Francisco de Paula Sobreira Bezerra nasceu em Canindé, Ceará, em 1942. Fez o antigo Ginasial e o Científico, incompleto, em Fortaleza. Concursado no Banco do Brasil, foi trabalhar no interior do Estado, depois fixou residência em Natal, Rio Grande do Norte, onde, aposentado, vive até hoje. Publicou os livros A Morte Trágica de Alain Delon (contos, 1972), A Noite Mágica (contos, 1979), Não Enterrarei os Meus Mortos (contos, 1980), Um Dia... os Mesmos Dias (contos, 1983), O Tempo Está Dentro de Nós (contos, 1989), Palavras Manchadas de Sangue (romance, 1991), Clarita (contos, 1993), Grandes Amizades (contos, 1995), Crônica do Amor e do Ódio (contos, 1997), A Venda Retirada (romance, 1999) e Infância do Coração (romance, 2002). Cinéfilo, foi presidente do Cineclube Tirol, de Natal, e do Clube de Cinema, de Fortaleza. Ganhador de vários prêmios literários, como o da Fundação José Augusto de Ficção, de 1879 e 1981, onde também venceu o Prêmio Aurélio Pinheiro de Ficção, de 1985, e o Concurso Literário “5 Contistas Potiguares”; além do Concurso Literário Câmara Cascudo, de 1987, dentre outros. Participa de várias antologias.
Para ler Dimas Carvalho clique no nome.
A PANTERA
Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo – nem grande, nem pequena. Os braços – e aí um pequeno senão na sua beleza – eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da farmácia, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até a vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia “ver” a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem um razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de que quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, tinha de fato, saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, viesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.
E, à noite, sonhou com ela.
E SE...
Há uns dez minutos ele está observando a mulher remexer-se num sono intranqüilo, ora virando-se para o lado, ora voltando à posição de costas para a cama. A nudez da mulher é resguardada apenas pela calcinha branca, mas esta, transparente e bem ajustada ao corpo, deixa-lhe quase exposta a bunda, quando ela está de costas para ele. Enquanto a observa, procura precaver-se de qualquer sinal que o indique estar desperto, estático naquela posição, para que a mulher não acorde do sono inquieto e venha tirar-lhe a concentração nas palavras que ela disse há pouco, quando seus corpos estavam entrelaçados.
Pouco depois sentiu vontade de urinar. Levantou-se e, com cuidado para não fazer ruído, foi para o banheiro, à sua esquerda, a três passos da cama. Ficou sentado no vaso, para continuar olhando para a mulher, cujo corpo conseguia distinguir graças a um pouco da iluminação vinda da rua através da porta aberta do pequeno terraço, à direita da cama. Quando terminou de urinar decidiu deixar o quarto. Palmilhou-o silenciosamente, tendo a mesma cautela ao abrir a porta. Ao passar pela porta do quarto das crianças ouviu o ressonar de uma delas. Na sala de visitas, dirigiu-se à janela e abriu-a. Uma aragem invadiu a sala, tocando-lhe o rosto, e ele sentiu um inesperado prazer, como se recebesse a carícia de uma mulher. Lá em baixo a rua estava silenciosa e deserta, tão diferente das horas do dia.
A pergunta da mulher voltou a assediá-lo. “E se eu gostasse de trepar com ele, o que é que você fazia?” Não entendia a razão de conferir um valor real àquelas palavras (ao ponto de lhe roubarem o sono), se fora ele que as criara para ela dizê-las. Como outras sem conta, ao longo daquele casamento. (Tinha-a acostumado, desde os primeiros dias de casados, a falar certas coisas durante o ato sexual. Isso o deixava excitado.)
Mas, na verdade, fora o procedimento da mulher naquela noite que o perturbava. Ela fizera a pergunta, como ele ordenara, ele não disse nada, e foi aí que acontecera o inesperado: ela repetiu a pergunta, com uma pequena variação. “Hem, e se eu gostasse da pinta dele, o que é que você fazia?” A pergunta era a mesma. Mas estranhou que ela a repetisse, parecendo-lhe demonstrar um interesse incomum, e ficou com a sensação de que o seu silêncio (também um fato inédito nos jogos eróticos entre eles) tenha-a levado à desconfiança de que ele não estava simulando naquele momento; e sendo assim, ela quisesse saber como ele reagiria a uma situação real e não apenas imaginada para tornar mais excitante o ato sexual. Pensou em perguntar, na hora e depois de terminarem, a razão daquela segunda pergunta, mas acabou desistindo.
E agora estava ali insone na madrugada longa, olhando a rua, pela qual passava um carro em marcha lenta, como se o motorista não quisesse ferir o silêncio. Quis consultar o relógio, esquecendo que o deixara no quarto. Sabia que não era muito tarde, mas que o sono já não viria sem a ação de um medicamento.
Ao ir pegar o remédio no armário do banheiro, encontrou a mulher saindo de lá. Tinha vestido uma blusa, talvez para se proteger do vento nas costas. “Perdeu o sono, bem?” Ele disse que sim e que ia tomar um sonífero e ver um pouco de televisão. Quando ainda estava no banheiro ouviu-a soltar um longo bocejo.
Dia seguinte, como de praxe, ele saiu com a mulher e os dois filhos. Deixou primeiro os filhos na escola, depois a mulher no trabalho. Se beijaram, disseram tchau, a mulher saiu do carro, ele ficou observando-a retirar-se. Ao passar por um homem, este se virou e pôs-se a olhar para ela. Lá do carro ele não despregou os olhos do estranho, que só retomou a caminhada quando ela entrou num prédio. Ligou o carro e foi embora.
ISA
Para ler Dimas Carvalho clique no nome.
A PANTERA
Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo – nem grande, nem pequena. Os braços – e aí um pequeno senão na sua beleza – eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da farmácia, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até a vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia “ver” a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem um razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de que quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, tinha de fato, saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, viesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.
E, à noite, sonhou com ela.
E SE...
Há uns dez minutos ele está observando a mulher remexer-se num sono intranqüilo, ora virando-se para o lado, ora voltando à posição de costas para a cama. A nudez da mulher é resguardada apenas pela calcinha branca, mas esta, transparente e bem ajustada ao corpo, deixa-lhe quase exposta a bunda, quando ela está de costas para ele. Enquanto a observa, procura precaver-se de qualquer sinal que o indique estar desperto, estático naquela posição, para que a mulher não acorde do sono inquieto e venha tirar-lhe a concentração nas palavras que ela disse há pouco, quando seus corpos estavam entrelaçados.
Pouco depois sentiu vontade de urinar. Levantou-se e, com cuidado para não fazer ruído, foi para o banheiro, à sua esquerda, a três passos da cama. Ficou sentado no vaso, para continuar olhando para a mulher, cujo corpo conseguia distinguir graças a um pouco da iluminação vinda da rua através da porta aberta do pequeno terraço, à direita da cama. Quando terminou de urinar decidiu deixar o quarto. Palmilhou-o silenciosamente, tendo a mesma cautela ao abrir a porta. Ao passar pela porta do quarto das crianças ouviu o ressonar de uma delas. Na sala de visitas, dirigiu-se à janela e abriu-a. Uma aragem invadiu a sala, tocando-lhe o rosto, e ele sentiu um inesperado prazer, como se recebesse a carícia de uma mulher. Lá em baixo a rua estava silenciosa e deserta, tão diferente das horas do dia.
A pergunta da mulher voltou a assediá-lo. “E se eu gostasse de trepar com ele, o que é que você fazia?” Não entendia a razão de conferir um valor real àquelas palavras (ao ponto de lhe roubarem o sono), se fora ele que as criara para ela dizê-las. Como outras sem conta, ao longo daquele casamento. (Tinha-a acostumado, desde os primeiros dias de casados, a falar certas coisas durante o ato sexual. Isso o deixava excitado.)
Mas, na verdade, fora o procedimento da mulher naquela noite que o perturbava. Ela fizera a pergunta, como ele ordenara, ele não disse nada, e foi aí que acontecera o inesperado: ela repetiu a pergunta, com uma pequena variação. “Hem, e se eu gostasse da pinta dele, o que é que você fazia?” A pergunta era a mesma. Mas estranhou que ela a repetisse, parecendo-lhe demonstrar um interesse incomum, e ficou com a sensação de que o seu silêncio (também um fato inédito nos jogos eróticos entre eles) tenha-a levado à desconfiança de que ele não estava simulando naquele momento; e sendo assim, ela quisesse saber como ele reagiria a uma situação real e não apenas imaginada para tornar mais excitante o ato sexual. Pensou em perguntar, na hora e depois de terminarem, a razão daquela segunda pergunta, mas acabou desistindo.
E agora estava ali insone na madrugada longa, olhando a rua, pela qual passava um carro em marcha lenta, como se o motorista não quisesse ferir o silêncio. Quis consultar o relógio, esquecendo que o deixara no quarto. Sabia que não era muito tarde, mas que o sono já não viria sem a ação de um medicamento.
Ao ir pegar o remédio no armário do banheiro, encontrou a mulher saindo de lá. Tinha vestido uma blusa, talvez para se proteger do vento nas costas. “Perdeu o sono, bem?” Ele disse que sim e que ia tomar um sonífero e ver um pouco de televisão. Quando ainda estava no banheiro ouviu-a soltar um longo bocejo.
Dia seguinte, como de praxe, ele saiu com a mulher e os dois filhos. Deixou primeiro os filhos na escola, depois a mulher no trabalho. Se beijaram, disseram tchau, a mulher saiu do carro, ele ficou observando-a retirar-se. Ao passar por um homem, este se virou e pôs-se a olhar para ela. Lá do carro ele não despregou os olhos do estranho, que só retomou a caminhada quando ela entrou num prédio. Ligou o carro e foi embora.
ISA
Ele a viu aparecer em uma das duas entradas que davam acesso ao bar, de repente estacar, movendo os olhos na direção dos poucos fregueses ali presentes naquele começo de noite. Ele estava em uma mesa perto da entrada de onde ela surgira, na parte do bar que não era coberta, e o rosto voltado para o mesmo local, de maneira a ser facilmente reconhecido. Ainda assim, achou necessário acenar-lhe com a mão, e o gesto, ele não deixou de perceber, apesar de estar tão atento à chegada dela, chamou a atenção dos outros fregueses. Ela acenou também, talvez mais para demonstrar que o vira, e apressou o passo na direção dele, que se levantou para recebê-la. Trocaram beijinhos, ela sentou-se e ele perguntou se o acompanhava na cerveja. Ela preferiu um refrigerante diet.
“Pensei que não viesse mais.”
“Quase que eu não vinha. Relutei muito, antes de me decidir a vir.”
“É, já pelo telefone você resistiu muito à minha proposta de nos encontrarmos. Por que, Isa?”
Ela, que estava com as mãos juntas, afastou-as com um gesto largo, como a sublinhar a resposta.
“Mas eu lhe disse por quê. Achava e continuo achando inútil este encontro.”
“Tudo bem. Mas o que quero ouvir de você é uma razão plausível para não continuarmos. Por que você diz que não dá certo continuarmos?”
Ela ia começar a responder, mas reteve a fala quando notou o garçom se aproximar da mesa, trazendo o refrigerante e um copo. Puxou a argola da latinha, despejou parte do conteúdo no copo, quase o enchendo, sorveu um longo gole, depois do que pôde responder a pergunta.
“Você disse que queria que lhe desse uma razão plausível, não foi? Pois muito bem. O caso é que não sou livre.”
“Não é livre? Como assim?”
Ele alteou a voz, outra vez atraindo a atenção das pessoas sentadas nas mesas próximas. Ela encostou o indicador nos lábios e moveu os olhos para os lados.
“Desculpe, Isa (ele baixou sensivelmente a voz). É que fui surpreendido pelo que você acabou de dizer. Explique-se melhor.”
“Eu não sou livre. Já lhe disse”
Ele bebeu um longo gole, depois tirou um cigarro da carteira sobre a mesa e o acendeu. Parecia buscar na bebida e no fumo o apoio necessário para não perder a calma.
“Mas, Isa, você não me garantiu que era sozinha? Não foi você que quis que ficássemos na sua própria casa, com aquele papo de que não se sentiria à vontade num motel? Não foi?”
Ela não respondeu, ele repetiu não foi? ela disse foi.
“E então? Que história é essa de que não é livre?”
“Eu menti pra você. Mas agora vou dizer a verdade: eu vivo com um homem há muitos anos. E eu amo esse homem.”
Ele soltou uma risada curta, sem ligar para a curiosidade dos fregueses, nem para a censura gestual que ela podia fazer, mas que não fez. Em seguida ele disse:
“Você tá querendo gozar com a minha cara.”
“Bom, se você não acredita, não posso fazer nada. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui.”
Ela fez menção de se levantar, mas ele a reteve com um gesto de mão.
“Queria que você me respondesse com toda a sinceridade de que for capaz. Eu não signifiquei nada pra você?”
A mirada de Isa teve a duração de um piscar de olho. Logo em seguida ela baixou o rosto e não disse uma palavra.
“Não é mais preciso responder. Está muito claro pra mim. Só não está claro é você ter aberto a sua casa para alguém que não representou nada pra você, já que você ama o homem com quem habita nessa mesma casa. Seria pedir demais, Isa, que esclarecesse pra mim essa parte obscura do nosso relacionamento?”
“Você quer mesmo saber?” (Ela tinha levantado o rosto e de novo o encarou.)
“É tudo o que quero saber.”
“Será que vai suportar ouvir a verdade?”
“Vá em frente, Isa.”
Ela esfregou uma mão na outra, como se as mãos estivessem úmidas e precisassem ser aquecidas.
“Não sei como dizer isso.”
“Vá em frente, Isa,” ele repetiu, já com uma certa impaciência.
“Bom. Você foi um... uma... digamos... uma espécie de instrumento...”
“Instrumento?”
“Como os outros...”
“Outros? Houve outros homens?”
Ela estava de novo curvada, insistindo em atritar as mãos.
“É ele, sabe? Precisa que eu faça... O caso é que ele... Eu tenho... tá entendendo?... que ter contato com outros homens...”
Calou-se de repente, como se aquelas palavras lhe tivessem exigido um esforço sobre-humano, deixando-a sem fôlego para prosseguir. Também calado, ele olhava para aquela mulher com a cabeça quase derreada sobre a mesa, indeciso entre a compaixão e o desprezo. Por fim disse:
“Você já pode ir.”
Ela se ergueu, sem olhar para ele, e, sem um mínimo gesto de despedida, afastou-se em passos rápidos. Já ele não tirou os olhos de Isa, até vê-la desaparecer.
O PUXÃO NO NARIZ
Eu estava sentado num banco da praça, quando o vi levantar-se e caminhar na minha direção. Estacou em frente a mim e me disse:
“Você é o Andrezinho, filho do Seu Moacir?”
“Ele mesmo.”
Ele deu um risinho que expressava a satisfação por ter me reconhecido, depois falou:
“Eu tinha certeza que era você. Eu estava sentado naquele banco quando lhe vi chegar e disse pra mim mesmo aquele ali é o Andrezinho. Então, não está me reconhecendo?”
Olhei bem para o estranho de pele de um moreno acentuado, rosto rugoso, cabelos grisalhos, sem descobrir nenhum sinal que me levasse a identificá-lo. O timbre de voz não me soava familiar, e, enquanto o examinava, procurei nele um gesto característico, algo como um cacoete, mas em vão. Nada. Envergonhado, tive que lhe confessar que não o estava reconhecendo.
“Puta merda, eu estou velho mesmo.”
“Não é nada disso. Eu que sou um péssimo fisionomista.”
O risinho dessa vez foi de descrédito à minha desculpa.
“Posso sentar?”
“À vontade.”
Ele sorriu, deu o terceiro risinho (me ocorreu, de repente, que o sorriso fácil fosse um cacoete, que a falta de convívio entre nós por muitos anos me tivesse feito esquecer completamente) e disse:
“Eu sou o Viliam.”
Voltei a olhar atentamente para ele, buscando descobrir algum traço da pessoa que conhecera no passado. Nenhum traço. Em todo caso, a menção do seu nome me fez lembrar dele. Em meninos, fomos vizinhos, separados por quatro ou cinco casas e pela rua, e se não chegamos a ser amigos, fomos, pelo menos, companheiros de brincadeiras. Ele mais velho uns dois ou três anos.
“Está aposentado, Andrezinho?”
“Estou. Você também?”
“Quem dera.”
“Faz o quê?”
“Trabalho em rádio. Setor esportivo. Sou o encarregado do plantão, o cara que dá informações sobre os resultados dos jogos. Será que não me ouviu algumas vezes?”
“Não sou ligado em esportes.”
“Não me diga. Me lembro que você jogava bola até bem.”
A conversa ia rolando, muito mais por iniciativa de Viliam. Eu me limitava praticamente a responder às perguntas dele. E, enquanto Viliam soltava a língua, eu puxava pela memória, buscando desentranhar lembranças ligadas a ele. E fui me lembrando da figura de Dona Marieta, sua mãe. Tinha uma cara feia, amarelada, cabelo frisado, de um louro visivelmente artificial. Mulher feia, de tudo fazendo para parecer bonita, que falava mais do que o homem da cobra. (Via agora como o filho, nesse particular, puxara à mãe.)
Mulher de temperamento forte, com vocação para a prepotência, exercida principalmente sobre o marido – um barriga-branca assumido. (Um detalhe, na aparência, insignificante, revela bem quem mandava na casa de Viliam. Era comum quando alguém nomeava algum menino acrescentar que ele era filho de fulano. Mas se era Viliam, a pessoa dizia filho de Dona Marieta e nunca filho de Seu George.)
E de repente, aproveitando uma pausa na taramelice de Viliam, me ouvi a perguntar pela mãe dele.
“E Dona Marieta? Ainda está viva?”
“Viva até demais. E mais sadia do que eu. Come de tudo. Só está um pouco esquecida. Mora comigo, desde que o papai faleceu.”
“Seu George morreu?”
“Tem mais de dez anos. Mas eu ia lhe dizendo...”
Pobre do Seu George. Deve ter chegado um momento em que não pôde mais suportar a convivência com a caríssima metade. E imaginava o que não estaria passando o filho ao lado daquela mãe autoritária, de convívio ainda mais difícil agora com a chegada da velhice. Mas ao mesmo tempo ponderava se Viliam já não se amoldara ao temperamento da mãe, se o longo convívio com ela não o tivesse tornado um submisso, feito o pai. Problemática devia ser a relação da nora com Dona Marieta, mais ainda se tivesse um temperamento igualmente forte.
Mesmo porque, lembrava-me bem, Viliam não era um menino de cabelo na venta, que pudesse incutir nos outros meninos o medo de lhe pregarem uma peça para não receberem o troco. Nada a ver. Fazíamos brincadeiras pesadas com ele, algumas de deixá-lo ferido e choramingando, e, no outro dia, lá estava o abestalhado de novo com a gente, como se nada tivesse acontecido.
“Sabe do que me lembrei agora (disse Viliam de repente e mais uma vez com aquele sorrisozinho)? Daquela vez que a velha deu um puxão no teu nariz. Tá lembrado?”
“Como não.”
“É, a Dona Marieta não era fácil. Ainda hoje não é, apesar da idade. Você sabe o que ela aprontou num dia desses?”
Viliam começou a contar a mais recente truculência cometida pela mãe, mas as suas palavras entravam-me num ouvido e saíam no outro. O meu pensamento estava concentrado no episódio que ele acabara de lembrar. Aquele puxão de Dona Marieta no meu nariz, na presença da minha mãe e da minha irmã mais velha. E na minha própria casa.
“Isso é pra você nunca mais fazer arte com o meu filho.”
As palavras da megera chegavam bem sonoras aos meus ouvidos, como se ditas naquele momento. E o estranho é que não me lembrasse da causa que levara a mãe daquele boboca a me desfeitear na presença da minha mãe e da minha irmã. Me lembrava vagamente que brincávamos, eu, Viliam e outros garotos, de cinturão queimado. Em dado momento da brincadeira, Viliam foi se queixar de mim a Dona Marieta e ela levantou-se da cadeira e me deu aquele puxão no nariz.
E de repente, enquanto Viliam continuava falando para o vento, me fiz aquela pergunta: será que ele sabia que eu me vingara da agressão (sim, porque eu tinha dado o troco a Dona Marieta, fazendo-a passar por uma situação de extremo ridículo)?
Que ele presenciou o vexame da mãe, disso tenho certeza. Foi na festa de casamento da filha de uma amiga comum de mamãe e de Dona Marieta, e Viliam lá estava junto com alguns dos nossos companheiros habituais de brincadeiras. Qualquer um daqueles meninos poderia ser o autor da peça de que foi vítima Dona Marieta, testemunhada por todas as testemunhas presentes à festa, embora somente eu tivesse um motivo para armá-la. Mesmo assim não acho possível que Viliam me convertesse no principal suspeito, ele que, me lembro bem, não resistiu ao riso, tanto quanto a maioria dos convidados (os poucos que evitaram rir o fizeram por educação) ao ver a mãe debatendo-se para se levantar da cadeira, gritando por socorro, e as pessoas tentando erguer Dona Marieta, uma puxando-lhe um braço, outra o outro braço, mais alguém o pescoço, mais gente para prender a cadeira no chão, e, finalmente, depois de muito suor e muito esforço físico, Dona Marieta sai do suplício, mas sem se livrar do toque final, o requinte do derradeiro ato da suprema humilhação a que foi submetida: o ruído, semelhante ao de um grande peido, do vestido se rasgando. E a bruxa, aos berros, ai se eu pegar o moleque que fez isso, sendo escoltada até a um quarto da casa, enquanto o marido corria em busca de outro vestido.
“Tá vendo como a Dona Marieta ainda está em forma?”
Não disse nada, apenas retribuí o sorriso de Viliam, até porque não ouvira uma palavra do seu relato sobre a mais recente truculência de Dona Marieta. Ele se calara, para certamente descansar um pouco a garganta, tão ativa naquele nosso encontro. Enquanto isso, me debatia na dúvida entre lhe lembrar ou não o incidente ocorrido com Dona Marieta. Tinha vontade de tocar no assunto, mas ao mesmo tempo achava imprudente mencioná-lo, e o curioso na minha dúvida era o temor de que Viliam revelasse que sempre soubera que fora eu o autor da brincadeira e me encostasse contra a parede, deixando-me sem argumentos para desmenti-lo. E era meu desejo manter silêncio sobre a autoria daquela peça pregada contra Dona Marieta. Um ponto de honra? Sei lá. Só sei que nunca abri a boca para me vangloriar do feito. E relutara em fazê-lo, depois de tantos anos decorridos, fustigado pelo filho da megera.
“Bem, Andrezinho, já jogamos demais por hoje. Tá na hora de tirar o time.”
De repente, Viliam punha um fim na minha dúvida. Estirou a mão, deu um último sorriso e foi embora.
1 comentários:
Olá, Nilto.
Ficaria melhor se vc usasse o recurso de link's.
Repito: na hora de postar, vc escolha, por exemplo, a palavra "aqui" (clique aqui, certo?). Selecione-a. Vá até o ícone de link, clique e, na caixa, cole o endereço do link. Dê ok.
Pronto.
Postar um comentário