a vontade deles, sempre os ligariam. O velho guardou a arma. Dos seus lábios desaparecera o sorriso irônico que conservara durante todo o diálogo. Acendeu um cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele julgaria, desnecessária. Alexandre impediu que a fizesse.
Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa: — Seu caduco, não tem medo que eu aproveite a ocasião para matá-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revólver. — Não, além de desarmado, você não veio aqui para matar-me. — O que está esperando, então?! — gritou Alexandre. — Mate-me logo! — Não posso. — Não pode ou não quer? — Estou impedido de fazê-lo. Para evitar essa tentação, após tão longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto da sala.Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas. Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa, abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e tentou atirar-se através dela. Não a atravessou. Bateu com a cabeça numa fina malha metálica e caiu desmaiado no chão. Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta e, por baixo dela, iria jogar a chave. Lançou-se na direção dele, disposto a impedi-lo. Era tarde. O outro já concluíra seu intento e divertia-se com o pânico que se apossara do adversário: — Eu esperava que você tentaria o suicídio e tomei precaução de colocar telas de aço nas janelas.A fúria de Alexandre chegara ao auge: — Arrombarei a porta. Jamais me prenderão aqui! — Inútil. Se tivesse reparado nela, saberia que também é de aço. Troquei a antiga por esta. — Gritarei, berrarei! — Não lhe acudirão. Ninguém mais vem a este prédio. Despedi os empregados, despejei os inquilinos.E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si mesmo: — Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.

(Copiado de http://riesemberg.blogspot.com, de Luiz Fernando Riesemberg, São Mateus do Sul, Paraná)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Márcia Denser




Márcia Denser nasceu em São Paulo e publicou seu primeiro livro, Tango Fantasma, em 1977, aos 23 anos. Formou-se em Comunicações e Artes pelo Mackenzie. Jornalista, publicitária e editora. Coordenadora de Oficinas Literárias desde 1990. Participou do Lateinamerikas'90, programa de intercâmbio cultural Brasil/Alemanha. Publicou também O Animal dos Motéis (novela em episódios), 1981; Muito Prazer (contos eróticos femininos), antologia, 1982; O Prazer é Todo Meu (contos eróticos), antologia, 1984; Exercícios para o Pecado (novelas e contos), 1984; Diana Caçadora (contos), 1986; A Ponte das Estrelas (aventura), 1994; Diana Caçadora & Outras Histórias (antologia pessoal, no prelo). No exterior: Tigerin und Leopard, Amman, Zurique, 1988, e Rowoholt Verlag, Suíça, 1992; Het Lekkerste in he Leven, Novib, Utrecht, Holanda, 1992; On Hundred Years After Tomorrow (brazilian women's in the 20th century), Indiana Press, Indiana, USA, 1994; Urban Voices, Contemporary Short Stories from Brazil, University Press of America, Maryland, USA, 1999.

Para ler Bernardo Élis e Adélia Prado clique nos nomes.

O animal dos motéis

“Mas sempre acabo em seus braços / do jeito
que você quer...” - Desabafo - Roberto Carlos

Deitamos ouvindo Roberto Carlos, a voz dos motéis, “por que me arrasto a seus pés?”. Porque sexo é isso mesmo. Essa gana de rastejar com Roberto, no coito dos motéis. Ele diz: esse motel já foi bom, e eu olho o banheiro, caixa amplificadora de fibroplast, as toalhas embaladas em sacos plásticos, os lençóis castanhos com ramagens duvidosas entre encardido e vestígios de cor, os três espelhos redondos, montados em curvim (um em frente ao outro, no meio a cama, o terceiro no teto, sobre a cama), claro que para transformar-nos numa espécie de confuso coquetel de siris assados: pernas, braços, carnes vivas, canteiro de patas, antenas, pêlos moventes, espiando de esguelha uma outra hidra em perspectiva no espelho da frente, de trás, de cima, de baixo, devassados, misturados, confundidos, a 850,00 a diária, porque (e então eu sei porque) todos os motéis é sempre o mesmo motel, o animal mitológico, a quimera que se arrasta interminávelmente na madrugada ao som de Roberto Carlos.
Apoiada nos cotovelos, a cabeça dela surge no horizonte do espelho. A brasa do cigarro, no ponto quase central da bola ensombrecida, como o primeiro sol de um universo, sopra a fumaça:
— Você já leu Hemingway?
— O que?
— Perguntei se você já leu...
— É importante? Ele soergue-se ligeiramente.
— Fatos. Parece que ele só se preocupa com os fatos, no princípio. Naquele conto do toureiro, não lembro o título. Começa que o sujeito bate na porta do patrão, quer voltar às corridas, o patrão não está interessado, diz: só nas noturnas, 300 pesos, discutem o salário. Muito seco, direto. De repente, o patrão olha bem na cara do toureiro e pensa: é assim que todos morrem. E pronto. Eis a cabeça do monstro, a cutilada no boca do estômago, Hemingway nos pega despre...
— E o cara? Morre? reprime um bocejo.
— A morte só o rodeia. Toda a tourada. Ele a persegue. Ela o arranha e o abandona. Mas ele volta a provocá-la. Como um cego. Ou um tolo. É inútil. Duas vezes entre os chifres do touro. Debaixo das patas dos cavalos. A espada se parte. Não acerta — o que é muito simples para um veterano — o local exato no dorso do animal, do diâmetro de uma moeda de prata. A morte apenas o maltrata, como e estivesse brincando, como se ele não a merecesse, como...
— Mas ele morre ou o quê?
— Não sei, o picador,
— Como não sabe? Então esse Hemingway é...
— Precisaria ler a estória
— Certo. Você já me contou.
A brasa desaparece no espelho, se apaga. É como uma sina, ela pensa, contemplar esta cabeça com fria ternura ou recorrer mais para trás, para uma piedade distante detonada pelo álcool, pela solidão, aquele sanduíche cinzento de noites de leitura e insônia e cigarros, como uma única noite boreal, amanhecer e crepúsculo, luz intermediária e intermitência de néon, de café, de galeria, de esperar sem mais esperar, suplicar, implorar por aquilo que sequer tem nome. O toureiro não merecia a morte. É como uma sina. Rastejar com Roberto: “você é mais que um problema / é uma loucura qualquer”, porque ele sabe de uma porção de coisas sem saber, coisas que eu ignoro. Lembra a Maga, uma personagem de Cortázar que, por sinal, ignora Hemingway e este, claro, além de vocês e todos, todos nós, amantes e condenados e Roberto.
Um touro espreita no fundo dos olhos dele: duas faíscas cúmplices transmitem a ordem ao dedo áspero que vadiamente começa a percorrer a coxa, queimado cilindro macio de luz negra. O dedo vai subindo, pincelando as penugens invisíveis — há partículas fosforescentes na superfície da pele — o dedo, e então são os dedos, vão se abrindo, agarrando, numa fofa mordida, a região dos pelos, capturando os lábios, separando-os com delicadeza: o indicador resvala pela fresta úmida. Imobiliza-o um instante lá dentro e então o leva à boca. A cabeça está inclinada sobre seu ventre, mas ela sabe que ele sorri: um garoto mergulhando o pão na panela e experimentando o molho. Olha-a, a mão agora pousada no seio, o tato pegajoso, feito clara de ovo.
— Você complica tudo. As faíscas divertidas, perversas. Como se fosse possível o amor, como se fosse muito fácil, muito simples. Possível. Fácil. Simples. Do diâmetro de uma moeda de prata. Uma fresta úmida. O ponto exato. Amor.
— Nunca estive na Espanha, ou no México. Ela acende outro cigarro.
— Ou aqui. Está precisando de um homem.
— Já pensei nisso. Aliás, não faço outra coisa.
— Pergunto se você já fez algo a respeito.
— Sinceramente...
— Por você mesma. Imagina que eu sou um idiota. Sei o que está pensando. Essa estória de toureiros fodidos e do tal Hemingway. Muito complicado, não acha?
— Então, nada de romance?
— As mulheres não mudem...
— Nem os homens. É bobagem. Penso: sinto-os pulsar aqui dentro, cegos, surdos, solitariamente, me tocando até a loucura, me penetrando até a loucura. Certo, o prazer também é meu, mas duplamente solitário, uma tarefa que cumprimos tão distraidamente, tão alheiamente como um violino que se tocasse a si próprio num dormitório de quartel, tarefa da qual só poderia, só deveria, nascer amor e música, no entanto...
— Roberto Carlos, aponta o alto-falante.
— Não estou falando de fundo musical, e depois isso é outra estória (“por que me arrasto?”).— Está querendo dizer que eu só me masturbo?
— Que nós.
— Isso. Que nós.
— Também não sente assim?
— Sei lá. Às vezes...
— É isso.
— O que quer? É bom pra mim, bom pra você...
— Exato. Bom-mim, bom-você, um em Guadalupe, outro no Japão, se fodendo por controle remoto.
— Garota engraçada, você. Vamos beber? Fisgou o cardápio na mesinha.
A brasa inflamou-se novamente no espelho: uma erupção solar. Mas este já é um outro capitulo: agora beber, começar a beber e ladeira abaixo.
— Vodca. Quero vodca.
— Pura? O telefone suspenso na pergunta, a expressão surpresa.
— Não. Com gelo.
Pousa o fone no gancho. Fita-a intrigado, ajustando o travesseiro.
O corpo enorme, em potente repouso, não faz parte do rosto. Coça os cabelinhos do peito. Ela está enrodilhada ao pé da cama (como se camas redondas tivessem alguma referência. São como o universo, não há direção, norte, sul, direita, esquerda, em cima, embaixo, esses caras são mesmo diabólicos, Deus é diabólico, ou seremos nós que...)Ele se inclina, acariciando-lhe as ancas dobradas, avaliando-as no espelho às suas costas, as nádegas projetando aquele invisível biquíni de sol. Afaga-lhe o rosto, os cabelos, hesitando, ganhando tempo, subornando, com medo de falar:
— Bebe sempre vodca pura?
— As bandejas passeiam no pátio repletas de coquetéis de frutas, martinis doces...— O que há de errado?
— Para as garotas boazinhas.
— E você? Não é? O dedo contorna os lábios: vai me calar, me silenciar com esse beijo, entupir-me com essa língua, porque esses encontros são acidentes vertiginosos cujo resultado é o titã de mil olhos, mil bocas famintas que murmuram te amo, te amo, e que respondem te amo, te amo, zumbindo num cercado de mentiras ciciantes de sons no espelho, dimensão da penumbra da vida, caixa de música abafando um só tema a repetir te amo, te amo, perseguindo o elo de uma cadeia prisioneira que nos abandona assim que sai da nossa boca, e a sua repetição implica na perseguição eterna daquilo que já esteve atrás da boca, do travesseiro. Ao formularmos com os lábios o rolo doce da língua e da saliva, saltamos à frente do tempo e imediatamente já nos sentimos abandonados por esse pássaro fugidio, que se debate te amo, te amo, ato irrefletido de cuspir, separar as coxas e tomar a primeira estocada, recuar, avançar, senti-lo rígido como um cilindro de aço vivo e então capturá-lo, mas, de leve, uns cinco centímetros, não mais, de repente, sugá-lo todo para dentro, frente a frente, de cócoras, como crianças agachadas brincando com bolinhas de gude, hipnotizadas pelo movimento das bolinhas que rolam, evoluem, param, prosseguem — o entrechoque das bolinhas liquidas — nova fisgada, novo recuo de quadris; as bocas navegando nas bocas, no rio das bocas, no mar das bocas, nas cavernas dos dentes e da língua, na correnteza das bocas, gargantas, ventres molhados e, lá embaixo, o borbulhar estourando as margens que recuam, cedem, enquanto ele bombeia, macho e terno, e bate e bate, martela o limite viscoso, implorando para nascer de novo, e combate e se estimula e a maltrata porque ela uiva, sussurra obscenidades — as primeiras palavras que um homem escuta, e as últimas — evoluindo, insuportável, maldita, insuportável, adorável, não é mais prazer, não é mais dor e é o milagre, a vertiginosa erupção, um terremoto visto ao longe e o centro de um furacão, assistir uma catástrofe atômica e, ao mesmo tempo, estar no centro dela, como Deus, como Deus, como Deus.
Depois do violento crepitar frio, o movimento cessa e então voltar a ouvir o vento se lastimando nas marquises dos edifícios, nas estruturas de aço da cidade industrial mais próxima e, não fosse o vento, poder ouvir até a nós mesmos (que é a última coisa que gostaríamos de ouvir na freqüência dos motéis), por isso, nosso ego logrado retorna, monstro rugidor e oceânico, às cavernas interiores, lá se aferrolhandoLá em cima, no espelho, duas, quatro, seis, oito larvas rotas, libertas do emaranhado.Termina a cerveja e dá-lhe uma palmada na coxa:
— Vamos (“pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar / e além do mais...”)— Ainda tem vodca. Ela aponta um dedo preguiçoso para o copo dois terços vazio.— Fica pra outra vez, já veste a camisa

(Extraído do livro Animal dos Motéis, Civilização Brasileira-Massao Ono / Editores — São Paulo, 1981, pág. 9)

sábado, 15 de dezembro de 2007

Eduardo Campos




Manuel Eduardo Pinheiro Campos (Guaiúba, antigo distrito de Pacatuba, 1923 – Fortaleza, 2007) estreou em 1943, com a coleção de contos Águas Mortas. Seguiram-se, neste gênero, em 1946 Face Iluminada, em 1949 A Viagem Definitiva, em 1965 Os Grandes Espantos, em 1967 As Danações, em 1968 O Abutre e Outras Estórias (constituído por uma seleção dos presumíveis melhores contos), em 1970 O Tropel das Coisas, em 1980 Dia da Caça, em 1993 O Escrivão das Malfeitorias, em 1998 A Borboleta Acorrentada, e em 1999 O Pranto Insólito. Tem também peças de teatro, livros de folclore, romances, ensaios, biografias, memórias, além de grande número de produções especiais para o rádio e televisão. Seus principais romances são O Chão dos Mortos e A Véspera do Dilúvio. Durante dez anos dirigiu a Academia Cearense de Letras; foi Secretário de Cultura do Estado, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, e é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará. Figura em antologias nacionais e internacionais de contos. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Iniciou-se nas letras escrevendo, dirigindo e representando peças de teatro. Sua peça O Morro do Ouro foi representada 350 vezes; A Rosa do Lagamar, mais de 500. Sua obra teatral foi reunida em dois volumes, contendo O Demônio e a Rosa, O Anjo, Os Deserdados, A Máscara e a Face, Nós, as Testemunhas (no primeiro), A Donzela Desprezada, O Julgamento dos Animais, O Andarilho, além das já mencionadas. Tem pequenas histórias incluídas em dez antologias, das quais duas no Uruguai e uma na Alemanha.

Para ler Oliveira Paiva e Guimarães Rosa clique nos nomes.


O ABUTRE

A sala estava quase na penumbra.
O ruído que vinha da rua era manso; não conseguia violar o silêncio que havia. Devia chover porque alguém puxou um agasalho para os ombros e fez um gesto de quem sente frio.
Um fósforo foi riscado. O zap! do palito, ao se incendiar naquele silêncio, soou a todos como uma explosão de uma bomba. A chama avivou o rosto do cavalheiro de marrom, conferindo-lhe um toque todo especial aos seus olhos tristes. Mas ninguém falou ainda. Apenas u'a mão estendeu o cinzeiro, por mera delicadeza. Nada mais.
Agora, todos podiam ouvir o ruído da chuva no telhado, sentir a presença do vento enfriado que vibrava as cortinas da sala, velhas cortinas bordadas com esmero e estranguladas por laços de fita amarela, desbotada pelo tempo.
A empregadinha, que apareceu à porta do quarto, contou mentalmente o número de pessoas que se achavam com a doente. Eram seis. Seis xícaras de café outra vez! A velha estava de lado, não contava mais. Morria na certa. Se o Dr. Balduíno dizia que ela podia levantar-se, convalescer, era por não querer perder a freguesia gorda de quase dez anos. E estirava, estirava...
Ela virou sobre os tacões dos sapatos e, com os seus passos, foi aumentando o ruído que se precipitava agora do telhado para o chão, da rua para dentro de casa.
– Deve ter bastante febre...
Homens e mulheres ergueram a vista a um só tempo.
D. Maria falara mais uma vez. Que força, que coragem! Naquele casarão, há dois dias, desde que a velha adoecera de repente, apenas a sua voz fazia-se ouvir. E como a temiam os outros! A todo instante, os irmãos expectavam uma acusação. Por isso, não falavam, e só de raro em raro confirmavam a sentença do médico: – o caso é perdido, mas pode ser...
Não é apenas D. Maria que lhes infunde medo. O homem que ali está, parado, absorto, lançando uns olhos maus para os demais, representa o perigo na repartição da herança. Veio de longe, do Rio de Janeiro, logo soube do ataque da mãe. Dizem, e tudo pode ser verdade, que assassinou a esposa friamente, e, em seguida, fugiu para Buenos Aires com a amante.
Na roda familiar houve quem se insurgisse à presença de um filho tão ruim naquela casa de dor. Mas Pedro veio. Apareceu sem se saber como, sem haver telegrama, nada. Chegou ao velho sobrado emparelhado com aquele temporal que desabava sobre a cidade e comunicava a morte, a todos, por um friozinho arrepiante.
D. Maria compreende por que não o querem em casa. A herança da velha fica melhor dividida para seis; tocava uma fazenda de criar para cada filho. Dez léguas de terra e o sítio Felicidade estavam ali esperando a partilha. Era um quinhão gordo, que pertencera a cinco gerações.
E Pedro veio. O abutre estendia agora as suas garras, fazia calar as bocas do ódio, do crime e do embuste.
D. Maria, que não se aliara aos outros, não consentia porém palavra ao intruso. O irmão mais velho representava um perigo mortal para cada um. Viera destruir, simplesmente aniquilar os castelos que eles erguiam. E quando se retirava da sala em que esquálida, a mãe agonizava, era para armar um golpe, também mortal, contra o irmão indesejável. O abutre precisava ser vencido.
Marieta, a irmã mais nova, rompeu ostensivamente com D. Maria. Só ela, gananciosa como era, poderia ter tido a ingrata idéia de comunicar o desenlace iminente ao irmão. Foi necessário que Anselmo, trêmulo, metido nos seus complexos, receoso de perder o sítio que cuidava há vinte anos, aplacasse a exaltação.
Por isso, nessa noite, naquela sala deserta de vidas, estavam todos mais ou menos rompidos uns com os outros, mas intimamente unidos contra o homem que, de longe, viera perturbar o plano que haviam arquitetado. E o abutre - assim considerado pelos irmãos desdenhosos – continuava imperturbável. Se erguia os olhos, era para desfazer um ou outro murmúrio, inconseqüente, que vagava pelo quarto, ou baixar o olhar rancoroso, mais atrevido, de alguém.
Quando o café chegou à sala, procuraram servir-se todos: estavam ávidos. A verdade é que nenhum deles o desejava tanto. Atropelavam-se, a fugir do silêncio que os envolvia, comprimindo-os mortalmente.
– Açúcar? Mais?
Anselmo respondeu tão alto, aquiescendo, que ele próprio assustou-se. D. Maria pensou consigo mesma: "Não ouviu lhe perguntarem se queria açúcar... Ele entendeu dinheiro."
A bandeja, solenemente, recolheu as xícaras e desapareceu levada pelas mãos frias da empregadinha. "Diabo de gente esquisita! Que aperreio, meu Deus! Ao menos se a dona da casa morresse logo e eu também entrasse no seu dinheiro! Ah, o dinheiro da velha!"
D. Maria cerrou os olhos à impressão de que Pedro é o demônio em uma de suas mil representações físicas. Num sobressalto, bateu com a mão gelada de medo no rosto de Antonino, o irmão caçula. Este, assustando-se, apavorou a todos num grito que abalou a própria enferma. Tremeram homens e mulheres, arrepiados. Menos Pedro, que se mantinha encalmado, os olhos maus, vigiando os outros. Não se mexeu. Nada disse. Escapou-lhe apenas um gesto imperceptível, repreendendo-os.
Antonino mergulhou na poltrona. Anselmo começou a pensar à toa. Então, aquele bandido é quem lhe vinha tirar a fortuna que merecia?! No seu entender, reconhecia-se o mais honesto dos irmãos. Sempre assistira à mãe em todos os momentos, principalmente nas questões de família. Era justo ganhar maior quinhão, ficar com o estoque de aguardente que valia alguns milhares de cruzeiros.
Marcos debatia-se adiante, casmurro, a arrolar compromissos. Na certa, o destino ingrato, àquela hora, vinha truncar-lhe os passos, por intermédio do irmão amaldiçoado, indesejável na família. Ah, vida infame! "Paris... Nápoles..." Instante houve, nesse recordar inconseqüente, em que não viu na cama a mãe moribunda. Transparecia nela uma criatura mais jovem e linda, a jogar-lhe moedas de ouro aos pés. Inexplicavelmente, ele começou a rir. E rindo estava ainda quando abriu os olhos e viu que o observavam. Teve vontade de dizer que nenhum dos irmãos era menos falso que ele; que estavam todos loucos para ver a mãe morrer, especialmente o abutre, ruim, sórdido, que não falava, silencioso, a vigiá-los. Felipe ergueu-se da cadeira de embalo e de repente foi ao leito. Precisava ocupar-se em algo, passar o tempo, fugir à tensão. Lembrou se de tomar a pulsação da velha; anotá-la: – Deve estar com mais febre...
Antonino desejou um jarro de flores para esborrachá-lo na cabeça do irmão. "Esse infeliz não podia lembrar outra coisa?"
Anselmo girava longe dali. Calculava a reforma do engenho, a safra do próximo ano, a viagem ao Rio de Janeiro, a negócios, claro! Elvira não o acompanharia. Assim ele teria mais liberdade, mais dinheiro para gastar no jogo.
O remorso acudiu-lhe então. E ele, fazendo-se menos cruel, procurava convencer-se de que a ingratidão à mulher importava pouco. A vida era aquilo. Na desgraça de uns, subiam outros. D. Francisca, por exemplo, vivera bastante. Era justo que morresse, que fosse descansar em paz...
– Sim, descansar...
Marcos apanhou o resto da frase. Afinal, a velha descansaria em paz para que todos eles fossem felizes; em particular, para o pagamento das dívidas que fizera.
***
Diminuiu a chuva. Deixara de soprar o vento. No leito, mexia-se a enferma; eram-lhe incompreensíveis os gestos da mão semiparalisada. D. Maria não podia ver. Marcos, distante, prendia-se aos seus sonhos, perdia dinheiro em Paris, na Itália... Felipe pedia a mão de Glorinha em casamento. Anselmo gozava as férias, a adiposa mulher chorando (em casa) e ele a gastar ao pé da roleta... Marieta corria, longe; fugia com o namorado aventureiro.
***
Agora, a chuva cessara de todo. O vento aquietara-se. O silêncio, de repente, foi tamanho, que acordou a todos; e os trouxe do mundo de fantasias em que se haviam metido. Com surpresa, viram então o abutre debruçado sobre a enferma. Uma vela, de chama indecisa, ardia-lhe nas mãos. Um a um, mal despertados, foram-se acercando do leito. Pensamentos estranhos tomavam conta deles, e a dúvida crescia angustiante e única: "Teria aquele desgraçado acabado de matar a velha?"
Já ao pé da cama, sentiram que não existiam; eram simplesmente miseráveis... Aquele homem de feições austeras, silencioso e frio, de vida legendária e infame, tinha os olhos sofridos, enlagrimados.
E não foi com a voz de abutre que ele começou a falar, sobrelevando a inquietação de todos:
– Irmãos, choremos. Nossa querida mãe repousa na santa paz de Deus.
Sobre o telhado, em desespero, rebentou outra vez a chuva.

(Extraído de O Abutre e Outras Estórias)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Artur Azevedo



Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo, jornalista, poeta, contista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio de Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras. No jornalismo pôde desenvolver atividades que o projetaram como um dos maiores contistas e teatrólogos brasileiros. Fundou publicações literárias. Foi um dos grandes defensores da abolição da escravatura. Escreveu mais de quatro mil artigos sobre eventos artísticos, principalmente sobre teatro. Embora escrevendo contos desde 1871, só em 1889 animou-se a reunir alguns deles no volume Contos Possíveis, dedicado a Machado de Assis. Em 1894, publicou o segundo livro de histórias curtas, Contos Fora de Moda, e mais dois volumes, Contos Cariocas e Vida Alheia. No conto e no teatro, Artur Azevedo foi um descobridor de assuntos do cotidiano da vida carioca, e observador dos hábitos da capital. Dedicou-se também à poesia. Deixou vasta obra.


Para ler Marçal Aquino e Braga Montenegro clique nos nomes.


As Barbas do Romualdo
(Conto que não é conto)

O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria.
Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos.
Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadócio.
Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à. eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário.
Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria.
O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno.
Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem:
— Pois sim!... toca p'r'aí!... súcia de vadios!... não têm mais que fazer senão dar ao badalo!...
— Tlin! tlin! tlin!...
— Toca, toca, meu menino!... estou bem aqui!...
Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente... e impaciente:
— Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar!
O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas:
— Que temos?
Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação!
O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo.
Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem.
Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoíces, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas.
Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão?
Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo.
Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático.
Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone.
No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa.
O caso conto como o caso foi.
O ministro andava, não sei por que, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta.
Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa.
Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira.
— O ministro está?
— Está, sim, senhor.
— Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência.
O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe:
— Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente.
O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu:
— Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole!
O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário:
— O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece.
O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando:
— Pois diga-lhe que vá para o diabo que o carregue!
O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou:
— O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria.
Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Fernando Bonassi




Fernando Bonassi é paulistano, nascido na Mooca em 1962. Escritor, roteirista e cineasta, tem inúmeros livros lançados, tais como o romance Um Céu de Estrelas, 1991; Subúrbio, 1994; Passaporte, 2001, livro de contos; Prova Contrária, novela, 2003. Vencedor da bolsa do Kunstlerprogramm do DAAD, passou um ano em Berlim escrevendo. Tem contos e livros publicados na França, Alemanha e EUA. É formado em Cinema pela ECA-USP, tendo participado como diretor/roteirista dos filmes Castelo Rá Tim Bum e O Trabalho dos Homens. Escreveu o roteiro de Um Céu de Estrelas, longa de Tata Amaral. Para o teatro, escreveu As Coisas Ruins de Nossa Cabeça e participou da concepção de montagens do Teatro da Vertigem, de Antonio Araújo. Com a peça Woyzeck desmembrado retornou a parceria feita anteriormente com o ator Matheus Nachtergaele.

Para ler Ivan Ângelo e Deonísio da Silva clique nos nomes.


Corações vagabundos


O carro dobrou na Cesário Mota Jr., e Cibele logo percebeu que era o homem esquisito. Já passava de seis meses agora. Toda semana. Toda sexta-feira à noite. Nove horas em ponto o sujeito aparecia. Banho tomado, roupa passada. Ele vinha escorregando com o carro pro lado dela. Parava, mas deixava o motor ligado. Destravava a porta. Às vezes dizia alguma coisa.— Boa noite.
— Boa.
Às vezes, nem isso... Mas sempre aquele cheiro de água de colônia. Enjoativo. Cibele sentia falta de ar. Procurava pelo botão do vidro. Não achava. Não tinha coragem de perguntar onde ficava. Contava até dez. Passava.
— Aposto que eu sei onde a gente vai...
O homem fez que sim com a cabeça. Ele a levava pra comer frango à passarinho com caipirinha em Pinheiros. Bebiam e comiam em silêncio aquelas irresistíveis desgraças cheias de gordura até perderem o juízo. Ela não conseguia se controlar. Depois pediam sobremesa. Ela simplesmente não conseguia se controlar! E ainda tomavam cafezinho: — Sem açúcar, por favor...
Ele pagava e a deixava no mesmo lugar. Pagava o preço mais caro. Perguntou na primeira vez: — Quanto é pra fazer tudo?
Ela caprichou. Ele tirou o dinheiro do bolso. Não tinha muito mais do que ela pedira, mas fez questão de acertar antes. De lá pra cá era sempre igual. Uma vez perguntou: — Teve aumento?
Cibele não teve coragem. Pediu o de sempre. Portanto ele podia fazer tudo o que quisesse, mas sempre a devolvia na mesma esquina. "Sem um arranhão!", como costumava dizer às amigas. Toda semana. Toda sexta-feira, entre 11 e 11 e meia estava de volta ao ponto. Menos mal, pensava a mulher, que ainda contava com todo o movimento da madrugada pra aproveitar. Aproveitava mesmo, que Cibele não fazia questão de prestar e tinha muitos planos; mas aquele homem... Não sabia se tinha vergonha... Ou pena. O coração dela ficava espremido. Ruminava as razões dele. Passava a semana com esse troço por dentro. Não chegava a lugar nenhum.
Até esse dia tinha ficado quieta, mas, no restaurante, quando ele perguntou o que ela queria, Cibele pôs a língua pra fora e disse:
— Você.
O garçom se fez de morto. Era um bom garçom. Ficou brincando de estátua com a caneta e o bloquinho. Passou um bom tempo assim, porque o homem deu uma risada comprida e só então virou pra pedir:
— Duas caipirinhas de pinga e um frango à passarinho.
O garçom se afastou e a mulher continuou provocando:
— Você gosta de beber, né?
— É bom, fica tudo mais fácil...
— Devia comer de vez em quando.
Dessa vez o homem não riu.
— Você é casado?
— Hum-hum.
— Mentira. Se fosse casado a tua mulher ia desconfiar da rotina.
— Não é uma questão de confiança.
— Ela é doente?
O homem voltou a rir.
— Você é doente?
— Não.
— Gay?
Chegou o pedido. Cibele ficou desacorçoada. Costumava dizer que se um dia fosse executada, frango à passarinho seria sua última refeição. Tentou escolher um pedaço bem sequinho. Difícil. Ficou mordiscando. Depois pegou mais. E foi pegando, querendo morrer. Seus lábios brilhavam quando perguntou:
— Eu não sou boa pra você?
O homem teve a coragem de fazer Cibele esperar que pegasse um cigarro do maço, tirasse caixa de fósforos do bolso da calça, um palito de dentro dela, acendesse esse maldito cigarro e só então se dignasse a responder:
— Você é a melhor coisa da minha semana.
— "Coisa"?!
O homem bufou diante da mulher, levantou a palma da mão pro garçom e fez que escrevia nela com um dedo. Cibele ficou pescando os restinhos de alho da bandeja.
— Você me engorda.
Cibele fechou a cara. De cara fechada esperou que o homem pagasse a conta e a levasse de volta à esquina de sempre. Nessa noite Cibele não sentiu o enjôo da água de colônia quando ele se debruçou nela pra destravar a porta. Desceu e ficou de costas. O homem baixou o vidro. "Aqueles botões...”
— Até sexta-feira...
Cibele pensou em ofender, mas quando virou, aquele homem esquisito estava bem ali... Ela sem saber se era vergonha ou pena... O coração espremido...
— Tá bom, te espero aqui.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Amílcar Bettega



Amílcar Bettega Barbosa (1964) é natural de São Gabriel (RS). Formado em Engenharia Civil, é mestre em literatura brasileira e autor de O vôo da trapezista (1994), Deixe o quarto como está (2002) e Os lados do círculo (2004). Participou das antologias Alquimia da palavra (1993), Contos de oficina (1993), Caio de amores (1996), Conto & cidade (1997), O autor ausente (1997), Antologia crítica do conto gaúcho (1998), O livro dos homens (2000), Contos sem fronteiras (2000) e Geração 90: manuscritos de computador (2001). Prêmio Açorianos de Literatura – categoria conto e autor revelação (1995), Bolsa para autores brasileiros com obras em face de conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional (1999), e o Prêmio Portugal Telecom, (2005). Participou, como escritor residente, da Ledig House International Writers’ Colony, a convite da Ledig-Rowohlt Foundation (EUA, 1999).


Para ler Juarez Barroso e Osman Lins clique nos nomes.


Teatro de bonecos

Porque é o dia do meu aniversário. Só. Enquanto espero, sento-me para descansar um pouco, afinal já tudo está feito, a mesa posta, a bebida escolhida, os legumes limpos e cortados, o arroz, o indispensável molho de cerejas (me preocupam as formigas e sua terrível fome de açúcar) cuja textura e sabor comprovei na língua antes de vertê-lo sobre cada sulco da alcatra de búfalo que lentamente vai dourando no forno e que me deu enorme trabalho para conseguir no mercadinho da aldeia, mas enfim, é um dos pratos preferidos de Alfredo e foi ele quem acabou me convencendo a preparar esta noite, a não deixar passar em branco a data dos meus quarenta anos.
Agora não quero a companhia de Alfredo e Ana. Fiz com que fossem caminhar na praia e aproveitar os últimos instantes do sol que já vai descendo atrás dos morros e deixando essa luz amarelada, artificiosa, que faz o mar parecer mais fundo. Alfredo chegou a dizer que gostaria que eu fosse junto, mas eu sei que é mentira. Ele às vezes me irrita com essas pequenas falsidades, por pouco não lhe joguei na cara a verdade. Eu devia ter lhe mostrado, de uma vez por todas, que ainda sou eu quem dá as cartas nesse jogo. Acontece que tenho medo de magoar a Ana, ela parece me entender tão bem, foi logo puxando Alfredo pelo braço, sabia que agora eu precisava ficar verdadeiramente só.
Sinto muito cansaço, mas é um cansaço que me acalma, um adormecimento das forças. Hoje perdi o sono lá pelas quatro da manhã e não consegui continuar na cama, era como se ouvisse o vaivém nervoso das formigas na cozinha, dezenas, centenas de pontinhos pretos brotando nas frestas do azulejo, subindo pelo pé da mesa e avançando nos minúsculos farelos de açúcar e farinha sobre a toalha. Levantei e vi que Alfredo havia adormecido no sofá, todo desengonçado como sempre, o braço e a perna pendidos e tocando o tapete. Ana dormia no quarto, cercada por suas almofadas coloridas e com aquele eterno ar de bonequinha adolescente. É impressionante como ela é graciosa. Mesmo quando jogada sobre uma cama, qualquer posição que ela assuma me parece sempre muito natural. Ao contrário do Alfredo e do seu corpo rígido e pouco espontâneo.
A madrugada é sempre muito solitária, tratei de acordá-los dizendo que desejava ver o sol nascer na praia, mas não foi fácil colocá-los de pé, estavam tão inertes, mais dormentes e pesados do que de costume. Somente com o sacolejo do carro na estradinha de terra foi que me pareceram mais despertos. Ainda fazia o friozinho atrasado da noite quando estacionei. Estávamos sentados os três no banco da frente, e sobre o mar havia uma borra de cobre, como se o sol estivesse imerso na água. Eu precisava falar sobre tudo o que me angustiava e resolvi começar pelas formigas. Alfredo concordou que era impossível continuar ignorando-as e que era preciso dar fim a tudo aquilo. Conversamos também sobre a noite passada, eu disse que havia bebido demais, a ponto de nem lembrar a que horas tinha dormido. Alfredo igualmente reconheceu ter exagerado na tequila, estava com uma terrível dor de cabeça. Havia certo tom de desculpa e ansiedade na sua voz, ele sabe que ando muito frágil e que Ana não o perdoaria se ele me magoasse. O problema todo é essa loucura, essa cegueira que foi tomando conta dos dois. Ana está dividida, é evidente, ficou calada o tempo inteiro, olhando fixamente o horizonte até que o sol se levantasse ainda gotejante e iluminasse por completo a seda branca da pele do seu rosto.
Agora me vem de cheio esse peso no corpo, a terrível dor nas têmporas. Sentado de costas para a janela, observo melhor a casa sem a presença deles e começo a perceber o verdadeiro tamanho da nossa solidão. É aí que vejo o que sou, onde há falta, onde aguardo infantilmente um preenchimento. E cada segundo de espera é uma pequena morte dentro de mim, como se a ausência daqueles dois fosse a antecipação da minha própria ausência, como se já fôssemos, os três, meros autômatos de um teatro de ridícula melancolia. A sala da nossa casa: a luz entrando como uma facada de sol por cima do meu ombro estende uma língua espessa e amarela sobre o verniz do assoalho, vai tornando visível o peso do ar, dá ao ambiente um aspecto de sonho ou alucinação, mas sobretudo revela a calma das coisas, essa espécie de quietude dos sentidos que vai descendo sobre a prata dos talheres, sobre as porcelanas, sobre as taças que logo se encherão com o vinho da serenidade, sobre a cristaleira, o sofá, o piano, estendendo sobre todos os móveis da sala uma colcha diáfana e luminosa, e é como se cada objeto refletisse a antiga harmonia da nossa convivência, assim como cada um de nós é (ou foi) o reflexo dos pensamentos, atitudes, e até dos gestos do outro.
Já tudo está feito. Vou esperando pelo tempo e escuto o rumor das ondas, adivinhando a espuma branca que se desmancha em forma de sussurro na areia. Claro que sei que daqui a pouco Alfredo e Ana estarão comigo outra vez e eu os verei entrar por aquela porta, alegres e barulhentos como sempre voltam desses passeios pela praia, e sei que tentarão me divertir tão logo me vejam tristonho; mas farei charme, não rirei assim que Alfredo, com aquele sorriso paralisado de manequim de vitrine, contar a primeira piada; sacudirei a cabeça e moverei sem graça os lábios, direi que sempre fico assim no dia do meu aniversário. Então eu sei: Ana deslizará sua mão de veludo sobre minha cabeça e me abraçará sem falar nada; e Alfredo, ainda que vacile um instante, também se juntará a nós, um pouco rígido e dissimulando a emoção com ironia, ele nos cercará com seus braços longos e um tanto desproporcionais, e assim ficaremos, enternecidos e abraçados os três, perfeitamente integrados um ao outro como nos tempos da felicidade, sentindo o contato quente dos corpos, o toque de suas peles brandas, a presença deles ao meu lado, o que sempre me dá vontade de chorar.
Quarenta anos. Alfredo tem razão, é dia de vestir a melhor roupa, comer o prato mais saboroso, beber nesse cálice o vinho da celebração. Mas é também o tempo de mexer no passado, buscar nas lembranças o ponto de apoio para isto que agora se revela tão frágil: nosso convívio arranjado à força dos desejos, sentimentos e necessidades irreprimíveis, a solidão compartilhada, nossa vida a três como se fosse uma só.
Não existe tempo daqui a uma hora. Quero viver para trás, avançar até o ponto em que minha memória começa a registrar os fatos da nossa vida: o tempo iluminado em que os conheci: primeiro Ana, seu sorriso, Ana cristalizada, Ana boneca envolvida pela luz fria da vitrine de uma butique de shopping, quando nossos olhares se cruzaram através do vidro e percebemos ao mesmo instante que não mais nos separaríamos. Mas não consegui lhe falar naquele dia. Voltei duas, três, seis, tantas vezes voltei à frente da vitrine que a dona da loja já me olhava desconfiada quando finalmente entrei. Passei sem olhar para Ana e fui falar com a dona. Comentei sobre as roupas — Ana, naquele dia, fazia o tipo colegial adolescente, com uma jaqueta folgada, calça jeans e moletom —, mas acrescentei que o que me impressionara mesmo fora a concepção da vitrine sem os tradicionais manequins de gesso, paralisados e sem vida nenhuma, e que aqueles bonecos de pano — tive de piscar o olho para Ana, que já fazia um muxoxo — que os bonecos sim enchiam de vida as roupas com seus corpos flexíveis e a pele tão macia ao toque, os cachos de cabelos de lã, o desenho e a cor do rosto, aqueles olhos vivíssimos de Ana a me olharem com uma insistência que me encabulava. A dona da butique argumentou que as pessoas compravam roupas na sua loja e não os manequins, mas o valor do cheque dispensava explicações. Trouxe Ana comigo, colada ao meu corpo, caminhamos juntos sob um final de tarde repleto de ruídos de trânsito e gente nas ruas, o vaivém incessante de pessoas avançando a cada sinal que se fechava aos carros, as pessoas subindo e descendo as calçadas, cruzando-se em direção às suas casas, ao refúgio dos laços estabelecidos, ao convívio familiar.
Já com Alfredo foi diferente, não houve a longa preparação da abordagem, a coisa foi mais rápida e direta, e muito em função do próprio Alfredo, um sujeito acima de tudo bastante prático. Nós nos conhecemos num domingo de sol excessivo no Brique e sua tez pálida e elástica era o contraponto exato à luminosidade daquela manhã. Estático, metido numas roupas antiquadas, era uma velharia a mais exposta entre livros, discos antigos e uma porção de objetos fora de uso espalhados sobre uma toalha na calçada. Alfredo tem o dom de surpreender. À primeira vista podia ser apenas um desses super-heróis infláveis que depois de fazer a alegria dos meninos murcham esquecidos no canto da garagem, mas havia no seu olhar uma vivacidade superior, notei desde o início que aquele ar de joão-bobo encobria alguém muito espirituoso, inteligente e, às vezes, matemático demais (a ponto até de me deixar assustado). Além de tudo, Alfredo era o lado extrovertido que faltava a mim e a Ana, e por isso nos conquistou com facilidade, trouxe mais alegria à nossa vida, deixou-nos a todos mais completos. Sempre admirei o jeito despreocupado como ele encara as coisas, esta atitude de deixar que a vida entre como um sopro por seu corpo transformando-o em alguém sempre pronto para a ação, a objetividade. Quando lhe falei (ou pensei apenas?), quase por brincadeira, da idéia de mudarmos para perto do mar, de imediato ele tomou a coisa como decidida e tratou da venda do nosso apartamento, da escolha da praia mais adequada e do projeto da nova casa, da burocracia de bancos e cartórios e o cancelamento dos pequenos compromissos em Porto Alegre — nada mais do que vínculos impessoais e estritamente necessários à vida na cidade, porque de resto não precisávamos comunicar amigos, família ou coisas do tipo, tínhamos há muito nossa própria vida e éramos completamente independentes.
O lugar que escolhemos é perfeito (existem as formigas, mas), a paisagem é linda, podemos fazer longos passeios pela praia e depois subir em algum rochedo para admirarmos o verde do mar e o céu muito amplo e quase sempre azul. Claro que vivemos isolados, mas uma aldeia de pescadores a três quilômetros oferece-nos tudo o que precisamos, desde o mini-mercado até a farmácia. O pessoal de lá já se acostumou com a nossa convivência. No início eles estranharam, mas logo passamos a fazer parte da simplicidade e da naturalidade da vida na aldeia. São poucas as pessoas de fora que vêm aqui, no máximo namorados em busca de isolamento para o amor. Até gostamos quando um ou outro destes casais aparecem. Nunca nos aproximamos muito, mas mesmo à distância nos enternecemos com o carinho que demonstram em cada gesto ou sorriso, nas mãos dadas, nos abraços.
Nossa casa é boa (o único inconveniente são as formigas, de resto), é espaçosa, arejada, mas não foi fácil ajustar o projeto de forma a satisfazer o gosto dos três. Há uma varanda ampla que dá para o mar, com folhagens e uma rede de dormir, onde costumamos conversar demoradamente e onde jogamos os jogos que vamos inventando para passar o tempo. No verão é o lugar de sentir a brisa do entardecer bebendo refrescos ou gim-tônica e lendo Virgínia Woolf, Silvia Plath e Sá-Carneiro. No inverno cerramos o janelão de vidro e passamos as horas tomando café e falando sobre nós, ou simplesmente nos metemos em silêncio, a olhar através da névoa salgada o mar espesso e seu céu de chumbo. São dias e noites frias. Confesso que às vezes sinto um frio excessivo por dentro, como uma corrente de sangue gelado inundando as veias. É um frio que cresce na carne e nos ossos, e brota na pele como um grande arrepio, quase um grito do meu corpo. Então enrolo-me no cobertor e vou em silêncio até o quarto de Ana. Caminho até sua cama e, primeiro, sento na borda do estrado, aguardo em vão que ela me diga algo para depois, como que agradecendo aquele silêncio de consentimento, aninhar-me junto ao corpo dela que, impassivelmente, num silêncio até mesmo dos gestos, deixa-se rolar no colchão para me dar um espaço dentro do seu espaço, e o calor da sua companhia.
Mas nossa vida é simples, dividimos as tarefas domésticas de acordo com as preferências de cada um. O dinheiro é meu e está aplicado, mas quem cuida disto é Alfredo, o mais prático dos três (estou me repetindo). Ana se ocupa em dar graça à casa, cuidar das flores, embelezar nossa sala com pequenos objetos que ela mesma fabrica ou descobre não sei onde. Sou eu quem geralmente cozinha e se encarrega das bebidas, gosto de misturar condimentos, experimentar temperos, matar a fome deles e a minha com imaginação e sensibilidade.
O único inconveniente aqui são as formigas (sei que estou me repetindo), sinto a presença de milhares, milhões delas fervilhando nas galerias que se ramificam sob nossos pés em infinitos veios subterrâneos, sou capaz de ouvir o barulho que não fazem (estou me repetindo), o rumor de uma multidão nervosa, insone, viva. Apavora-me a idéia de estar vivendo junto a um formigueiro gigante, e acho que Alfredo percebeu isto, sei que ele esteve na aldeia e pediu auxílio ao dono da farmácia (eu sei de tudo, sei de tudo), mas não me disse nada. Alfredo passou a fazer segredo de algumas coisas desde que ele e Ana começaram a viver essa aventura, tão evidente apesar do esforço deles para encobrir (eu sei). Ana está contrariada, é visível, na certa Alfredo a pressiona para que não comente o assunto. Também não falo nada, quero ver até onde são capazes de chegar — melhor seria dizer até onde Alfredo é capaz (onde eu sou, ou seria capaz) de chegar.
Ontem fomos jantar na aldeia, no restaurantezinho da Dona Carmelinda, como fazemos todas as semanas, e notei que eles estavam bastante alegres, quase felizes eu diria. Mas eu os conheço demais. Havia o nítido traço de desassossego em seus rostos, principalmente no de Alfredo. Estávamos pouco à vontade, mas Dona Carmelinda logo descontraiu a todos nós. Ela nos recebe sempre com festa e naturalidade, os pratos dispostos na mesa como da primeira vez (foi difícil a primeira vez, olhou-me desconfiada e perguntou se eles também iam comer): Alfredo e eu frente a frente, e Ana ao meu lado. Como sempre, servi a bebida primeiro a Ana que, como sempre, não fez nenhum movimento para alcançar o copo. Depois, quando vieram os pãezinhos, eu me apressei em partir um pedaço, passar a manteiga e levar à boca de Ana. Mas ela simplesmente deixou que o pão caísse sobre o prato, imóvel, fria, como se estivesse zangada comigo. Dona Carmelinda aproximou-se desde a porta da cozinha e disse que talvez Ana não estivesse com fome àquela hora. Fazia dois meses que a Dona Carmelinda tinha me presenteado com um recorte de jornal todo amassado, onde havia a receita da carne de búfalo. Desde então Alfredo insistia que devíamos fazê-la no meu aniversário. Voltei a pedir detalhes sobre o tempero e o preparo do molho, ela me deu um pote de vidro com gengibre moído e recomendou que adicionasse duas colherinhas assim que começasse a engrossar. Depois trouxe-nos uma cachacinha do seu alambique e em seguida serviu-nos a moqueca que só ela sabia preparar. Comemos e bebemos cerveja, voltamos para casa já um pouco altos e abrimos uma garrafa de tequila. Estávamos com vontade de beber e esvaziamos a garrafa enquanto cantávamos e dançávamos e ríamos os três abraçados. Fui à cozinha apanhar outra garrafa e me deparei com o incansável tráfego das formigas em suas trilhas sobre a lajota. Insuportável. Não tínhamos mais saída, Alfredo estava certo, era preciso acabar de uma vez com aquele suplício, sou capaz de ouvi-lo pensar (ouço o barulho que não fazem) na idéia de pôr um fim a tudo, sou capaz de vê-lo comprando aspirinas para a sua dor de cabeça e tomando mate com o farmacêutico, o assunto quase casual das pragas domésticas e as particularidades das formigas, a conversa derivando para a solução infalível de um pó fora de mercado e já quase esquecido entre caixas e frascos lá no depósito da farmácia, a facilidade de misturá-lo ao açúcar no armário, no chão, pelos cantos, nas frestas dos azulejos, sou capaz de elaborar a lógica de Alfredo e me descobrir nas suas roupas, nos seus gestos, na sua fala e nos seus desejos, descubro-me na própria existência de Alfredo e também na de Ana, desdobramentos obscuros de uma vida que já se afasta tanto, que aspira cada vez mais a um deserto, à solidão definitiva.
Apanhei outra garrafa de tequila (tenho que acabar logo com isto) no armário da cozinha, busquei copos limpos entre os potes de arroz e farinha e açúcar, o frasco com o gengibre em pó para misturar ao molho, as cerejas, vidrinhos de tempero e condimentos e sabores e efeitos. Quando voltei à sala eles já haviam adormecido no tapete. Não os coloquei na cama como fizera outras vezes, bebi mais dois copos e fui para o quarto. Mas não conseguia dormir. Parece que eu estava esperando aquilo acontecer. Ouvi um barulho sussurrado, retomei à sala e então me deparei com esta cena que ficará encravada na minha memória como uma fotografia do meu fim. O que senti foi humilhação, nada mais nada menos, e quase nada é mais violento do que a humilhação: Alfredo e Ana tinham fingido dormir para que eu me retirasse, e agora se amavam nus sobre o sofá. Fiquei algum tempo só olhando. Fiquei só olhando, era o que eu podia fazer. Então comecei a sentir que minha mão deslizava devagar e viva sobre meu peito, que a minha pele reagia ao toque dos meus dedos como se fosse o toque de outros dedos a circundar-me os mamilos duros e a descer arranhando-me os sulcos entre as costelas, que eu tocava meu corpo como se tocasse um corpo que não era meu, enquanto Ana grunhia umas palavras incompreensíveis e o seu corpo ardia embaixo do corpo de Alfredo se retorcendo vivamente, era ela pronta, ela pedindo, ela cravando as unhas nas nádegas de Alfredo num urro impressionante, enquanto eu banhava as mãos com meus líquidos em três, quatro, cinco jorros doloridos que levaram os últimos traços de vida que havia em mim.
Agora estou morto (estou sozinho, é a mesma coisa), sentado de costas para um sol que se põe definitivamente, sufocado pela demora de Alfredo e Ana. Mas de certa maneira me conforta saber que eles estão felizes, alguma parte de mim também está. Quero abrir a janela mas já não me restam forças. Está muito abafado, a carne vai passar do ponto, os legumes escolhidos, o gengibre em pó. Preciso ver como está o assado, talvez as formigas tenham invadido o prato, talvez até já existam algumas boiando no caldo vermelho das cerejas. Preciso me erguer e não me mostrar tão fraco para Alfredo e Ana. Eu sei que eles vão chegar em seguida (eu sei de tudo), eles já estão a caminho, estão de mãos dadas e atravessam devagar a faixa de areia que separa a casa do mar, aproximam-se radiantes, eu sei, por entre os pequenos canteiros do jardim. Ana está muito alegre e descontraída, sou capaz de vê-la ainda colher uma rosa, cheirar e prendê-la na alça do vestido antes de abrir a porta e agarrar-se ao braço de Alfredo, gritar e esmurrar o peito de Alfredo que está dizendo para ela ter controle e calma, Ana, por favor tenha calma e não complique as coisas, não precisa olhar, Ana, leve estes pratos daqui, junte estes frascos, mas por favor tente se controlar, Ana, veja só quanta formiga no chão, me ajude a deitá-lo no sofá, cuidado Ana, temos que varrer essas malditas formigas, pega a vassoura, Ana, mas pára de chorar, por favor pára de gritar, Ana, pára com isso, pára.

(Texto extraído do livro Geração 90: manuscritos de computador, Boitempo Editorial – São Paulo, 2001, pág. 31)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Ana Miranda



Ana Maria Nóbrega Miranda (Fortaleza, 1951) residiu em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Publicou os livros de poesia Anjos e demônios (Rio de Janeiro: José Olympio, 1978) e Celebração do outro (Rio de Janeiro: Antares, 1983). Como romancista, publicou Boca do Inferno (1989), O retrato do rei (1991), Sem pecado (1993), A última quimera (1995), Desmundo (1996), Amrik (1997), além do livro de contos Noturnos (1999) e da novela Clarice (1999), todos pela Companhia das Letras. Tem obras publicadas em diversos países, entre eles Argentina, Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Espanha e Suécia. Recebeu o prêmio Jabuti em 1990 (pelo romance Boca do Inferno) e, em 2003, o romance Dias & Dias foi agraciado com os prêmios Jabuti e o da Academia Brasileira de Letras. Boca do Inferno foi incluído na lista dos cem melhores romances do século XX em língua portuguesa, publicada pelo jornal O Globo.


Para ler Fabrício Carpinejar e Mário de Andrade clique nos nomes.

PONTO DE CRUZ

Eu me apaixonei por um homem, ele visita minha mãe de tarde, em nossa casa chega perfumado e tímido, as moedas tilintando no bolso de seu paletó, engasga nas primeiras palavras mas depois ele conversa com ela e passa a mão nos meus cabelos, sinto minha pele se arrepiar mas ele não percebe o sentimento que me causa, pensa que sou apenas uma criança e crianças quando sentem mostram o que sentem, mas eu não mostro, é forte a tentação de acompanhá-lo com os olhos, eu não entendo o que eles conversam, olho o homem enquanto ele a olha a bordar no bastidor, vejo-o levar a xícara de café aos lábios, ele me dá uma moeda e me diz para ir à padaria comprar um confeito, faço o percurso concentrada e só percebo o mundo de fora quando sinto o gosto doce da bala derretendo na minha língua, volto para casa e ele ainda está sentado na frente dela, no mesmo lugar mas um pouco pálido como se o seu coração tivesse parado de bater, eles permanecem em silêncio, ele segura a mão dela e a beija, em seguida vai embora, às vezes esquece de se despedir de mim, ela fecha os olhos, quando o ruído do carro dele desaparece ela chora em silêncio, suas lágrimas caem nos pontos de cruz, ela evita olhar para mim e depois que ele vai embora ela olha o relógio da parede de instante em instante ou fica diante da janela perdida longas horas olhando o gramado, algo esvaziou seus olhos, seu corpo, ela abraça e beija o gato, quando o animal escapole de seu colo eu o abraço e tento beijá-lo da mesma maneira mas em vão, olho o relógio porém não vejo nada, nem o tempo passa, eu não espero que o homem volte, até mesmo esqueço que ele existe, minha vida segue como a água da chuva que escorre procurando os subterrâneos, quando o homem reaparece eu lembro que o amo, amo a presença dele e não a sua ausência, um dia talvez eu vá amar a ausência de um homem, quiçá, não sei o nome dele, esqueci de perguntar, mas o nome dele não é importante, o nome de ninguém importa, sei quem ele é, pressinto sua alma, as esferas de sua existência, o calor de seus gestos e o rumor de sua voz, sinto em meu corpo a paixão que sente por minha mãe.

(Extraído de Noturnos)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Aníbal Machado



Aníbal Monteiro Machado nasceu em Sabará (MG) no dia 09 de dezembro de 1984. Bacharel em Direito pela Faculdade de Belo Horizonte, foi promotor público, professor, presidente da Associação Brasileira de Escritores e, com Sérgio Milliet, organizador do 1º Congresso Brasileiro de Escritores. Seu livro de estréia foi Vida Feliz, em 1944, seguindo-se Histórias reunidas, em 1955, Cadernos de João, em 1957 e, postumamente, João Ternura, em 1965. O autor marcou presença de destaque no panorama do conto brasileiro com textos antológicos, como "Viagem aos Seios de Duília", "Tati, a Garota" e "A Morte da Porta-Estandarte". Condecorado com a Legião de Honra, recebeu o Prêmio Cláudio de Sousa, da Academia Brasileira de Letras, pela peça teatral O Piano, adaptada da novela de mesmo título. Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 20 de janeiro de 1964.

Para ler Alcântara Machado e Gilmar de Carvalho clique nos nomes.


O defunto inaugural
Relato de um fantasma


a Rodrigo M. F. de Andrade

Vamos subindo devagar. Quando alcançarmos o espigão, poderei saber para onde... Saber, não: desconfiar. Mas os homens não falam; apenas exalam um ou outro gemido nas rampas mais fortes. Eu não sou tão pesado assim. Pelo contrário: tantos dias exposto ao ar livre, o sol reduziu-me bastante, curtindo-me as carnes.
Conheço estes caminhos. Muitas vezes, bêbado ou vencido pelo cansaço, deixei-me ficar encostado à cangalha, sobre o pedregulho do leito, enquanto o meu cachorro farejava os bichos e a mula aproveitava o capinzinho das margens.
Só acordava quando trovejava lá em cima e me vinha o medo de ser arrastado pelas enxurradas; ou então quando se aproximavam esses caminhões enormes que começam a invadir a serra depois que se abriu a estrada que vira para a encosta de lá.
A garoa afastou-se do vale. Não sei por que os galos ainda cantam. Chegamos ao alto onde o pé de coqueiro joga uma sombra curta para o lado das jazidas.
Deve ser pouco mais de meio-dia. Tomara que o nosso rumo seja no sentido contrário ao dessa sombra. Conquanto para a minha pele seja indiferente solou chuva, prefiro a vertente de cá, onde deve ter ficado o molde irregular das patas da alimária.
Os homens param. Depois se decidem: será mesmo pela estrada nova! Tal como eu queria. O dia clareou bonito. Nunca o vira assim. Estou feliz. Circulo nele agora participo-lhe da atmosfera.Vem subindo Josefina com a criança ao colo. Eu queria dar-lhe bom-dia, mas não posso. Se ela soubesse quem vai aqui!... Passou sem desconfiar...
Na ponte provisória um dos homens falseia o pé, e meu corpo rola. Vão pescá-lo mais adiante. Tive receio de que o deixassem seguir com as águas. Já começo a ser menos indiferente ao destino de minha carcaça.
Ao longe — mancha de sangue na vegetação — uma bomba de gasolina. A primeira instalada nestes ermos de montanha. Depois, a estalagem. O dono grita, ao dar com os meus despojos:
— Que há lá em cima que estão mandando defuntos cá para baixo? Já é o segundo!...Os homens não respondem. Desanimaram não sei por quê. Quererão largar-me ali mesmo, nalguma grota, tal como me encontraram. Se fosse antes, não me importaria. Mas já agora nasce em mim um capricho: chegar primeiro, ganhar a corrida. Eles prosseguem mais soturnos.A que distância andaria o outro? Foi um tropeiro que informou mais adiante: — Cruzei com ele há coisa de duas léguas da Igrejinha; levantei o lenço. Imagine quem era? O Antão, caçador de parasitas. Catingando já, coitado...
E reconhecendo a qualidade da mercadoria que ia na rede: – Se vosmecês querem chegar na dianteira, carece andar ligeiro. A festança vai ser de arromba. Só estão esperando o material. Parece que pagam bem. Comprar defunto pra cemitério, foi coisa que nunca vi! concluiu o tropeiro soltando uma gargalhada. E depois de relancear o meu corpo embrulhado no lençol:
— Óiá! o pé dele tá aparecendo!...
Agora sim, compreendo por que, e sei para onde me estão carregando: fizeram cemitério nalgum lugar, mas faltou defunto para inaugurá-lo. Daí o pedido às redondezas. Que cemitério será?
O dia vinha escurecendo. Os homens tinham agora pela frente uma planície animada de sapos e pirilampos.
— Engulam a cachaça, disse eu, já impaciente. E toquem depressa!
Minha voz não ressoa, mas produz efeito. Tanto assim que os homens empunham logo o pau da rede e me erguem aos ombros.
E eu vou seguindo, o rosto voltado para a primeira estrela.
Um era careca, o outro tinha bigode. Atravessaram o pântano. Se não conhecessem tão bem o caminho, ficaríamos os três atolados na lama. Quase não se falavam.
— Espanta a varejeira da testa, gritei para o careca... Isto é, quis gritar. O homem sacudiu a cabeça.— Por menos de quatrocentas pratas, nós voltamos com ele, disse o de bigode. — Até trezentos, a gente fecha o negócio, responde o careca.
— Vosmecê vê que ele nem tá cheirando!...
Era a minha vantagem sobre o concorrente. Pelo que percebi da conversa deles, e pela marcha batida em que vínhamos, o outro devia ser alcançado na curva do Bananal, antes de o sol raiar. A esse pensamento, trocaram-me de ombro e apressaram a marcha.
Surgiram na cerração as primeiras mulheres que se encaminhavam para o eito. Ao darem comigo, caíram de joelhos, persignando-se. A mais moça fez uma pergunta; a que só de longe o careca respondeu:
— Foi tiro, não; morte de Deus.
— Toca depressa, toca! gritava eu sem poder gritar.
Receavam os homens que outros cadáveres, além do que seguia à frente, estivessem afluindo ao mesmo tempo para o Arraial Novo.
Morrer, sempre se morre por estas terras abandonadas. Mas com a friagem dos últimos dias e o advento dos caminhões, contando-se bem, é fácil encontrar defunto apodrecendo pelos caminhos, ou dentro da mata.
O interesse dos que me carregavam era chegar primeiro e negociar depressa os despojos: o meu, era ganhar a corrida com o colega que ia na frente.
— O outro já deve estar perto, diz o de bigode. Tá largando catinga...
Surge ao longe um bananal oscilando suas folhas tostadas de vento frio. Experimento certo bem-estar, como nunca na vida. Não propriamente um bem-estar comum, mas o sentimento, quase apagado em mim, quando me apanharam na grota, de que ainda vagueio e vaguearei algum tempo pelas imediações de meu corpo.
Mais de quarenta anos tem esta carcaça. À frente dela vou seguindo, como a projeção de uma luz distanciada mas não excluída de sua lanterna.
Que bom este passeio! Tudo tão fluido que posso perceber o que se faz e acontece na área mais próxima de meu corpo.
E lá vai o tropeiro Fagundes — eu me chamava Fagundes (Fagundes?) — descendo de rede para o cemitério do Arraial Novo!...
Por que, nesse arraial, tanta pressa em inaugurá-lo? Por que não esperar pelos defuntos da localidade? A vida lá é boa, eu sei. Tem aguadas, milharais, moinhos; terras férteis e homens fortes. Ninguém há de querer morrer ali, só para estrear cemitério!...
— Eh, Bigode!... Eh, Careca! Depressa!...
No Ribeirão das Mulatas alcançamos os outros. Vão perder a partida. Além do mais, a mercadoria que oferecem apodrece tão depressa que será capaz de ser recusada, mesmo que chegue em primeiro lugar; ao passo que meu corpo, magro e curtido, parece intacto.E os meus homens passaram silenciosos. Os do outro defunto olharam com raiva. Meus fluidos atravessaram depressa aquela área, como que fugindo ao mau cheiro...
Ao avistarem o arraial que sorria ao longe, no meio do arvoredo, os dois homens suspiraram.Fui recebido por um bando de crianças em meio do latido geral dos cães. Colocaram-me num estrado que me esperava no centro da igrejinha. Correram a avisar a professora rural, enquanto os meus carregadores, à porta, discutiam o preço.
Os curiosos foram chegando. Descobriram-me a cara. Era a primeira vez que viam defunto. Ante o meu dente único plantado na gengiva esbranquiçada, puseram-se a rir. A maioria eram rapazes.
— Agora o cemitério vai ser cemitério mesmo, dizia um.
— Lá se vai o nosso campo de futebol! suspirava outro.
— Acho que não se devia recorrer a defunto de fora, opinava um terceiro.
— Uma vergonha para nossa terra!
Entrou um cachorro. Dentro da pequena nave ecoavam-lhe os latidos. Entrou em seguida uma velha que se ajoelhou junto de mim, impondo silêncio aos rapazes e ao cachorro. Ao se retirarem de lenço ao nariz, os moços tropeçaram na escadaria com um fardo que cheirava mal, envolto em jornais e folhas de bananeira. Era o outro. Com bastante atraso, numa carrocinha, vinha chegando o terceiro concorrente. Três defuntos ao todo.
Os rapazes indignaram-se. Era a invasão do Arraial por gente podre. Revoltante, aquilo. Foram queixar-se ao Fundador: na pressa de inaugurar o cemitério as mulheres inundam o povoado de cadáveres! Um, ainda passava. Mas tantos assim!... Não acha um perigo, Fundador?
Assim chamava todo mundo a esse velho robusto, três vezes casado, figura principal e dono de quase todo o povoado, que enchera de filhos e netos.
— Vocês se entendam com as mulheres. Elas que inventaram esse negócio de cemitério. Eu, por mim, quando chegar a minha hora, vou morrer sozinho lá em cima, no mato, já disse.Um dos jovens entristeceu subitamente.
— Não se amofine, rapaz, disse o Fundador batendo-lhe no ombro. Mandarei fazer outro campo para vocês.
— Não estou pensando no campo. Me refiro aos defuntos.
— Ele está fingindo, Fundador! interveio o companheiro. Está com o sentido é no campo mesmo. Não pensa noutra coisa. Eu também. Nosso clube foi desafiado, o senhor sabe. Estávamos treinando todos os dias. Agora, depois desse enterro, como é que vai ser? E com certa astúcia: — O senhor não acha que um só defunto é pouco para dar àquilo um ar de cemitério? Ainda mais um sujeito que ninguém conhece... que nem é cidadão do Arraial.— Isso mesmo, isso mesmo! ciciava eu aos ouvidos do rapaz.
Mas ele não me ouvia, não me podia ouvir...
— São vocês os culpados, disse o Fundador. Eu mandei abrir um cemitério, vocês fizeram um campo de futebol.
— Saiu sem querer, Fundador, saiu sem querer...
— Até as medidas são iguais, me disseram!
Calou-se o primeiro rapaz, a fisionomia transtornada. E num impulso de paixão que lhe venceu a timidez, dirigiu-se ao velho:
— Fundador, nós nunca tivemos disso aqui! Ninguém falava em morte. Todo mundo só pensava em trabalhar e viver. O senhor bem que podia salvar o nosso time. O jogo está marcado para o fim do mês. Virá gente da redondeza. Nosso clube é novo, mas a vitória é certa. Vai ser uma honra para o Arraial. Se o senhor deixar, nós damos um jeito no cadáver, adia-se a inauguração e em três semanas fazemos outro cemitério. Talvez até melhor do que este...
— Agora é tarde, respondeu o Fundador.
Realmente, era tarde. As velhas já me tinham lavado e agora me vestiam. Nunca me vi tão bem trajado. Larguei os trapos; enfiaram-me um casaco impreciso e negro, entre jaquetão e fraque. Fiquei um defunto bem passável. Pelo menos, limpo.
A professora assumiu um ar doloroso. Vestida também de preto, a face chorosa, embora sem lágrima – era a dona do enterro. Cercavam-na outras mulheres. Conduzia-se como se fora a minha viúva.
Notaram os rapazes nos modos reticentes do Fundador certa indiferença pelos preparativos do enterro. Combinaram não comparecer. Faziam mesmo trabalho surdo contra a cerimônia da inauguração. Serviam-se de dois argumentos: um, que eu não era do lugar; outro que, enchendo-se o povoado de cadáveres, uma epidemia era iminente ali. Se alguém duvidasse, fosse perguntar aos doutores da cidade vizinha.
O Fundador invalidou o último argumento mandando fechar as estradas e enterrar logo os defuntos restantes. À outra razão responderam as mulheres que ninguém sabe quando o nosso dia chegará. Que destino se daria então à nossa carne?
Os rapazes ouviram desconcertados. Jamais cuidaram de tal coisa.
— Sim, é porque vocês são moços, não pensam nisso, insistiam as mulheres. Saibam que não é só de velhice que se morre neste mundo. Vamos pensar um pouco no futuro. Lembrem-se de que a morte anda pegada à nossa pele.
E como os sinos começassem a repicar forte anunciando o meu enterro para o dia seguinte, os rapazes se retiraram desanimados. Desceram até a pracinha. Um sentimento novo amargava-lhes o coração.
— Tudo perdido. Temos que mandar avisar que o jogo foi adiado. Que azar!
Na conversa junto ao chafariz, circulavam uns termos até então desconhecidos no Arraial: "esquife", "féretro", "funeral" e outros, lançados pela professora.
As moças não pareciam tristes. Iam perder o futebol, é verdade; em compensação, o enterro valeria a pena como festa. A primeira cerimônia pública desse gênero que se ia realizar no Arraial. Muitas ficaram em casa, preparando os vestidos.
Vendo-me de preto entre círios e mulheres que rezavam ou fingiam rezar — os rapazes se impressionaram.Ecoava neles a advertência fúnebre da velha, reforçada agora pelo sino que não parava de tocar. Desistiram da campanha contra o enterro. A cancha ia mesmo virar cemitério...
Eu estava de fato um defunto convincente. As crianças trepavam para espiar, e recuavam de pavor, repelidas sempre pela ponta de lança de meu dente único.
No dia seguinte, o povoado acordou cedo. Fora uma noite diferente, noite em que cada um se deitara com a convicção de que eu estava presente a seu lado. Os cães ganiam a cada minuto. Ninguém punha o rosto à janela.
Para todos, eu era um defunto imenso e difuso, presidindo à noite do Arraial.
Na verdade, não passei um minuto sequer junto a meu corpo. Quem se incumbira disso fora a professora e uma velha.
Flutuei por cima dos telhados, penetrei de mansinho nos lares. Quedei-me junto de várias criaturas, acompanhei-lhes os movimentos íntimos. Como toda essa gente é simples, a portas fechadas!
De alguns que dormitavam toquei-lhes de leve a nuca. Apenas toquei. O suficiente para apreciar-lhes o estremecimento de pavor. Ninguém me viu. Senti não poder apresentar meu vulto em forma de vapor, como no tempo em que se acreditava em fantasmas. Nem mesmo consegui apagar as lamparinas acesas por minha causa. Talvez porque meus fluidos estivessem enfraquecendo, talvez porque não tardasse a desintegração de meu corpo.
Estou reduzido ao mínimo, pensei. Mas posso perfeitamente dar uma chegadinha até o cemitério, onde vão instalar-me hoje à tarde.
O portão foi colocado, os muros caiados de novo. A cova está aberta. Retiraram as traves do gol. Foi pena. Aquilo tinha mesmo formato de cancha de futebol, mais que de campo-santo. Não sei como vão se arranjar agora os rapazes.
O sino começa a badalar. Os cachorros põem-se a latir. Está chegando a hora. Eu me recolho aonde se acha meu cadáver para assistir ao saimento. Lá está a mesma mulher. (— Mas a senhora não me larga, professora!)
Ah, se eu pudesse articular as palavras. Que olheiras as dela, que maneira suspeita de olhar para um corpo morto.
Já vou sendo levado. O ambiente é festivo. Todo mundo me acompanha exceto o Fundador. Alegou que precisava cortar uns toros lá em cima, deixou Dona Maria doente e grávida na cama, sumiu-se. Não quer saber de nada com a morte; diz que não gosta de cemitério.Eu também não gosto. Principalmente nas condições em que estou sendo enterrado, com esse péssimo sino que mais parece batucada confusa e sem ritmo. Nunca ouvi tocar tão mal a finados. A população me acompanha com relativa decência. Pelo menos, faz o possível. Os rapazes compareceram, afinal. Friamente.
Sob a aparência fúnebre, as senhoras escondem certo entusiasmo. Algumas quase sorrindo. Estou perto, e estou vendo. De vez em quando se lembram e simulam consternação. Consternação verdadeira, porém, reina atrás, perto da bandinha de música, onde os rapazes deploram ainda a perda do campo. Como compensação, namoram as moças.
— Aqui não, diz uma. Olha o morto.
— Deixa, deixa que ele te aperte, moça — insuflo aos ouvidos dela. Não te preocupes com o que vai lá na frente; aquilo é apenas um corpo abandonado, arranjo de velhas que só pensam na morte.
Parece que a moça me atendeu...
O préstito atravessa o portão de ferro. Meu caixão é colocado perto de seu lugar definitivo. Começo a achar aborrecido o papel a que me obrigaram. Despertar tantas idéias tristes numa aldeia tão despreocupada!... Não reclamo nenhum respeito pelo meu corpo. Será que já está descendo à sepultura? Um momento. Deixem-me voar até lá...
O padre terminava as palavras em latim. Referiu-se depois ao significado da cerimônia: entregava aos futuros mortos do Arraial Novo a sua verdadeira morada; e exortava o povo "a que pensasse sempre na morte!" Quando terminou, todos olhavam para o chão e simulavam tristeza.
Ouviu-se em seguida a voz bonita do vereador distrital. Disse que ali se enterrava um dos últimos tropeiros do nosso amado sertão, "raça que se extingue ante a avançada progressista dos caminhões"; que me conhecera (onde? como? se nunca me viu, se nunca votei!) e tinha importante declaração a fazer: "Eu não era um defunto estranho ao local, nascera ali mesmo!..." Baixa demagogia... Pois se o Arraial não tinha trinta anos! Os rapazes sorriram. E resolveram, baixinho, expulsar do clube o sujeito amarelento que se prestara ao papel de coveiro.
A professora avança e dá instruções. As moças me cercam e eu me surpreendo numa onda de alegria indefinida. Aura de juventude emanando delas! Que fazer de tanta primavera desaproveitada? Meus fluidos roçam-lhes o colo. Somente os fluidos. A invisível carícia arrepia-lhes a pele, enquanto a musiquinha toca uma coisa triste debaixo das árvores.
Que se passou com elas que enrubesceram de repente? Algumas cruzam os braços ou tapam com o xale o busto arrepiado; outras se escondem, perturbadas, no meio do povo.Está na hora de eu ir para o fundo. Quem é que me aparece à boca do buraco? A mula com a cangalha! Ó mulinha, ainda bem que não esqueceste o antigo dono. Coitada! Meio desmanchada, como um brinquedo abandonado...
Logo atrás, sorrindo com os dentes brancos, a metade do corpo comida pela sombra, quem vejo? Isabela!
— Tu te lembras, pretinha, daquele banho no ribeirão? o único momento bom de minha vida. Ah! agora não posso, mulinha!... Agora não posso, Isabela! Pois vocês não vêem que estou muito ocupado, inaugurando?!
Os rojões explodem, rejubilam-se as velhas. Só não conseguem chorar. E com frenesi atiram sobre o meu corpo uma chuva de pétalas. Em seguida, torrões de terra, como se me apedrejassem. Abraçam-se e despedem-se felizes.
Tinham arranjado sede para os seus despojos.
O portão foi fechado. E eu fiquei lá dentro, como ovo de indez. A espera dos mortos que hão de vir...
Fiquei, é modo de dizer; saía sempre. A idéia de corpo sepultado sossegou a princípio os meus fluidos. Durante dias perdi a memória; alguma interrupção, talvez mergulho mais demorado no vazio. O fato é que reapareci depois. E ainda há pouco dei um giro até a pracinha.Há lá um arbusto onde gosto de ficar. Uma moça que passava perto parou de repente, assustada, olhando para mim, sem me ver. Tratei de voltar logo ao cemitério. E foi bom, pois um vira-lata, o mesmo da chegada, o que mais latiu na igreja e rosnou todo tempo no enterro, o cachorro de sempre, esgravatava com fúria o meu túmulo em direção aos ossos! E eu, pensando em seus dentes, experimentava a sensação de mal-estar análoga à que em vida se chama pavor.
Afinal de contas, é mesmo ao meu corpo que pertenço; dele não devo afastar-me muito, sem risco de me dissolver para sempre.
Francamente, o que não me agrada é ser o usufrutuário único deste local. Se uma só andorinha não faz verão – disseram os rapazes –, uma única sepultura não devia fazer cemitério. Deram para chegar atrasados e abatidos ao eito. Põem-se a sorrir quando encontram as velhas. Elas não compreendem, sentem-se satisfeitas com o seu cemitério.O Fundador desconfia, mas finge que não sabe. E para ter a certeza, usa um estratagema:— Para apanhar?
— Que jeito! Não temos onde treinar...
— Então? Ficou de pé o desafio?
— Nós jogaremos assim mesmo.
— Por que não falam com a professora? Ela tem a chave do portão.
— Mas só abre quando vai rezar lá dentro.
— Para um morto que não conhecem... acrescentou o outro.
— É isso mesmo, exclama o Fundador. Inventaram a morte no Arraial Novo!
As velhas, de fato, não largam o cemitério. Entram ao cair da tarde e se ajoelham. Não rezam por mim, rezam pelo futuro defunto, rezam para a morte. Há pouco, entrou a professora. Debruçada sobre a sepultura não fez senão murmurar:
— José, meu José...
Ora, eu não me chamo José... Esqueci meu nome, é verdade; mas sei que não era José...
Razão tem o Fundador. O espírito da morte apoderou-se do Arraial. Ainda ontem senti isso quando estive pousado nos arbustos da pracinha. Todo mundo silencioso e triste, aguardando a abertura da igreja. Só não vi os rapazes. É o cemitério, pensei; é a minha presença!De alguns dias para cá, se uma parte da população se entrega aos trabalhos de rotina, a outra se ocupa em interrogar a alma.
As velhas dizem que se alguma dúvida houver, é só passar a noite pelas imediações. Ouvem-se barulhos estranhos, estrupidos de correria. E se não fosse o rumor dos moinhos, todo o arraial poderia escutar. Ao saber disso, tomou-se a população de certo orgulho: já havia fantasmas no cemitério do Arraial Novo!
Um defunto extranumerário, um simples tropeiro tivera a força de transformar em campo-santo uma área terraplenada, logradouro inexpressivo antes.
Que todos respeitassem agora o cemitério com as almas que nele transitam!...
Essas almas eram quase sempre vinte e duas, fora as que permaneciam a certa distância, olhando apenas. Escalavam o muro e, uma vez lá dentro, vestiam depressa os calções.
As lavadeiras que passavam perto mal ouviam o barulho, saíam correndo. Se tivessem coragem de verificar, poderiam reconhecer vultos familiares sob o projetor da lua cheia.
Eu adorava ficar ali. Acompanhava o movimento do jogo. Torcia. Metia-me no meio dos jogadores. Só faltava gritar. Não sei como ninguém dava pela minha presença. A bola saltava às vezes o muro e ia aninhar-se no capinzal de fora. Um dos jogadores cobria-se de uma capa escura e saía a buscá-la. O jogo então recomeçava forte. De repente, fora de propósito, parava
— Que houve? quem apitou?
Ninguém apitara. Era eu que soprara no apito do juiz. Muitas e muitas vezes intervinha sem que ninguém soubesse, só para animar, só para mostrar que me achava ali, vendo, participando. Substituído o juiz, as marcações continuavam desencontradas. Ninguém desconfiava. Antes de raiar a madrugada, esvaziava-se o campo. Os "fantasmas" seguiam para o eito e eu ficava... Ficava...
Era bem triste, à hora quente dos comentários, continuar sozinho ali.
Deliciava-me só de pensar em novas noites de jogo. Às vezes os rapazes demoravam, e eu me tornava impaciente. Primeiro, atiravam a bola. Sabia então que estavam perto, preparando-se para a escalada. A bola corria até para junto de minha sepultura. Despertado do sono, eu subia depressa no muro e, sem garganta, sem voz, punha-me a chamá-los. Iniciava-se então mais uma partida animada.
Evitei repetir a proeza do apito, não só porque podia afugentar os jogadores, privando-me do espetáculo, como pelo receio de submeter a uma prova infeliz a força cada vez menor de meus fluidos.
As velhas já desconfiavam. Não todas. E, por certo, nenhuma, se a professora não deparasse com a minha cruz de madeira caída ao chão. Culpa dos rapazes que se esqueceram de recolocá-la quando, da última vez, fugiram do sol que raiara depressa.
— Fantasma não faz isso, disse a professora, suspeitosa. Quem teria sido?
As mulheres foram de novo queixar-se ao Fundador:
— Isso não é comigo. Falem com D. Maria, mas depois que nascer a criança, pois a minha velha já está em dores.
— Mas jogaram uma bola na cruz! É uma profanação! exclamava a professora. — Deve ter sido algum fantasma, explicava um dos rapazes.
— Ou então chutaram de fora, disse outro.
— O muro não deixa, insistiu uma das mulheres.
— Só se foi um tiro de parábola e aqui ninguém sabe chutar assim...
— O Zequinha, lembrou o coveiro, chuta suspendendo a bola.
Ora, todo mundo sabe que Zequinha fugiu com a mulher do vereador. Jogava tão bem, que ela fugiu com ele...
Os rapazes só contavam agora com a mediação de Dona Maria que não estava bem, depois que lhe nascera a criança.
Daí por diante, nunca mais se bateu bola no cemitério. Reforçada a vigilância, meus fantasmas não apareciam.
Fiquei mais triste. Agora, nem para voar até o arraial tenho força. Para nada, aliás, tenho mais forças.
Já não percebo bem o que se passa atrás dos muros. A paisagem se dissolve ao meu olhar que está se apagando.
Parece que ainda resta para os ouvidos um canto de lavadeira batendo roupa. Tão longe...Mas está acontecendo qualquer coisa lá na entrada. O portão se abriu todo! O povo chegando!...
Ah, é a senhora?! Pois entre, a casa é sua... Eu, sozinho, já não podia responder por todo este cemitério. Estou sumindo... O espaço endureceu. Meu prazo terminou.
Só vejo figuras opacas imobilizadas no gesto de chutar a bola. E essa coisa fixa, mancha final de luz remota que deve ser o Sol.
Entre, Dona Maria. Sirva-se de seu cemitério...

(O texto acima foi extraído do livro Os 100 melhores contos de humor da literatura universal, Ediouro - Rio de Janeiro, 2001, pág. 429, seleção de Flávio Moreira da Costa.)