Astolfo Lima Sandy nasceu em Sobral, Ceará, em 1952. É autor do livro Mão de Martelo e outros contos (Fortaleza: Programas Editoriais Casa de José de Alencar/Coleção Alagadiço Novo – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1998). Participou do Almanaque de Contos Cearenses (Recife: Ed. Bagaço, 1997), da Antologia do Conto Nordestino ano 2000 (Recife: Ed. Micro, 2000) e da revista Caos Portátil: um almanaque de contos (Fortaleza: Letra & Música, 2007). Em 2002 recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional para escritores com obra em fase de conclusão, com o livro A Grande Fábrica de Brinquedos, ainda inédito. Tem contos em suplementos literários e sites na internet. Vencedor de vários prêmios literários. Concluiu recentemente o romance Exuberante pós-nada (vencedor do Edital de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará/SECULT, em 2007).
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PEGA EU, VAI!
Acidentalmente ou não, o disparo poderia sair a qualquer instante e Mauro precisava ficar esperto. O garoto – no jipe que seguia logo à frente do seu – enfiava metade do corpo pela janela, apontava o rifle na sua direção, abria um sorriso idiota, porém logo retornava ao assento. Abusou desse gesto, assim como Mauro das várias tentativas de ultrapassagem. Em todas, o entrave: uma carreta em sentido contrário, a curva mais sinuosa ou o carro em que viajava o menino aumentava de velocidade ao atingir um trecho melhor. Parar no acostamento e permitir que o ônibus na retaguarda tomasse a dianteira estava descartado para Mauro: só havia precário espaço de emergência na outra margem; na sua, o corte da estrada no terreno mais acidentado, repleto de pedregulhos, e o precipício – parcialmente encoberto pela cerração. Mauro entendeu que seria melhor se adaptar àquela circunstância por mais uns vinte minutos, tempo presumível para concluir a descida. Tinha, contudo, uma certeza: ainda que escapasse inteiro, não deixaria impune o pequeno cafajeste.
Em determinado momento, quando o seu utilitário se aproximava perigosamente do outro, que era guiado por uma senhora, Mauro percebeu que o moleque, sozinho no banco de trás, lhe abananava as orelhas com as mãos naquele aceno típico de quem se dirige ao asno, e viu também no cano do rifle, parcialmente fora da janela, muita semelhança com um desses armamentos modernos, mira a laser etc. – embora não descartasse a possibilidade de estar diante apenas de sofisticada arma de brinquedo. Só não apostou nessa última hipótese pela aflição da mulher ao volante, voz ecoando estridente como se repreendesse o garoto por aquela atitude disparatada, repetida a intervalos curtos, algo sistemática, ilógica. Metia-se o safadinho pela janela, escorava-se a um anteparo, esboçava o sorriso parvo e, imitando os safáris, mirava a cabeça de Mauro: dedo claudicante ao gatilho, escorregadio por vezes sobre a coronha, mas logo reassumindo a posição original. Feito isso, retornava mansamente ao seu lugar e ali permanecia, todo manha. Teria uns dez anos, se tanto, o vadio.
Mauro não tinha dúvida de que qualquer vacilo poderia ser fatal, ainda que o menino não tencionasse abrir fogo contra sua cabeça: uma freada brusca, derrapagem ou solavanco mais forte. Por instantes torceu para que a arma fosse mesmo de brinquedo. Só murchou de vez ao visualizar o logotipo de conhecido clube de caça colado ao pára-choque do utilitário que seguia adiante. Achou que o mais razoável seria se mostrar simpático ao pilantrinha, sorrir contra a vontade, fingir que aceitava na boa aquela encenação estúpida; quem sabe até pegaria seu revólver no porta-luvas e o apontaria no rumo do pequeno boçal, mostrando com isso seu desprendimento e tolhendo nele todo o encanto de comandar a farsa. Ou não? Havia, sim, o risco de o pivete se sentir acuado e pressionar o gatilho. Melhor não facilitar. Manter-se indiferente talvez fosse mais aconselhável – Mauro supôs. O sujeitinho logo escalaria outro para suas investidas absurdas, provavelmente dentre os muitos viajantes que subiam a ladeira, tornando até mais cômodo aquele gesto louco de contorcer-se todo para fazer a mira. Mauro compreendeu finalmente que não fazia nenhum sentido ao homem já maduro ficar superestimando um estúpido qualquer. Aquele peste o escolhera como vítima porque se mostrara receptivo aos ataques, fornecera-lhe munição ao demonstrar medo. Seu estado de ânimo, depois de movimentadíssimo fim de semana, não era dos melhores. Pela manhã Mauro andara exagerando nos drinques e só desejava agora chegar a casa, meter-se numa ducha, relaxar.
Preso a tais reflexões, Mauro nem viu a metade do menino novamente fora da janela. Desta vez ele não esboçava o sorriso de deboche. Tinha o olhar distante, se bem permanecesse com o rifle apontado na sua direção; dedo trêmulo sobre o gatilho – impulsos repetidos em detalhes como nas tomadas cinematográficas. Os dois carros estão praticamente encostados um no outro. A senhora que conduz o garoto reduziu a marcha, o sujeito do ônibus na retaguarda acelerou mais. Mauro está imprensado num sanduíche, mas compreende como favorável essa proximidade dos três veículos, vez que dificultará a mira do pequeno patife. Momentaneamente nenhum fica vendo a cara do outro e, se o tiro vier, será de cima para baixo, aleatório, no máximo lhe perfurando o teto.
Mauro escuta de novo o grito histérico da mulher, ecoando metálico sobre as rochas, porém sem deduzir ao certo o que isso significaria. Talvez repreendesse mesmo o safado pela enésima vez – cogita. Vê o carro dela se desviar da faixa e só então descobre o pirralho montado na janela do lado oposto ao seu; arma como sempre oscilante em suas mãos. Intuitivo, Mauro puxa o volante à esquerda e chega a tocar de leve no pára-choque do outro jipe; gira em seguida à direita, aproximando-se perigosamente do abismo; breca de leve temendo uma derrapagem e reassume por fim o controle da direção.
O menino, ao se concentrar na mira, fechando um olho e entreabrindo a boca, dá a impressão de que o disparo é uma simples questão de tempo. O suor frio começa a escorrer pela testa de Mauro, deslizar ácido até os olhos, turvando-lhe as lentes. Não pode perder a calma – Mauro repete, baixinho, ao mesmo tempo em que retira o lenço do bolso da calça, os óculos da face e vê seu carro fazer ligeiro ziguezague. Mauro aciona o freio de emergência no puro reflexo, enxerga tudo mais embaçado à sua volta; lentes sobre o colo, mão que as enxuga rápido na ponta da camisa e as recoloca no rosto. Alívio. O patifizinho resolveu abaixar o rifle. Olha com seu riso velhaco para Mauro e logo retorna ao assento, aparentemente tranqüilo, a cabeça estendida no encosto.
O maluco desistiu finalmente daquela brincadeira sórdida – Mauro imagina. Só imagina, porque o menino, feito alguma coisa o espetasse por baixo, salta do banco, se enfia mais uma vez pela janela, formando a diagonal imaginária entre sua própria cabeça e a de Mauro. Os dois carros conservam distância bem razoável entre si e o fluxo de veículos em sentido contrário diminuiu sensivelmente, ocasião propícia a uma ultrapassagem segura. Restam ainda dez minutos para se completar a descida e Mauro não pode desperdiçar essa oportunidade. Manobra à esquerda, acelera e... um trator surge de repente pela via secundária, obrigando-o a retomar sua mão. Soqueia raivoso o volante, aguarda a passagem da máquina, tenta novamente e... dessa vez é um cavalo em trote, desgarrado, invadindo o espaço. Mauro sente ímpetos de passar por cima, depois retrocede e pensa numa terceira tentativa... já impossível: a curva mais perigosa da serra se projeta diante de seu nariz.
Mauro vai encontrar o salafrariozinho na outra janela. Surpreende-se ao ver que ele não mais empunha o rifle; ali permanece indiferente à paisagem. Parece saciado com o estrago já feito ou talvez nem se atenha à gravidade da sua cretinice. Pouco importa. O menino olha para o vazio, atira latinhas de refrigerante na pista – o riso sem vergonha sempre vivo no risquinho de boca. Afinal ele é apenas uma criança. Até brinca de fazer careta ao perceber-se alvo do olhar fulminante de Mauro. Depois fecha a cara, ajoelha-se no banco e fica olhando para lugar nenhum.
No vale à direita, um rio de brinquedo – que aparece e se esconde – agora toma formas reais e serpenteia manso por entre as palmeiras, em busca do mar. A tarde já se esvai em sombras para receber a lua. Um pássaro vagabundo, em vôo lerdo, interrompe seu grito e se recolhe em alguma gruta das tantas ali existentes, enquanto o ventinho gostoso invade a janela do carro de Mauro, transmitindo-lhe toda a paz das montanhas. Estão deixando para trás o trecho mais crítico da estrada. Último estirão.
Agora é a sua vez – Mauro irrompe em excitado riso, que logo se transforma num gargalhar epilético. Ele tosse, tosse, engole saliva, se engasga, muda de cor, agarra-se ao volante, recupera-se. Uma lágrima extensa e salgada lhe escorre pelo rosto. Para Mauro a brincadeira ainda não começou. Dará bela lição àquele miserável. Lavará o peito. Os dois carros estão relativamente próximos um ao outro e desenvolvem velocidade uniforme. As luzes da cidade, lá longe, já começam a pipocar aqui e ali. Em menos de cinco minutos, a bifurcação, e Mauro dobrará à direita. O jipão do garoto, com certeza, tomará outro rumo. Mauro sabe que no mesmo sentido os dois não seguirão mais.
Mauro está ofegante quando retira o revólver do porta-luvas. A palidez na face cedeu lugar a uma tonalidade rubra, umedecida pelo suor que brota novamente de sua testa larga. Pregará uma boa no safado. Apontará a arma na sua direção, abrirá cara de ódio – quem sabe, ódio real – e efetuará o disparo. Para cima, lógico. Quer apenas mostrar ao imbecilzinho quem é o dono da situação. Se fosse possível o esganaria depois. O menino topa na hora a retomada da brincadeira: enfia-se rapidamente pela janela, abraçado ao rifle, e na sua carinha débil e cavilosa se desenha uma fúria que também pode ser apenas imaginária. Como num filme de mocinho e bandido, aliás; porque para o garoto, matar ou morrer, agora é uma simples questão de honra. Quem for mais rápido...
Um único tiro se faz ouvir, forte, ressoando nas rochas que vão ficando para trás. Estilhaços de vidro, a freada brusca e o sol chamuscado de sangue, lá distante...
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