quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Marcelino Freire
















Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000), BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial, e Contos Negreiros (Contos, 2005) pela Record. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo. Blog: http://www.eraodito.blogspot.com/ E-mail: mjfreire@uol.com.br


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Caderno de turismo

Zé, essa é boa.
O que danado a gente vai fazer em Lisboa? Bariloche e Shangri-lá? Traslados para lá. Para cá. Travessia de barco pelos Lagos Andinos. Nunca tinha ouvido falar em Viña Del Mar, Valparaíso. A gente não devia sair do lugar.
Quem já viu se aventurar na Ilha do Cipó? Ilha do Marajó? Itacaré? Fugir de dentada de jacaré? O que você quer, homem? Sem dinheiro, chegar onde? Não tem sentido.
Oklahoma, nos Estados Unidos. É delírio. Peregrinar até as múmias do Egito. Que história é essa de cruzeiro marítimo? Caribe, Terra dos Vikings, Mediterrâneo? Enfrentar o Oceano Atlântico? Canadá, Canaã? Deserto de Atacama? Que besteira! Ir para Bali, Beijing, Xian, Xangai, Hong Kong.
Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê, que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando? Los Angeles? Valle Nevado? Que língua você vai falar no Cairo? Em Leningrado? Nem sei se existe mais Leningrado.
Zé, esquece. Nada de Andaluzia. Tahiti. A gente fica é aqui. Que Sevilha? Roteiro Europa Maravilha. Safári na África pra quê? Passar mais fome? Leste Europeu, Escandinávia, PQP. Presta atenção: a gente nem conhece o Brasil direito. Bonito, Chapada Diamantina. Dos Veadeiros. A América Latina. Guiana e Guiana Francesa. Não existe beleza. Rota do Sol. Rota das Estrelas. Perca. Atrase a viagem, Zé. Não parta. Você não vai para a ilha de Malta, não vai. Eu não deixo. A vida da gente é aqui mesmo. Sempre foi aqui mesmo. Não nascemos no Berço da Civilização, Istambul e Capadócia. Zé, o que deu na tua cabeça? Ora, joça! Estamos Longe de Miami, homem. Acapulco e Suriname. Nosso destino é um só. A gente não tem dólar. A gente não tem cartão. Deixa de imaginação. Você não tem medo de avião? Tanta asa que cai pelo chão. Atentado, bomba em Bengasi, doença em Botsuana. Zé, estou sendo franca: olha bem pra nossa cara. Por que partir para Dinamarca? Caracas? Cancún, Congo? Cachorro a gente enterra em qualquer canto. Enterra aí no quintal, Zé. E pronto.


Hehehe

Porque gosto de crianças e sou Papai Noel, Papai Noel, Papai Noel. As crianças gritam quando vêem a minha barba sentada, acinzentada, as crianças se penduram na minha barba e fazem assim: nó.
Papai Noel, Papai Noel.
Algumas choram e eu vou lá: jingobel, jingobel. De amor, fecho os olhos. Quem não gosta? De ser amado desse jeito, o tempo que dura a promoção da loja? Não me incomoda que as crianças chorem, não me incomoda. Há aquelas que têm medo, natural. Difícil existir um avô como eu, no Brasil. Barbudo e branco. Gordo como um balão no chão vermelho. Até gosto quando elas choram. Mostro serviço. Ponho a belezinha no colo e consolo. E canto no ouvido. E balanço o sino e o coração. E ensino quem foi Jesus Menino. Faço uma oração. Peço que nunca me tirem essa noite feliz, ano a ano. Zelo por minha profissão. Meus dentes bondosos sempre serão bondosos. Solto aquele sorriso bonachão. A fila enorme. A fila feliz. Quanto maior, mais feliz.
Acordo feliz porque faço o que mais gosto: ser Papai Noel. Anjinhos como aqueles anjinhos, Meu Deus, a cuspir chorinho no meu ouvido quando eu pergunto: “Você gosta de Papai Noel?”, e elas, consoladas: “Góstú”.
Aquilo me comove, aquilo me reboliça a pança. Aquilo é o melhor presente que se ganha. Sou o pai delas e as coloco enfeitadinhas junto a mim. Felizes, sentadinhas. Como bonequinhos e bonequinhas. Elas puxam a minha barba, brinco: “Ui”. Elas puxam o pompom do meu chapéu, brinco: “Ui”.
Eu nasci para cuidar das criancinhas do mundo. Para dar o que daria a elas um bom velhinho: “Você foi bonzinho o ano todo, foi bonzinho? Obedeceu à mamãezinha? Obedeceu ao papaizinho?”.
“Sim, sim, sim.”
Aquela alma divina que toda criança tem, aqueles cabelos Johnson, amém. Mesmo quando elas mordem a gente, beliscam a gente, o que é que tem? As mães vêm pedir desculpa, tudo bem. A única coisa que me zanga é quando vem uma Mamãe Noel. Merda de velha esquisita, que não sabe dar carinho. Pra quê? Prefiro ficar sozinho.
Digo no ouvido dos meninos: “Mostra a lingüinha para Mamãe Noel”. Digo no ouvido das crianças: “Ela é uma bruxa”.
Não é maldade, não. Só quero ficar na minha. Em paz. Quero um Natal cheio de paz para todo mundo. Um final de ano, mais um ano. Tantos anos trabalhando nessa loja que acabei me acostumando. Vi tanto menino crescer, tanta menina crescer.
Há até alguns que vêm me dizer, no cantinho: “Não acredito mais em você”. Dizem assim: “Papai Noel não existe, Papai Noel não existe, Papai Noel não existe”.
Pode? Que feio! Mas depois fico pensando: “Papai Noel como eu não existe mesmo”.
Hehehe.

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