sábado, 8 de setembro de 2007

Francisco Miguel de Moura


Francisco Miguel de Moura – Poeta, ensaísta, cronista, romancista, crítico literário e bancário. Nasceu em Francisco Santos (PI), em 16 de junho de 1933. Bacharel em Literatura Plena e Língua Portuguesa e pós-graduado em Crítica de Arte pela Universidade Federal da Bahia. Ocupa a cadeira número 8 da APL. Bibliografia: Areias, 1966; Pedras em Sobressalto, 1974; Universo das Águas, 1979; Bar Carnaúba, 1983; Quinteto em Mi(m), 1986; Sonetos da Paixão, 1988; Poemas Ou/tonais, 1991 (poesias); Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho, 1972; A Poesia Social de Castro Alves, 1979 (ensaios); Os Estigmas, 1984; Laços do Poder, 1991; Ternura, 1993 (romances); Eu e Meu Amigo Charles Brown, 1986, ...E a vida se fez crônica, 1996 (crônicas); Piauí: Terra, História e Literatura (antologia), 1980; Literatura do Piauí, 2002; Sonetos Escolhidos, 2003; e Rebelião das Almas, 2003.E-mail: franciscomiguelmoura@superig.com.br

A Cidade Fantasma

O único vivente era ele. O trabalho há nos havia sido abolido sem eleição sem nada, como por vontade silenciosa da população. Sobrou um pobre pedinte que continuava sua vida de cachorro: Johanes.
– Nasci para semente, não vou morrer.
Porque nascera e vinha enganando a vida até ali. Magro, quase esquelético, olhos fundos, cabeça grande, orelhas de abano, cabelos compridos e desgrenhados, barba descendo os queixos em busca do umbigo. Por que esse nome? Seus pais eram estrangeiros, ou o tabelião quis dar uma de sabido. Todos os dias – começava madrugada alta – subia e descia a rua deserta. Antes Johanes nunca passava necessidade. Onde pedia era atendido – comida boa e não restos – mais calçados, sabão, pente, tesoura e uma faquinha. Ganhara a simpatia de alguém que, todos os meses, lhe vinha aparar o cabelo e a barba. A casa que Johanes ocupava não possuía espelho, água, mobília, sequer um banco onde sentar-se. Aquilo não era casa – uma loca.
Mas vivia, como se diz hoje, “numa boa”.
Gente rica é complicada. Ele não precisava de muito para ser feliz. Aliás, nunca tinha pensado em ser feliz. Não tinha pensado em nada. Vivia. E era tudo.
Sempre há um dia azarento na vida de cada um. Começou recebendo visitas de algumas pessoas que lhe perguntavam como sobreviver. Era consciente:
– Mas de onde você veio? Aqui não há mendigos...
– Digamos que eu vim da Lua, mas vim para ficar.
Ah, era tão bom não possuir colegas! São tipos que só servem para bisbilhotar a vida alheia, complicados, alguns acham que são merecedores de tudo, que Deus foi ingrato, que o mundo não presta pra nada. E ainda querem que a gente fique mudando. Pouco a pouco outros foram chegando: era o padeiro que deixou de vender pão, desanimado com a alta do trigo; era o bodegueiro da esquina, que fechou sua loja de tanto vender fiado e nada receber; eram as fábricas de doce, de manteiga, de querosene, de sabão, que se fechavam. Dali foi só um passo para a onda de lavradores do campo, das vilas e das fazendas que chegava a Itatuaia; e os criadores de gado também abandonaram seus rebanhos. E os fazeres de artesanatos abandonaram suas oficinas; ferreiros, pedreiros, carpinteiros, domésticas, funcionários púbicos, Mendigos. Difícil sobreviver. Que o dissesse Johanes, agora desaparecido, embrenhando-se cada vez mais na mata à busca de lagartixas, lagartos, cobras, calangos, aves miúdas e até os mais nojentos insetos como aranhas, carrapatos...
Os outros reclamavam a falta de capim, há tempo não chovia. Falta de governo. Foram chegando os de fora e invadindo as casas por si abandonadas há tanto tempo, porque seus moradores tinha ido embora – diziam uns que para o céu, outros que para o inferno – e agora eram pasto de aranhas, formigas, besouros e todos os tipos de insetos que se pudesse imaginar, inclusive o mosquito transmissor da dengue. Itatuaia estava um horror. Johanes, que sabia de tudo, não foi consultado. Irritou-se com a situação. Falar não falava. Para lamentar de um tempo bom que passou? Refugiara-se na gruta que não tinha nome, lá não ia turista, nem alma nem lobisomem. Era a única que não fora demolida e carregada pelas empresas estrangeiras para fazer ferro e outros metais.
A cidade crescera, crescera de gente esquálida, de favelas, sem água nem esgoto, sem luz nem cemitério, sem igreja nem cartório. Mas crescera. Talvez por isto. Todos agora eram pedintes, um horror. Passaram a escavar onde outrora os habitantes de Itatuaia jogavam o lixo e depois o enterravam. Havia muitas brigas por ninharia de lixo podre molambos de roupa, bichos já petrificados, tudo. Havia quem já experimentasse comer chinelos, copos, pratos de plástico, papéis, carros (eles também já haviam entrado na era do plástico).
– Queremos a socialização da riqueza!
Engraçado. Socialização de quê?
Fizeram greves.
Johanes, nos raros momentos que botava a cabeça fora de sua gruta para caçar uma lagartixa ou outro bicho menor para o almoço – era contra e soltava seu grito, que eles escutavam mas não sabiam de onde. Não deu em nada. Nem a greve nem os avisos de Johanes “que fossem trabalhar, vagabundos!” senão quem os iria alimentar, tão logo a natureza falhasse? Cada vez mais fome, mais necessidade. Muitos já tinham morrido, o cemitério crescera. Era um verdadeiro Campo Santo. Johanes já cutucava a cabeça: “Mas santo, por quê?”
Sofreram tanto que foram obrigados a acordar todos impotentemente ou dormir o sono eterno e a cidade passaria a existir como fantasma e dar o que falar aos turistas tão deslumbrados outrora com a riqueza antropológica de suas serras, montes, grutas, riachos e rios.
Um dos ex-ricos teve um sonho. Johanes havia traído a todos e começara a trabalhar, saindo todas as noites, às escondidas, para buscar comida nos lugares mais difíceis, caçar bichos do mato. Caçar não era trabalhar? Era. Porém um ranzinza de marca maior, nunca levara ninguém aonde estava, exceto sua namorada, noiva e depois mulher. O negócio era matá-lo e não levá-lo para o cemitério como bem merecia. Iam comê-lo morto ou vivo. E alguns se salvariam da fome, salvando a cidade fantasma. O ato foi consumado e pegou. Logo mais a morte era lei. Quem tivesse fome, comia o vizinho. Era só ser mais forte (quem era forte, então) ou mais desumano. Como ali não havia gente para tanta fome, uns e outros se foram espalhando pelo mundo, até que Deus criador de tudo disse: “Raça de víboras! Estão todos condenados ao cemitério”.
Eles pensaram, pensaram e alguns se salvaram, arrependendo-se do mal. E mandaram destruir o cemitério, que estava servido apenas para enterrar ossos. No lugar, com dificuldade, com muito tempo, devagar como a barca de Noé, foi erguida uma grande fábrica de Pás, outra de Amor, e mais uma de Fraternidade. A liberdade ficaria por ai mesmo. Todos trabalhavam satisfeitos, sem ter que assinar ponto nem prestar contas a ninguém a não ser a si próprio e ao outro. Uma nova cidade, um novo mundo, a redenção. Mas não foram os pioneiros que alcançaram a graça dos benefícios do bem e da alegria, da harmonia e da felicidade, mas os filhos de seus filhos, os netos – que viveram para a eternidade, graças ao sopro daquela visão e daquele sonho do Johanes, que, saindo de sua toca, enfrentou, certo dia, a multidão faminta e despejou sobre eles suas palavras:
– Para que servem nossas mãos e nossos pés, nossos olhos e nossa cabeça!
E todos caminharam para o céu, voando, sem saudades da cidade fantasma. Levando a lembrança dos antepassados, que encontraram no plano a que estavam subindo.


O Cavaleiro e o Esmoler

Há muito tempo li esta fábula num livro cujo título não anotei nem me preocupei de gravar o nome do autor. Mas posso garantir que é muito boa. Não inventei nada, mas se o tivesse feito ficaria por conta da licença poética, que nesta caso é licença prosaica.
Ia um cidadão no rumo de sua casa, na cidade, montado num belo cavalo branco, gordo, bem arreado. O cavaleiro vestia um sobretudo de flanela porque era época de frio, usava botas de cano alto até os joelhos e na cabeça um chapéu de massa como proteção da careca.
Pelo visto já era um homem de idade e possuidor de alguma fortuna.
O viajante já estava bem próximo de casa, na periferia da cidade. A primeira pessoa que encontrou – era manhãzinha muito cedo – foi um pedinte que exibia a perna direita e o braço esquerdo com feridas grandes a escorrerem pus. Sem camisa, pés no chão, vestia apenas uma bermuda esmolambada.
O mendigo lhe falou em tom lamuriento, como é costume:
– Meu senhor, me dê uma esmola pelo amor de Jesus? Hoje ainda não comi, e estou doente.
O cavaleiro condoeu-se com a expressão do rosto daquele sofredor, lembrou que precisava fazer caridade e imediatamente foi tirando uns trocados e estirou-os com a mão para o pedinte, que a agarrou com força como se não quisesse soltá-la mais Não atinava o porquê do desusado gesto. Estaria desesperado? Mesmo assim preferiu não desconfiar de nada. São assim as pessoas de bom coração:
O velho feridento guardou o dinheiro numa sacola velha de papelão e começou a alisar a montaria do cavaleiro, enquanto se queixava de frio.
– O animal é do senhor?
– Sim, é meu.
– Bonito e gordo, não é?
– Sim.
– Como o senhor.
O homem não teve o que dizer. Ficou apenas olhando o espetáculo.
– Estou com tanto frio! Não se incomoda se eu fique alisando o cavalo?
– Não. Por quê?
– O senhor está tão bem vestido! Podia me dar um agasalho que me falta para poder suportar o frio até o centro da cidade. Vou pedir abrigo numa igreja, numa garagem, ou ficarei debaixo da ponte. Melhor do que ficar no meio do tempo.
Com aquelas palavras, o homem convenceu-se de que não custava nada lhe dar o casaco, já que estava com camisa de malha por baixo, que é menos fria do que as comuns. Logo chegaria em casa, pois seu cavalo era bom e estava pertinho. Então, imediatamente estendeu-lhe o sobretudo, satisfeito por te acudido o miserável.
“É caridade matar o frio dos pobres que precisam” – pensou. E ofereceu a Deus o sacrifício, pois ia chegar em casa bastante descomposto. Não é todo dia que acontecem encontros comoventes como aquele.
Mas o esmoler, não satisfeito, volta a pedir mais:
– Senhor, estou tão cansado, não suporto mais andar, meus pés sangram. Por que não me dá a garupa do animal, até chegar, pois já está tão perto? Não custa nada.
Subitamente, o cavaleiro pensou: “E se ele for ficar perto de minha casa? Não, não serei egoísta. A gente peca não somente por palavras e obras, mas também por fazer maus juízos”. Estendeu o braço para ajudá-lo a subir. E ofereceu a Deus o seu sacrifício, o ato de caridade. Não custava nada.
Não demorou muito, o esmoler, aproveitando o descuido do cavaleiro, num lugar íngreme da estrada, já avistando a cidade, segura o chicote e dá-lhe um empurrão certeiro. O desequilíbrio levou o homem ao chão. Foi assim que o mendigo passou-se imediatamente para a sela.
– E agora?
O homem, depois de alguns minutos, se levanta, ainda assustado e triste, descomposto pela queda, sujo de lama, doendo as pernas e a cabeça, o chapéu amassado e enlameado, e fala como se estivesse aborrecido:
– Mas você é muito malandro! Agora, como é que vou chegar em casa? Quero ao menos a garupa – disse, humilde, para não perder todas as graças que haveria de ganhar pelas boas ações.
Não satisfeito, o esmoler deu-lhe uma chibatada e voltou a falar, agora como se estivesse muito irado:
– Vai te “catar”, esmoler de uma figa! Quem tem pena do miserável fica no lugar dele.
A literatura atual não gosta dos moralistas, por isto abandonaram as fábulas. Mas elas ensinam, tanto as que fazem os bichos falarem quanto as que dão vida aos objetos. Esta não é nem uma coisa nem outra. É uma fábula moderna. E, salvo melhor juízo, diz que até a bondade tem limites. Quem é bom demais para os outros termina sendo ruim para si mesmo.
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As tristezas de Panchico


O velho vem vindo, entropica no batente que separa a sala da cozinha, cai, levanta com dificuldade, gemendo. Puxa o tamborete de todos os dias, encosta à parede e se senta. O quintal é um destroço. Ali da porta divulga a porquinha debaixo da mangueira e escuta seu grunhido. Olha por trás dos óculos grossos, ouve mal, cheira mal, não ensaia sequer um sorriso. Faz tempo que ninguém lhe dirige o rosto. Só pode mesmo ficar nos pensamentos, calado. Bem que ainda não fale com as paredes.
Não é louco.
– Cale a boca, Panchico!
Outrora tão ouvido pelos filhos e parentes! Era um semideus. Os jovens reverenciavam-no. Os de sua idade ficavam bestas com as sentenças desfiadas, com as observações que saíam de sua cabeça, às vezes numa palavra, e o respeitavam. Sua fama correra sítios e estradas, chegara à cidade, os mais afoitos acreditavam ter ido além.
De muito conversar não era. Mas, uma vez começando, tudo se aproveitava. Até o não dito. Colocando fumo no cachimbo, picadinho, vinham histórias, casos e anedotas, pacientemente. Bom tempo permanecia sentado à mesa, depois das refeições. Tirava baforadas como se ficasse a sonhar. Piscando os olhos miúdos e escuros, cofiava o bigode. Tinha gestos elevados, sinceros, cavalheirescos. Diante de um pedido, iniciava tempestivamente com o nublado «talvez», para terminar num agradável «pois não». Entre o não e o sim, a reflexão necessária e urgente corria, os circunlóquios para o acerto se revesavam.
Velho! O apelido de outrora ia-se transformando no próprio nome.
Adorado pela mulher, uma palavra sua era decreto. Ela mandava que os filhos o tratassem com obediência. Ordem desnecessária. Quem iria duvidar do que estava escrito na cara de seu Panchico? Tantas e tantas vezes a barreira da cerimônia entre pai e filhos.
Era rigoroso mas justo, exemplar como marido e amante. Se bem que, algumas vezes, quando de viagem, distante das vistas da mulher, soubesse dar seus passos...
– Cale a boca, Panchico!
Enquanto ia bem, a vida passava sem perceber.
O primeiro filho casa e se torna dono da própria vontade. E o segundo, o terceiro, o quarto, todos – que eram muitos. Por último, a filha querida se acasala com um marmanjo. É tristeza que vem e desmancha a pouca alegria restante no rosto do Velho, nos escaninhos da casa, até no terreiro e no quintal. As noras e o genro, um a um, vieram morar com ele, como nos velhos tempos senhoriais. Esperara netos que talvez minorassem sua solidão. Não chegaram.
A cada dia Panchico se acabrunha mais.
Uma vez, pela manhã, como o poeta antigo, ele pergunta aos céus: «Cadê minha alma?»
O mundo não perdoa os que envelhecem depressa. Foi como se dormisse bom e amanhecesse desmemoriado, caxingando, sem vontade de fazer, de dizer nada. Já não tinha como, nem o que mandar. Qual se fosse consequência, passo a passo se torna motivo de desprezo. Uma inutilidade. Vêm os risos, disfarçados a princípio, depois no próprio rosto. As chacotas.
– É seu pai?
– Um velho caduco, não repare. Quer vender as terras.
– Bem, é porque...
– Cale a boca, Velho!
Do mundo, recebe aquela pena calada - ah, coitado! - de pequenos murmúrios, gestos de desalento, olhares de viés. Dos filhos: motejos, insultos, palavrões - contínuos. O primeiro, mais compreensivo, era médico sem progresso. O outro, vaidoso, praticava a advocacia em causa própria. O terceiro lecionava história. O quarto era contabilista. A filha aprendera a arte da mãe: dona de casa. Os demais trabalhavam no pesado da roça ou cuidando dos bichos. A maior parte da renda vinha da terra, da administração dos seus frutos.
Há algum tempo a mulher advertia, mas sem força de convencimento:
– Lembrem-se do que foi. Caiu por causa da doença. Vocês deviam era levar pra São Paulo, procurar jeito, nunca se lamentar.
Não, não iam fazer isto. Nada de coitado. Estavam perdendo prestígio político e a renda se reduzia. Culpa dele. Só dele, de mais ninguém.
Panchico ainda tentava defesa, inutilmente.
– Cale a boca, Velho!
Seu Panchico foi-se encantoando. Perdeu o gosto de falar. Decaiu de fazer dó. Magrinho. Mais feio do que antes. Careca. A barba crescida. O bigode respeitável virou uns fiapinhos onde a comida se enganchava e permanecia sem ser incomodada por dias seguidos. Os olhos fundos. Aquela cara de apalermado. Que estaria fazendo no mundo?
«Que estaria fazendo no mundo»? ainda se perguntou.
Não ouvia nem mais a própria voz, fanhosa, arranhenta, enferrujada, dentro do silêncio. O que seus ouvidos escutaram, com asco, foi o refrão que parecia nascer do inferno:
– Cale a boca, Velho!
Dúvidas e mais dúvidas lhe assaltavam. Sua consciência teria sido tão clara como apregoaram os amigos? E a memória? Por acaso, ainda estaria vivo? Ou apenas seu espírito sobrevoava no território em que vivera? Lenda! Tudo não passaria de uma ilusão mantida pela fortuna, que agora os filhos tratam de derrubar, de reduzir a pó?
Pediu a si mesmo que se consolasse com os poderes divinos. Mas não encontrou coragem nem por onde pudesse começar. Essas coisas não aprendera. Era tarde.
– Se voltasse atrás...
– Cale a boca, Velho!
Seu Panchico treme, treme o corpo todo, em tempo de cair do assento.
Fuma às escondidas o cachimbo que há meses lhe tomaram, achado por milagre, na hora em que foram fazer as compras na cidade. Era como se mirasse seu antigo quintal, num dia ameno, de chuva ou de sol agradável. Momento de alívio. Sabia que os bacorinhos fuçavam o peito da mãe, corriam em torno do chiqueiro velho, enlameavam-se nas poças. Mas já não podia vê-los nem ouvir seus grunhidos. O pensamento murmura palavras inauditas, diante do limbo do seu horizonte e do vazio humano que lhe rodeia. Era um raio de luz que ainda piscava na memória. O fiapo de sonho e ternura que restara em seu coração.


Aparição da serra


Como o espírito sensível de uma recepcionista, ela prestava bem atenção às conversas dos turistas. Num instante interrompe alguém com olhares, noutro com uma perguntinha à toa, mais além interferindo com opiniões... Nem ela sabe porque está naquele transporte a caminho da Serra. Ninguém sabe porque o ônibus roda lento, o motorista sua a camisa, a tarde vai caindo e pouco a pouco perdendo calor.
Ninguém sabe. Mas ele ouvia a vozinha suave adiante de si, do lado direito, sem perceber nitidamente todas as palavras. É uma moça simpática, em traje bem simples, vestido liso, cabelo preso por um desses atracadores de borracha que se mostram por um flor ou bichinho qualquer, de cor discreta. Enfeite bem catita, só para compor o cabelo, o conjunto. Não lhe viu o pé. Mas dá para perceber a baixa estatura, a pele fina, a cor morena. Veio a medir essas coisas instantes depois, na hora de descer. Bom nariz, boca bem feita, uma carinha de menina de dezoito. E que sorriso!
De onde se sentara seria difícil olhar para ela sem denunciar-se. Estava só. A fala mansa, de mulher que se quer vista e admirada, o despertara da sonolência da tarde. E mexeu com o outro, Lulu, companheiro de banco.
É então que o visitante se levanta do assento, dá uma visada em torno e à frente, pega todos os ângulos, satisfaz-se com o ajeitado da roupa e do assento, fala com o companheiro de lado.
Medrosa, a titubeante voz anuncia-se numa pergunta sutil.
Aos dois? Ao outro? Ou ao visitante em particular?
Ele toma a dianteira e tenta responder, ainda sem receio de nada, movido simplesmente por aquela euforia dos viajantes.
Filosofia. A vida. A estrada. Tudo que se pode conversar dentro de um ônibus onde viajam senhoras, cavalheiros, crianças, família, com alguma reserva, pois quase todos são desconhecidos.
O Visitante: – “É a primeira vez que vê uma mulher interessar-se por aquelas questões”, só pensa.
O Outro: – “Deus? Quem é Deus? Quais são os seus poderes? Será que tudo isto que nós vivemos é verdade? E o sonho? A vida não será um sonho?”
Ela: – Aqui tudo é verdade. Há 32 mil anos...
E o ônibus rodava que rodava, agora já saindo do asfalto, uma poeirinha levanta, fina como os cabelos da musa, respiração quase no ouvido dos dois, quando se virou lentamente. Punham os olhos nos acidentes que ocorriam no horizonte, agora menos liso, mais perto, mais real: a mata de catinga seca, aqui e ali um galho verde, um inseto que saltava sobre as cabeças, o zumbido de uma abelha de mel... E a Serra que se erguia orgulhosa, imponente, azul-cinza.
O visitante mistura-se com os turistas, tendo sempre a seu lado o amigo Lulu e sua esposa. Quis deles denvencilhar-se mais de uma vez e não pôde. O outro gostava muito de conversar as coisas que conversa. Por que deixá-lo perdido, sem carona?
O Outro: – E aquela, separou-se para onde?
O Visitante: – Inveja-a? Deixe que siga seu destino.
Ela passara passarinhando, de leve. Um dia todo na cidade e sequer lhe aparecera, sequer lhe fora apresentada, sequer estivera na reunião com o prefeito, professores e colegiais, isto é, na solenidade. Nada. Ninguém. Só aquelas coisas comuns, um autógrafo, apresentações... E discursos, discursos, discursos.
No almoço, sozinho, macambúzio. Estivera a fim de encontrar uma boa conversa. Só conversa. Ou então, se pintasse um doce, um céu... Mas, em princípio, só conversa onde tudo rolasse, anedotas, declarações disso e daquilo, metáfora ou não, que dessas coisas também o homem sobrevive. Não só as mulheres românticas, quando temperam os sofrimentos da alma.
Com o escuro da noitinha é que vem ela, já no cheiro e no ponto do mistério da Serra. Quando poderia acontecer? Já estava acontecendo? Não, não pôde mais observar o Museu. O coração fica opresso. Os espaços foram tomados por pensamentos. Não pôde mais ver as grutas, as formações, as inscrições, os vestígios das fogueiras dos homens primitivos, o calendário. Que espírito lhe baixara? Toda sua vida e toda a beleza do momento concentravam-se naquela visão ainda fluída, ainda transparente, simbólica. Poesia, filosofia, comportamento se digladiavam na língua dos três. Ele teve medo de parar, de continuar, de faltar-lhe a palavra, de fugir-lhe o ar. O que dizer de belo, encantador, para sustentar a peteca?
Ela: – Que queria dele? A sabedoria? Mas era tão simples.
O Visitante: – Talvez por isto. Talvez por mais. Ou era apenas para espanar um pouco a solidão? Perdera um grande amor? Estaria à busca de alguém? – ia abrir a boca e o momento bom fugira.
Interessavam-lhe tais questionamentos. Mas não agora, daquele jeito, sem contrapartida. Todos olhando, vendo, falando... Ainda abriu a boca outra vez e não teve coragem. Lembrou-se, recompôs-se, ajeitou o colarinho da camisa (um de seus atos de ansiedade), esfregou uma das mãos na outra (já este tanto queria dizer satisfação quanto preocupação, nervosismo).
Agora tentaria o sonho. E se encaminhou para o seio da Serra.
Uma semana?
De carro, indo e vindo à cidade, a qualquer hora, parando onde quisesse? Indo à casa dela, seu apartamento, onde quer que vivesse, sendo apresentado como ‘o doutor”? Desce uma noite sem lua. Perfumada. Silvestre. A noite da Serra. Desaparecer, descansar... Desaparecem por muito tempo.
Muito tempo depois foram encontrados.
Casal perdido?
Não, não houve nada.
Os Dois: – “Somos companheiros do mundo. Conversamos. Como dois anjos. Nossas angústias foram comunicadas, enxugadas com os prantos, cada um de per si.”
Os Outros: – Ela é sua filha?
O Visitante: – Ora, ora, encontrei-a na Serra.
Ela: – Ele é que é meu anjo, uma aparição da Serra, um recado de Deus.

Quando chegou à Capital, cansado de tão longa viagem sem frutos, perguntaram-lhe o que viu da Serra da Capivara.
– Não vi nada e vi tudo.
– Como assim?
– Ora, uma visão do céu, vocês não acreditam. Veio, voltou, desapareceu. Quando descemos à cidade, ela ficou, disse que ia falar com uma amiga, um instantinho. Esperei. Não só um horinha: dois dias. Ninguém soube me dizer nada dela. Também não lhe sabiam sequer o nome. Dei-lhes as feições, a altura, a forma do cabelo, o jeito da falar, e por quais assuntos e fatos se interessava, contei o que nós falamos durante a semana...
Eles já sabem que é inútil procurá-la. Não voltou. Não volta mais. Vive lá curtindo o silêncio. De vez em quando soam uns pregões bíblicos, morais, umas frases sentenciosas, nomes de profetas, filósofos, poetas, uns conhecidos outros não, e pequenas passagens esparsas de sua vida. Nada mais.
– “Por que você vai de novo? Ela não volta...”
– “Mas eu terei que voltar à Serra. Não será para procurá-la, pois que ela me está esperando, atenta para o grande dia.”
– “Será que ela existe?”
Procurou confirmação em Lulu, seu amigo de todas as horas, naquela viagem a São Raimundo Nonato. Mas ele veio com evasivas, palavras de sentido vário. Foi decepcionante. Negação, como testemunho.
Mas lembrou-se de mais. Por exemplo, os beijos da saída, as anotações do telefone e endereço, em letrinha bem desenhada. Não podiam ser mentira. Não estava dormindo.
– “Visão imaterial não escreve. Será que ela existe?” perguntam insistentes.
– “Ora! Existe, sim! Deu-me um número... E também o endereço.”
– “ E confere? Você telefonou?”
– “ Telefonei várias vezes e ninguém atende. Ouço, ao contrário, uma voz estranha, como se saísse de dentro da Serra. Escrevi. E o correio não me devolveu, mas também não tive resposta. E é tudo que sei.”
– “Sonhador verdadeiro é aquele que acredita no que sonha.”
O rapaz estira a mão trêmula no rumo do sul e assim permanece durante alguns minutos. Nela, um papelzinho amassado. As supostas anotações da moça.
– “Na verdade, eu creio.”

O remédio de menino esperto

Xamelego come as unhas, arranca os botões da camisa, corre pela casa atrás das galinhas, entra e sai... Chamego de menino impossível. Naquela manhã quase não escapa de uma pisa.
Zeca precisa ir dar aula. D. Mariinha quer começar seus artesanatos: surrões, vassouras, esteiras, abanadores, cofos, urupembas, com que ajuda na renda da família.
Os dois estão impacientes. Além de outras necessidades, faltara o café da manhã. Café sem açúcar é uma tortura. Quem suporta? É melhor ficar em jejum.
– E cadê a rapadura?
– Tava ali.
– Ali aonde?
Aponta com o dedo e com o beiço:
– Na telha.
– Quem já viu esconder rapadura na telha? O rato vem e come.
– Rato é lá besta. Ele pensa que tem veneno. Há muito tempo que eles não vêm por aqui.
– E por que não guarda em outro lugar? Isto é uma loucura...
– Loucura é colocar em qualquer canto. Escondendo no mais difícil como eu escondo, ele ainda acha. Ora, ora!...
– Ele, quem?
– Ora quem, Xamelego.
– Chamou ele às favas?
– Chamei na hora: – amelego, meu filho, vem cá. Você está comendo o doce do café? Como se pode tomar café amargo? Você não tem juízo, menino. Tem?
– Não.
– Não, o quê?
– Não sei de rapadura, não fui eu.
– E quem foi?
– E eu sei!?
– Fale a verdade.
– Tou falando...
– Não está.
– Então, foi o rato.
– Ah, e este cheiro na tua boca? Te peguei, moleque, com a boca na botija. Tu vais apanhar. Vou dizer a teu pai.

Aos dois ocorreu uma lembrança boa (e má). Do tempo do vício do menino, quando ficou amarelo, amarelo, e foi preciso tomar remédio de botica. Zequinha pensa e calcula: não há mais dinheiro, nem o dono da venda vai lhe fiar mais nada, tem certeza. Quanto mais o da botica.
Ele e a mulher entraram para o quarto com as mãos na cabeça, sem saber o que fazer para que o menino deixe este outro vício. Estão agastados porque, além de não terem mais isca, o café foi amargo, sem doce nenhum, tudo por conta do Xamelego.
Zeca disse:
– Vou ali no quintal e volto já.
Saiu com uma faca amolada na mão, seu jeito era de muita raiva. Xamelego nunca o tinha visto com aquela cara. Maria ficou se benzendo. Rezando. Pedia a Deus que os dois não se encontrassem.
Dali a pouco, Zeca entra. Com o menino nem falou nada. Bastou olhar. Era como se dissesse: “Saia!” E o moleque saiu.
Zequinha entregou a mulher uma folha de babosa, ainda escorrendo o líquido.
–Tome Mariinha, agora obrigue seu filho a não se lavar, não se banhar nunca. Ou pelo menos por uns dias. Quando ele estiver dormindo você lambuza isto nas mãos dele, nas duas. Agora, a rapadura que a gente tem que comprar deve ser líquida. Mel. Quando ele for comer, vai se lambuzar também. E vai se arrepender. Enquanto isto, nós vamos jejuar nosso café por uma semana.
Depois dessa decisão, Zequinha sai para trabalhar. Leva consigo, escondido, um meio sorriso. Graças a Deus.
Daquele dia em diante Xamelego deixou de roer as unhas. E dona Maria também nunca mais teve que se queixar à vizinha da “esperteza” do filho.
Nunca mais.

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