segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Carlos Emílio Corrêa Lima




Carlos Emílio Barreto Corrêa Lima nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1956. Foi um dos fundadores da revista O Saco Cultural. Publicou os livros de contos Ofos (Fortaleza: Ed. Nação Cariri, 1984) e O Romance que Explodiu (Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2006); os romances A Cachoeira das Eras (São Paulo: Ed. Moderna, 1979), Além, Jericoacoara (Fortaleza: SECULT, 1982) e Pedaços da História mais Longe (Rio de Janeiro: Ed. Impressões do Brasil, 1997); além do livro de ensaio Virgílio Várzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (Fortaleza/Florianópolis: Edições UFC/FCSC, 2003), que foi sua tese de mestrado em literatura brasileira, na Universidade Federal do Ceará. Participa das antologias: Queda de Braço: uma antologia do conto marginal, org. Glauco Matoso e Nilto Maciel (Rio de Janeiro: Club dos Amigos do Marsaninho, 1977) e Uma Antologia do Conto Fantástico, org. Bráulio Tavares (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003). Criou a revista Arraia Pajeurbe (Fundação Cultural de Fortaleza) e as Rodas de Poesias, recitais no Centro Cultural Dragão do Mar. Tem contos no Almanaque de Contos Cearenses, org. Pedro Salgueiro (Recife: Ed. Bagaço, 1997) e na revista Caos Portátil: um almanaque de contos.

Para ler Caio Porfírio Carneiro clique no nome.


A cozinha de Shakespeare

- Você foi à Londres e trouxe uma única foto.
- Sim, uma única, mas total. Depois dela não haverá outra. O lugar é secreto, jamais foi mencionado. Não sei como consegui entrar.
- Conheço uma amiga que pensa que já esteve lá na trilha de um sonho. Havia bebido uma quantidade muito específica de café. Você sabe, há uma quantidade exata, nem mais nem menos. A diferença de um milímetro e já não se pode entrar.
- Sei, você já me contou esta história mas não adianta nenhum subterfúgio. Você tem a foto que queria em suas antenas.
- Houve mesmo, antes, o tal encontro anual, ou foi depois de você conseguir tirar a foto do interior do lugar?
- Sim, foi depois. Lá se trocam, a cada ano, "inflormações", icnografia sobre objetos desconhecidos. Trazemos para observação mínimos pedaços de coisas que não podem ser vistas a não ser por trechos, regiões. Eu participei como pude. Antes da reunião anual eu havia ido àquele lugar. Por trás de uma lanchonete estranhíssima, comercial no aspecto, onde tudo convida ao lanche rápido, há um castelo, cinqüenta metros de distância, no máximo. Castelo fechado branco. Castelo-fábrica, saindo fumaça pelas torres. Muito evidente, não sei como até hoje é um lugar escondido. Não faz sentido já que está à mostra, um armazém elisabetano com funcionamento gótico.
- Talvez até por isso mesmo.
- Cobram inclusive ingressos para visitação das outras áreas, perfeitamente liberadas mas, lógico, não é uma fábrica de salsichas este castelo tradicionalmente povoado de fantasmas.
- Então o que é?
- Deixe-me sentar aqui junto à janela: a cidade parece que vai fugir imediatamente com todas as suas luzes.
- Quanto mais iluminada mais rápida será a fuga.
- Tudo preparado há séculos, não?
- Olhe, quer que eu te diga uma coisa? Nada está confirmado, programado, ninguém na verdade sabe de fato o que vem acontecendo desde que começou o universo. Talvez com esta foto você nos traga uma pista.
- Como eu te disse, esta foto foi tirada muito de viés, quase que por acidente, poderiam notar minha presença. Não pude demorar no local mais do que alguns segundos. Não sei como deixaram a porta aberta. Eu me recusara a ser acompanhado por qualquer pessoa. Minha intenção era ir completamente sozinho ao lugar, sozinho com a percepção corpórea. Não tinha mapa, apenas a indicação de um silvado. O condado fica a poucas milhas de Londres. Aluguei um carro prateado e segui diretamente até lá, sem nenhum desvio. A linha reta.
- Não quero circunlóquios. Vá também direto ao ponto. O que você viu?
- Vi o que eles chamam o caldeirão, onde os corpos são recompostos, retratados, retrabalhados.
- Uma espécie de ossoário?
- Muito mais do que isso. Lá os corpos são banhados, retransformados. Há um tablado de madeira, corrimões ao redor da arena onde os restos fumegam. Não há mal cheiro. Foi a primeira coisa que achei bem estranha. E nenhuma sofisticação de aparelhos, nenhuma ambiência high-tech, tudo como pouco depois da Idade Média, tosco, cordas muito grossas, ganchos de ferro suspensos se movendo.
- Como um calabouço, uma câmara de torturas daqueles tempos?
- Não. Como um teatro, as galerias ao redor, mas de forma alguma um espaço muito amplo. Mas suficiente para a ação: The Globe. E por toda parte uma verdadeira encenação para nada. Eu vi os cadáveres sendo mergulhados nos potes e dezenas de olhos azuis nadando em retortas, muito vivos como peixes num aquário, as peles empilhadas com esmero sobre mesas imensas. E por toda a galeria onde eu caminhava um tácito arsenal de limpeza. Vassouras, baldes, panos de chão. Uma faxina constante. Mas não vi ninguém.
- Como se tivesse havido um lapso na segurança...
- Ou quisessem me deixar ver tudo de uma só vez.
- Não havia câmeras, monitores de vídeo, nada?
- Nada, só enormes vassouras e baldes com água, abandonados. Água abandonada. Hora de almoço.
- Então você acha que realmente o esperavam, que deixaram que você deslizasse furtivamente pelas galerias porque havia necessidade de que você trouxesse a foto para cá?
- Claro, mas antes ela foi mostrada na reunião anual.
- Houve interesse
- Veja bem, eu não disse em nenhum instante a origem desta foto, não expliquei nada. Todos lá ficaram na mesma. Ficou claro que era um trecho de uma forma maior, muito maior. Não consegui fotografar todo o espaço. E isso foi uma tônica durante o encontro. Só foram apresentados trechos, recantos, parcelas, pedaços e ninguém obteve a junção desses fragmentos num todo e como problema maior para que isso fosse atingido os participantes se recusavam a divulgar a origem de suas fotos ou materiais.
- Mas, venha cá, vocês só trocaram figurinhas?
- Não! Houve muitos vestígios de esculturas maiores de todos os materiais inéditos que vêm sendo sintetizados em muitas partes do mundo, lâminas com tecidos de novas espécies vegetais, animais e híbridas recém-encontradas, pólens de flores gigantescas, maxilares fosforescentes, mas não trouxeram nada que você encaixasse, conseguisse completar. Como te disse, somente pedaços.
- Quer dizer que mais uma vez vocês se encontraram no seu congresso anual para se confundirem, para não chegarem a nenhum acordo, a nenhuma espécie de síntese, união das peças do grande quebra-cabeças?
- Sim, essa prática foi levada ao paroxismo. Um verdadeiro caos de formas ao acaso e mais uma vez a linguagem sonegada.
- Definitivamente?
- Não acredito. Há muita gente, como eu, interessada numa solução. O que está acontecendo não tem mais qualquer sentido.
- Uma coisa que nunca entendi é porque vocês não param de se despistar, de esconder a informação essencial uns dos outros.
- Muito simples, meu caro, é uma técnica para despistar um grupo muito maior de desconhecidos que espiona nossos encontros e que tenta captar de todos os modos o assunto central sobre o qual estamos a tratar desde que começou o século.
- Então antes do século XX não havia desses encontros?
- Não, a busca da forma, da geometria, da coisa, do ser desconhecido somente começou em 1901.
- Aonde foi o primeiro encontro?
- Você pode até rir com sarcasmo, mas foi no Cosmo Velho, no Rio de Janeiro. Desde então nós nos reunimos todos os anos em determinados lugares da Terra, trazendo em inúmeros formatos, geralmente sobre o papel vegetal, imagens de lugares, coisas e seres desconhecidos. Nós desfrutamos ali do escambo de formas desconhecidas. Pois nossa intenção desde sempre é a transformação de qualquer fenômeno em arte. Qualquer ato, o menor, o mais oculto, imantado por uma intenção estética, pouco à pouco transformará a tão decantada realidade em algo inteiramente inesperado. Certas coisas, todavia, ainda não são possíveis. Mas um dia, numa certa manhã, todos acordarão num outro universo. Este o nosso projeto.
- Não é uma contradição já que vocês não chegam a nenhum acordo?
- Mas é exatamente o que todos querem, a dispersão total.
- Menos você, ao que eu acrescento: será mesmo verdade? Como posso acreditar que você tenha estado mesmo lá?
- Não estou mais jovem? As rugas menores já desapareceram.
- Olhe, na sua idade tanto faz.
- Sim, mas esses encontros têm a vantagem de proporcionar um rejuvenescimento.
- Tantrismo ou além?
- Não, mera troca de reflexos de objetos desconhecidos, de reprodução de coisas desconhecidas. O esplendor que flui na descoberta de novos símbolos. Nos reunirmos num jardim suspenso e maravilhoso, o qual, por sinal, se localiza a poucas milhas do castelo de Sussex. Esta foto que você tem nas suas antenas foi ampliada num vasto holograma sobre a relva onde as virgens e os efebos mergulharam. Foi uma estupefação. Esta foto transformou-se num lago de imagens.
- Um holograma líquido, fascinante!
- Misturado com luar absoluto. Era noite de lua cheia. Um holograma perfeito que - muitos suspeitam - compreenderam ser a faixa tangencial para a síntese que a todos apavora. Houve uma série de reuniões após a demonstração e fui chamado literalmente às falas. Fizeram-me perguntas as quais deveria esquecer imediatamente depois de serem feitas.
- Exatamente agora vou sentindo que deslizamos vertiginosamente, aromaticamente do assunto que nos interessa.
- Por que você ainda não abriu o envelope? Por que você não quer ver a foto? Depois disso você não perguntará mais nada.
- Antes de abrir este envelope conte-me o que você mais viu?
- Não vi mais nada além de pedaços aparentemente carbonizados, mas o que de fato estava sendo feito era a mudança de pele, estavam sendo recomposicionados. Aquele é o centro de regeneração dos corpos da família real britânica. Aquele é o lugar da genética secreta.
- Sem aparelhos sofisticados?
- Não me pergunte sobre isso pois não tenho a informação necessária para esclarecer assunto tão complicado. O que posso confirmar desde logo é que ali recebem os corpos da aristocracia britânica há séculos, os cadáveres preciosos da Corte. E isso não se sabia até agora. Ali é um outro tipo de carnificina. A carnificina real é para o mundo exterior. Ali - como posso dizer? - os mortos especiais são trazidos de volta à vida.
- E os novos rebentos são fabricados.
- Certo! Não há cópula para que elas, as delicadas crianças, renasçam. São aproveitadas dos velhos cadáveres.
- O oculto armazém da cegonha?
- Sim, por detrás de uma moderna lanchonete de comida industrializada.
- O que é aterrador é que os restos não aproveitados, os restos, por assim dizer, mortais, são devolvidos em forma de hambúrgueres aos turistas não avisados, os dejetos da família real britânica são devolvidos ao estômago dos turistas plebeus que trafegam pela auto-estrada em busca de castelos mal-assombrados. É isso?
- Pode ser. No entanto, eu acredito que também não seja assim. Acho que a própria presença da lanchonete possa ser de alguma maneira uma encenação para que pensemos precisamente tal coisa. Acho que a comida que é servida na lanchonete da beira da estrada não tem mesmo nada a ver com os cadáveres dos reis, das rainhas, dos príncipes, condes, duques e condessas. O indício é só para provocar esse pavor, esse nojo que você está sentindo e que eu senti no momento em que recusei um sanduíche de presunto e algumas rodelas de salame.
- Então?
- Pura armação. Na verdade, o castelo fumegante cumpre a sua tarefa em toda a sua brancura no alto da colina. Reciclagem. Simples reciclagem. Material genético importantíssimo não pode servir para a alimentação de gente fatalmente humana. Talvez eles soubessem que alguém como eu pudesse perceber o que acontecia ali e inventaram também esse simulacro.
- Basta! Vou abrir o envelope (...) Mas isso não prova nada! Isso são sombras, detalhes de uma forma muito mais ampla.
- Fotografei o centro da arena, as formas futuras onde se prepara um rei. Isto não é importante? Um rei que não surgirá da fecundação humana.
- Um rei, um dominador, preparado na proveta.
- Mas sem agentes humanos, sem sêmen e sem óvulo, fora da natureza, completamente preparado com outras substâncias, além da própria genética conhecida, ausente do genoma. Engendrado numa espécie de curral, armazém, celeiro, teatro, enorme cozinha. Um novo ser para as futuras gerações, bem para o futuro, não será nem o bisneto do príncipe Charles, surgirá mais além, e será coroado. Enquanto que nós procuramos o salvador geral eles procuram engendrar, o quanto antes, o seu oposto.
- Você quer dizer que todos eles, todos os membros da família real britânica foram sintetizados, preparados, condimentados dessa forma nessa cozinha de gigantes, medieval-automática?- Mas é óbvio! Tudo tem sido, e já há séculos, empulhação. Resguardada nos escaninhos. Somente esta foto demonstra. E vou mais adiante e te afirmo que toda a aristocracia tem sido preparada assim, não só a britânica mas todas as outras também.
- Vejo claramente, na base da foto, o perfil inclinado de um inca. Mas os incas perderam sua potência.
- Você está certo disso?


Marecéu


Para Marcelo Pawel


Sempre que soprava o entardecer ele saía de casa. Ia até um ponto esquecido da praia e, com o cair completo do sol no interior do mar, sentia-se o mais antigo. Sentia-se saindo de si mesmo como o menino que sempre vinha de longe, obedecendo às passadas gigantescas do relógio invisível da síntese do sol e do mar. Se cada sombra viesse do céu, em lufadas, ele perderia o controle de seu próprio peso. De fato, as sombras vinham com os passos, como se o sol surgisse puro, num latejar de mergulhos. O menino se aproximava dele na forma de um outro fantasiado das mais belas fisionomias do futuro. E cada passada, lufada, mergulho eram suas faces e seus corpos cunhados um dentro do alto mais úmido e agudo do outro. Ele ficava estonteado como se fosse a Terra girando à sua volta. Dos distantes desertos da praia o menino trazia líquido dulcíssimos que derramava em sua boca, a cada beijo, a cada onda espelhando seus corpos unidos no coração noturno de carinho.
O entardecer já não era simples como um sopro vindo de toda a esfera. Da esfera que ele amava como a acordes de pianos, a própria chuva caindo nas teclas. Aí era a tristeza eterna de ar, a carícia das mãos de seu jovem em suas nádegas. Estas mãos iam dizendo que isso era a delícia dele todo antigo, mãos livres e sábias do futuro. "Meu menino, meu menino súbito de praia!" Aí, quando a mão tocava o umbigo, ele sempre via o meteorito veloz. Levantava a cabeça dele toda para o interior mais doce do céu da noite, como se dissesse com os braços fluindo estamos vendo um pedaço da grande cidade perdida se dissolvendo. O jovem então o abraçava como a uma grande cidade e dizia num sussurro, para excitá-lo: sou todo o rosto das constelações. E ele então com grãos de areia se misturando nas bocas molhadas ia se lembrando aos beijos de uma velhíssima sucção onde ele era sendo o fugitivo de brilhos velozes da magnífica destruição. Enquanto sua faces mudando se ampliavam como almas de olhos arregalados transmitia-se o elétrico prazer que vem das derradeiras respirações da brisa triste aereamente entardecida. Que adormece o sofrimento corpóreo dos seres. Assim iam até o silêncio amplificador da lembrança do tamanho de um espelho. Pedia que ele o agarrasse por trás, pelo pescoço, acionando a memória. Deslizava então o tapete estrelado pela escuridão na velocidade do prazer de suas mãos encantadas, surgidas do fundo mais esverdeado de uma chama. Galopavam unidos, transformavam-se seus gestos na festa espumosa dos caramujos. Iam dourados para bem perto das bordas da grande cidade dos céus. Porque eu vim de lá e te abraço por procurar o mar. Todos estamos caindo do céu. Era a hora de descascar com suas unhas a pele que recobria o rapaz. De controlar o surgimento das muitas faces. Sua mão esquerda esquecida sobra a areia fulminava a presença de um outro ser que se aproximasse de dentro do rapaz entregue como um fruto da mais temível distância. Era isso, tão bem o agasalho cheio de idades, de choros que irrompiam simultâneos, de risos que estremeciam as estrelas em comum. Éramos nós que chegávamos com toda a rapidez comprimida até uma gota invisível na distância. Éramos nós, dizia o rapaz embutido na tranqüila ânsia de seu beijo. Sobre o corpo, o torvelinho. Lembra-se, giramos para todos os lados? Era pois que a destruição chegava. Os edifícios tremiam, os tijolos vinham à mostra, a fumaça era captada pelas ondas das antenas. Os edifícios eram tão altos, tão cinzentos. Aí ele agarrava-se ao seu dorso e na posse dele vinha o jorro. E iam caindo pois a praia não era mais o horizonte sensível em suas costas, a terra não mais a pele com que se cobriam na vertigem de seus corpos que rolavam. Num instante ele levantava-se. Sua nudez era tão igual à dele que a Lua vinha surgindo de sua música num tal fulgor que ele corria para ele e num novo agarrar-se o abatia sobre as ondas de um sal que já queimava transubstanciado por toda a luz. E como um sem saber que cai de repente do ar, das espumas de uma eterna vez, eles recolhiam no tremer, no debater-se, o vinho de um segundo, caindo de verdade em suas bocas mergulhando e emergindo pois seus corpos já se procuravam como peixes naquela pequena profundidade do mar. E se perseguiam. E se perseguindo se encontravam numa grande saudade submersa. Não prender a respiração, ele sempre dizia. Nunca prender mesmo uma coisa tão longínqua quanto o sangue. Mas o que ele queria saber era por isso que nadava procurando-o, seus olhos acesos, lâmpadas desejantes, era de onde em movimento haviam vindo e sempre se encontrando no mesmo entardecer para sozinho deixar a noite então fechar-se no seu vôo concentrado para a semente dourada do dia, escondida, pulsando. Feito peixes eles pareciam e circulavam e não eram feito humanos. O sol nasceria um novo deus. Mas qual? Ele perguntava agarrando seus cabelos ondulantes embaixo d`água. Você? Seu braço fazia o caminho das unhas em busca de seu suco que as mãos profundas agarrassem. E como o tempo era longo eles se elevavam do mar e à praia, um por cima do outro, em doses de arremesso, se alargavam. Ele sabia que ele sabia do líquido segredo que os unia. Ele fora o único que aceitara não certificar-se sem que antes ele chegasse no momento em que sempre, ao entardecer, ele dissolvia-se e o mar o arremessava com sua força para ele vindo, um vivo rapaz com cheiro da algas molhadas de arco-íris, as carícias e a queda, a mesma antiquíssima descida até um abismo sem espelhos. E então ele lambia cada gota, mordia cada estremecer de seu orgulho em ser prazer. Eu procurava aquela tecla de piano e quando a nota corrigindo minha forma ia-me movendo a cidade desaparecia. E eles ouviam os galopes pela praia, juntando-se em feixes como fogueiras de som, entrelaçando-os vindo do norte e do sul. E o infinito era o juntar-se. “Se os pescadores nos encontrarem agora, nos levarão como peixes até à aurora.” E esse medo aumentava a imaginação do céu da escuridão. O leve retorcer-se era o chocar-se incorpóreo com os estilhaços da velhíssima cidade que caindo girava em torno deles. Pois você me lembrando foi agora mordendo os meus bicos que do momento mais ausente e longínquo de universo éramos os seres que avidamente procuravam o mar. Lembra-se de mim, garoto em expansão, iluminando as ruas negras da cidade, entre as sirenes e você me procurando, incerto mesmo da minha existência, imerso no medo do grande silêncio abatido sobre aquele mundo, aquela esfera boiando no oceano do espaço? Foi quase um estampido minha aparição. Quando você me viu eu vou dizendo com meus dedos em suas coxas, foi escorrendo a luz de meus cabelos e o mel azul de meus olhos transformou você naquele ser perdido que procurava pois ambos sabíamos alisando nossos corpos que o mar era o nosso destino com meus dentes marcando o teu dorso movimentando esta cintura com minhas mãos de flauta. Só teu e de todos os milhares. As estrelas. A luz toda. A cidade desaparecendo e esta queda de objetos, pessoas, telhados, automóveis se distanciando e nós no meio do prazer numa pressão em que todas as coisas do mundo se distanciavam na rapidez de minha dança revivendo teus músculos tão cansados do imenso.
A lembrança da explosão surgia num gesto afinado. A cada carícia surgiam os clarões das velhíssimas coisas passando, a ventania da explosão. E depois o subitamente eterno de mim sempre voltando, não para buscar-te. Para alisar-te buscando a única coisa que se busca. Molhado, enrijecido de carícias, para tua boca receber vindo de toda a eternidade. Foi mesmo um lançar-se. O menino corria até o norte da praia quando ele o empurrava para que ele fosse recolhê-lo mais belo do outro lado de si mesmo. O que mais era espanto era quando ele se sentia através dele vindo para ele do sul de um cristal, jogando-se sobre ele como um garoto gerado pelas faíscas da noite, embelezado pela margem, adocicando-o num empurrão, ele caindo feito um torrão de luz quase sobre as rochas. Mas ele então perguntava com a mão sobre o seu peito porque ainda a velha cidade doía tão fortemente em seu peito mesmo gargalhando interminavelmente. Ele colocava-o em seu colo e se transformava em que? Em que ele se transformava? Ele disse, leve a minha dor em luz, em marítimo deslizar. Vinham os soluços. A sofreguidão. Sabe o que é isso? Minhas mãos invisíveis por dentro de ti criando-te um novo coração.
Sempre que a noite ia ficando mais espessa, ficava um pouco mais difícil de lembrar. Naquela noite veio a chuva. Veio o silêncio mesmo com a chuva. E ele desapareceu. Ele, sozinho, começou a caminhar nú entre os escolhos e as rochas. Dentro de si a certeza de que não voltaria para casa. Ficou esperando o menino. Procurava-o entre as estrelas, mas desconfiava que assim fosse. Lágrimas vieram. Vento soprou para envelhecê-lo. Ele, imóvel, já absorvendo na pele as cores iniciais da madrugada. Com as mãos sobre seu sexo, curvando as costas, lá, na praia mais esquecida do amanhecer, chorando ao pensar que nunca mais o encontro da estilhaçada lembrança voltaria a acontecer.
O dia inteiro ali ficou no mesmo lugar até que novamente soprou o entardecer trazendo em suas ondas cada vez mais invisíveis as estrelas que boiavam sobre ele. Ele foi se criando a cada onda que mais brilhante de Lua e restos de sol em seu coração de pura alegria se infiltravam. Em pólen ele veio. Desta vez de fora dele. Retirou suas mãos do lugar preferido e moldou-as sobre seu rosto somente querendo eternamente ressonhar. Foi lambendo-o, anjo de espuma e ele foi em êxtase relembrando da antiga viagem das estrelas mais distantes àquele mar em que os dois novamente se arremessaram, mergulhando mil vezes e emergindo novamente.


Primeira lenda de Wuêé

Qualquer precipitação com a tigela de leite significaria o desaparecimento das estrelas. A tigela tivera seu barro misturado à aurora e fôra torneada ao som de uma flauta. Enquanto Luezim tocou a flauta Labar pôde moldá-la com ajuda de toda a memória que tinha da montanha e seus regatos. Porém não podia se lembrar da grande cachoeira que fabricava o arco-íris pois se assim o fizesse a tigela se desmancharia e nunca poderia ficar sólida. Labar tinha pequenos olhos de sol e vivia no sopé de outra montanha gerada pela montanha de granito inicial, a montanha ensurdecedora. Junto com ela morava Luezim. Clá sabia disso tudo porque seu filho mais novo lhe contara. Tinha os ouvidos tampados por profundeza de nuvens para que não pudesse escutar o espantoso silêncio da montanha que ensurdece. Caminhava vagarosamente pela estreita estrada de barro que seguia por um dos inumeráveis vales daquela montanha secreta. Para ver a montanha seu pequenino filho sábio muito antes a levara a um rio de pássaros azuis. Ele mesmo com suas mãos de conchas acesas apanhara um dos estridentes pássaros de água em correnteza e o esfregara na testa clara de mãe.
O pássaro se desfez suavemente em azul e penetrou liquidamente o frescor de sua substância pelos poros da testa atenta de Clá que passou a rir muito e a querer viajar pelo território impenetrável. Então Bá, o pequeno filho, entregou a tigela branca à sua mãe que seguiu em jornada até o deserto onde se escondia a enflorestada montanha que ensurdece a todos com o seu silêncio infinito. As estrelas precisavam ser salvas.
Com a tigela vazia ela muito antes também perguntou ao nada onde encontraria o líquido que só ali caberia, o líquido feito exatamente para morar na tigela da viagem de salvação das estrelas.
Nada naquele tempo era uma espessa mangueira que falava com voz de ouro cantar. Voz rouca de ouro doce. Voz incansável que fazia a todos adormecer e sonhar com as boas respostas que se davam generosas, num alegre marulho que era a roupa da sua folhagem. E o nada respondeu a Clá adormecida em sua sombra que era o leite da mais velha vaca, da vaca de pedra da eternidade que era preciso ordenhar. Clá acordou e partiu. Seu pequeno filho Bá ajudou-a a guardar a tigela (moldada por Luezim e Labar) em seu farnel de azulâncias. Nele estavam também guardadas as cores falantes do princípio. Como a viagem que Clá faria era muito comprida elas seriam boa companhia nas demoradas horas de solidão. Desafivelada a sacola, as cores saltaram e construíram a tenda falante do arco-íris com seu arco suspenso.
Ao despedir-se de Bá, Clá não sentiu medo ou tristeza. Nesse tempo eles eram gêmeos muito arredios que viviam escondidos nas mais afastadas cavernas, sem querer contato com ninguém, sem beber ou comer. Viviam juntos nas cavernas distantes demais, onde ninguém podia ir. Se alimentavam dos ventos frios que depois, muito depois, se transformaram nos lobos e cães selvagens que habitam o mundo aí de vocês; o outro alimento deles eram os redemoinhos escuros que depois se transformaram nas cruzes das suas igrejas, séculos e séculos depois dessa história pela primeira vez ser narrada por um grilo perfeito.
E então Clá deu um beijo em Bá, que já era mais velho do que ela ainda, e partiu rindo tanto quanto o rio de pássaros azuis. Seguindo o rastro da primeira nuvem em direção ao Norte, em direção ao futuro. Que tem um som muito verde e estrelado... Fazia um silêncio muito frio. Fazia-se a primeira noite.
Ora, tudo isso aconteceu porque as estrelas eram muito novas e frágeis e haviam enviado um recado num homem-meteoro até o menino Bá. O recado viera impresso nos olhos de fogo do homem-estrela-silvante, em suaves chamas de azul rápido e celeste. Bá pôde escutar os olhos do meteoro porque tinha o dom de dormir acordado sob a tenda estrelada do céu tão alto. Ele não dormia na cabana da floresta junto com os outros nós irmãos e seus pais, Clá e Lim. Ele só gostava de se dissolver sonhando debaixo da tenda-canoa das estrelas. Naquelas horas ele era o ar gostoso da noite banhando toda a vastidão com seu sono vigilante. E nós soubemos de tudo o que ele ouviu através da conversa dourada do vento com as palhas da nossa cabana da floresta. Quando ele não tinha corpo nós escutávamos a conversa clara.
Imediatamente, as estrelas diziam... Começaram a contar o nosso número cuja cor deve permanecer secreta e inviolável. Que seja construída com música e barro a pequena tigela branca das constelações. Antes que haja a soma faça-se a aurora.
Os grilos têm seis pernas. As duas traseiras são maiores, as quatro da frente quase formam um xis. Eles estão preparados. E os grilos saltam. E como um grilo salta você deve se lembrar onde Luezim e Labar moram agora. Deve enviar recado de vento azul para que eles dois comecem a moldar a tigela na grande praça redonda onde não pode soar um tambor que traga nuvens, na grande praça plana de barro enluarado. Bem no centro, com flauta e os primeiros indícios da aurora. Os grilos têm duas finas antenas.
E eles começaram a fazer a tigela e quando o pequenino Bá voltou a ter corpo eles puseram a tigela já pronta girando velozmente mais rápida que a Terra. No veloz centro do céu. O coração de Bá havia refletido todas as estrelas durante sua morada noturna e, com o surgimento do velho e engraçado sol por trás de um imantado bando de graças que o puxavam e o acordavam de sua indolente preguiça ecoante de águas pesadas de mar com cordões de risadas de luz cocegantemente presos a seus bicos orvalhados, seu coração prateado ecoou-se para dentro e para fora. Retiniu longe e perto. Bronze da noite brandido. Chuva e trovão em céu limpo iluminado azul. Ecoou-se novamente, tempo oco de dentro. No centro da já-lua-lisa-praça do dia Luezim e Labar não viram mais a tigela redonda sorrindo. Ela agora estava pousada sobre o peito de Bá deitado acordado infinito. O homemem-meteoro mergulhou sua pequena última alegre fagulha na crosta do barro da tigela ainda levemente úmida. Até encontrar-se confortável, um mínimo tinindo brilhante de quartzo do céu, um grito fino de quartzo riscado. Bá acalentou-se satisfeito completo acordado, sim. O grande sino da noite estrelada batera e soara no barro com o estampido mais brilhante e mais vasto com o som da cor invisível que a água... e esconde! As estrelas todas recolhidas impressas no barro, boiando na solindeza da aurora. Os curvos cornos de ouro do vento soando cobertos de ramagens, de manhã.
Então Bá, que agora sabia que seu coração era igual ao tamanho redondo do céu estrelado, a circovoltura azul da noite límpida e vibrada, satisfez-se ainda mais que as estrelas todas que enviaram o recado pelo homem do quartzo do céu e fumaça. Movimentou-se para entregar o pires do alto, o pires do círculo, feito de música, aurora e barro velozmente girado no sentido doce ao contrário do céu, soldado por flauta de Luezim e moldado por mãos gostosamente com sede da nunca e remota Labar, mexeu as pernas repletas e fortes e andou ainda mais com vontade, pernas com vontade de floresta cheia de pássaros, pernas agora de vontade com o sol. As verdíssimas flautas do dia, que carregam o horizonte numa rede ruflante sua toda com seus próprios bigodes de linho, haviam despertado para nos embriagar de luz-alvorada. Amado.
Nós vimos Bá chegando tão rápido quanto o piscar das pestanas do peixe do sol. Nós vimos Bá a flutuar como uma gota de rio zumbindo de abelha ao redor da suspensa pedra cintilante do dia. Era o doa e, que a mensagem da claridade fora compreendida pelo canudo da noite. Era o dia perfeito soante das formas e conjuntos do mundo inteiro em que as estrelas retiniram redondamente entendidas. Era o dia a seguir de-por-Bá. Era o dia-Bá!!! Das estrelas.
Por isso é que era que a mãe de Bá é que era que-é-que. O menino prato da noite estrelada sozinha ela levava e seguindo caminhava pelo deserto do dia que campeia mais longínquo, carregando seu prato de luz ecoada ainda vazio de líquido, em seu saco de cores enfeixadas, as tiras e cipós das cores álacres, das cores-falantes-araras, dentro. Papagaios secos de cachoeiras como elas eram boa companhia nas horas desertas da demora. Asas. Nas horas enormes sem portas do deserto onde vivia a montanha completamente escondida do silêncio terrestre. Do velho silêncio que fora roubado à Terra pelos habitadores da montanha do ensurdecer, tecelões da escada brilhante de cordas de luar do advir.
Remota montanha de granito chuvoso a sua filha lançara longe verde silenciosa imensa montanha. O velho trovão dos remotos. Silêncio roubado da Terra muito mesmo antes de qualquer água haver. Montanha com coração de cachoeira, num ninho de nuvens muito lentas, num...
Era por muitas tantas árvores a montanha Num. Nela a cachoeira de espelhos que Labar não pode lembrar nem sequer num longe tom nenhum para conseguir moldar a tigela, liquens de estrelas ornando nas bordas. Em volta, na fímbria, calado, retido, o miado do abismo. Longe o vapor da floresta da montanha filha maior da primeira tão alta tontura, esquecer, esquecer...
Quem quisera roubar o segredo silencioso azul das estrelas? Z. Metade tempo e metade água. Um fio ligando duas tampas paradas. Um fio só fio imóvel esticado. Afiado tão dente. Linha viva raivosa puxada ligada ao maior peso-placa de cima e à longa pastilha de metal do vazio forçoso lá bem mais mal em baixo. A risada manca do vazio. A outra forma de mosca do nada. Cordão de metal que nem se vê por ninguém. O conjunto todo quer girar e não pode, sem ode, fixo, incrustadíssimo no minerar asa de libélula da noite fina funda superfície. Tendão íssimo. O mais infinito, sem largura, espinha de espelho evaporado por toda extensão mais além da noite toda. O não condão. Descontrolado parado. Falta-lhe a outra parte, serena. Linha sem exatidão. Só é apenas o fulgor da inteligência cruel. Corta por dentro do amplo diamante da noite em falsa velocidade. Mais fino que a antena do ir.
Este ser procurava também as estrelas. Podendo, primeiro fio de ábaco do universo seria. Uma corda só, as contas, a infiniteza das estrelas todas, enfileiradas, prisioneiras do cordão só, sem som. Nem para adorno de pescoço celeste, colar, nem para música que tocasse tudo pra sempre. Simples, era isso o já, antes do nunca. O zero raivosamente esticado num fio que pretende cortar o espaço em duas metades. Não pode. Bá e Clá não vão deixar nem...
No meio do deserto ela ouviu a montanha. As cores-araras trouxeram os algodões de nuvens para os ouvidos sem fim, audição da permanência-horizonte-zumbido. Ela subiu o caminho lento da encosta, evitando entrar em contato com os seres habitantes de lá, os seres reboadores, os seres-tambores-construtores-da-escada-tecida pra Lua. Rombudos, aranhas nítidas, vultos rápidos de gatos. Banhou-se nos riachos e nem desejou ouvir o estonteante silêncio que, tirados os algodões de nuvens protetoras, a enlouqueceriam no aroma do glissar sem fim. Saltou as pedras ásperas molhadas e principiou a principiar. Alisada pela proteção das orelhas caladas. Na vasta clareza. Assim podia ouvir os seres da mata da montanha Num e as quantidades todas juntas das cachoeiras semeadas através da montanha e o sorriso constante das folhagens cantantes de todos os verdes ao mesmo espaço dos pássaros das muitas vezes, soltos. Foram os pássaros que semearam as cachoeiras. Mas somente lá.
Agora Clá, que ordenhou a vaca de pedra da eternidade (jamais saberemos exatamente onde na montanha a encontrou e como o conseguiu), traz o leite-cristalino contendo-se na tigela, sereno e branco, nata, mel e gordura boiando entre as nuvens e passagens de árvores, galhos e faíscas. Pode ver, contemplar. O leite reflete o dia azul. Uma só gota bebida para atravessar o infinito. Caminha com cuidado. Já desce a montanha. Não pode derramá-lo. Uma só gota sobre a terra e as estrelas estremecerão pela última vez. O caminhar ainda é vagaroso e as pedras cintilam agudas.
Na comprida cabana da floresta, Lim e seu filho Bá, porém, baforejam os longos cachimbos da névoa. Fumarão até sua chegada na praia brilhante do rio. E só pararão de assim fazer quando da sua chegada-alvorada. O leite de diamante da eternidade não cairá da tigela das estrelas-estrelas pois esse é o modo-som, de permanecer em intacto equilíbrio. Clã já o sabe e segue quase voando, criando asas puras de si mesma, leves asas de música. Sem a geometria da preocupação cristalizando, impressa, os olhos, ela caminha pelo melódico caminho que vem da montanha Num, a outra montanha de lá. Ela está chegando e as estrelas estão fortes, estão salvas. Ela vem chegando pelo caminho desenhado pela flauta que Luezim tocou para Labar tornear a tigela desde muito longe, desde muita nuvem, a tigela de pedra das constelações, nela onde a gente mora, antigos desde, aqui dentro, a tigela desde então chamada em muito jamais torneado, arranhado segredo de Wuêé...

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