quarta-feira, 7 de maio de 2008

Urbi et Orbi (Livro de Sonhos)

Nilto Maciel (para ler outros contos, clique no nome)

Apenas um Episódio
Um Camarada Brasileiro
O Verdadeiro e Único Ingenieros
Caro Rosto
Entre Dançarinos
O Gato Preto de Darwin
A Invisibilidade das Pulgas
A Inexistência do Escudo de Ouro
O Canto de Nero
Irmãos
Maldita Galinha Sagrada
O Embusteiro
O Insidioso Inseto Vermelho
Sapos Nojentos
O Guardião da China
A Voz do Urso Faminto
A Arma Divina
Louvado Seja Alá
As Mulheres e o Fogo
Delírios de Um Jovem Judeu
Voto de Castidade
A Reduzida Cópia de Samael
Um Sonho Cartesiano
A Idéia de Matar Pilatos
A Divisão do Mundo
Desastre Sobre o Labirinto de Creta
As Infinitas Pernas de Wellington
Um Coveiro Monstruoso
A Fome de Malthus
Bicho Amarrado Para Morrer
Bicho Asqueroso
Conselho de Luís XVIII
Espumas e Estrelas
Belo Céu, Vero Céu
Por Culpa de Anouilh
Lampião à Italiana
Pintando o Sete na Bélgica
Rato Sonâmbulo
Vers Sans Rimes
Concórdia na Órbita da Terra
Falsificadores e Canibais
Uma Página de Robbe-Grillet
Urbi et Orbi


APENAS UM EPISÓDIO

Em suas memórias (volume III, página 41), Alfred Hitchock conta um episódio aterrorizante.
Uma noite fazia anotações para um filme. Não diz se levou adiante o projeto. Thomas Mc Carthy informa tratar-se de “Pacto Sinistro”. E faz cotejo entre as cenas do filme e as anotações citadas por Aldred.
Súbito a luz do aposento se apagou. E a caneta caiu das mãos do mestre. Ou sumiu de entre seus dedos. Instintivamente, tateou a mesa, à procura da caneta. E nada encontrou. Talvez tivesse caído para o chão. Melhor aguardar a luz. Cruzou as mãos e, pacientemente, esperou. Não costumava faltar luz na casa. E canetas nunca desapareciam misteriosamente.
Passados alguns minutos, a casa se iluminou de novo. Hitchcock descruzou as mãos e varreu a mesa com os olhos. Só papéis e livros. Apalpou-os, sacudiu-os. Definitivamente a caneta desaparecera. Não se achava sobre a mesa, nem debaixo dela. Vasculhou todo o aposento, recanto a recanto. E nada de caneta.
Apavorado, sedento, correu à geladeira. Beberia um litro de água. Abriu abruptamente a porta, e, para seu espanto, tudo virara gelo. Até a caneta.
Alfred Hitchcock quase desmaiou. Eriçaram-se os cabelos. Como poderia a falta de luz ter provocado aquilo?
James Grant nega o episódio. Tudo se deu apenas na imaginação do cineasta. Seria apenas mais um episódio de filme.


UM CAMARADA BRASILEIRO

Gilberto da Silva não chegou a realizar o grande sonho de sua vida: um filme. Foi mais longe, porém, que todos os seus conterrâneos.
Filho de um fotógrafo ambulante, alcunhado Chico Lambe-Lambe, desde menino Gilberto sonhou exceder seu diligente pai. Um dia seria cineasta, amigo de John Ford, Fritz Lang, Orson Welles. Via todos os filmes, lia tudo sobre cinema, apaixonava-se pelas mais belas estrelas de Hollywood. Consumia-se na solidão, entregue àquele prazer feito de ilusão e arte.
Buscou o lado requintado da tela e descobriu Serguei Eisenstein, num cineclube. E conheceu interessantes cineclubistas. Tempos depois filiou-se ao Partido Comunista.
Em casa houve pânico. A mãe quis amaldiçoá-lo. O pai, ódio a espumar na boca, chutou a velha máquina ambulante. Não mais a usava, porém. Instalara-se há pouco numa sala, à frente da qual mandara pintar: STÚDIO FOTOGRÁFICO SÃO FRANCISCO.
O pior ainda viria: sem qualquer aviso, Gilberto desapareceu. No terceiro dia seus pais pereciam loucos. Com certeza o “menino” morrera. A polícia o matara. Por que fora se meter com os comunistas?!
Na verdade, o rapaz embarcara clandestinamente para a Europa. E chegou a Moscou num dia de muita neve. Tomou vodca, visitou museus e conheceu dezenas de camaradas. Entre eles Vsevolod Pudovkin. Só de longe, é claro. O cineasta não dispunha de um só minuto para conversas. Filmava “A colheita”.
Gilberto queria aprender com Pudovkin a filmar o passado brasileiro, especialmente os tenentes de 30. Ambicionava realizar um épico, como o “Encouraçado Potenkin”.
Os camaradas soviéticos conseguiram marcar uma audiência do aprendiz brasileiro com o mestre russo. Mas Vsevolod faleceu exatamente no dia marcado para o encontro. Desapontado, Gilberto viajou a Riga, para, pelo menos, assistir aos funerais. E ainda tirou fotografias do evento.
Apesar disso, o filho de Chico Lambe-Lambe viu dezenas e dezenas de filmes, estudou cinema, conheceu outros cineastas. E voltou ao Brasil pronto a realizar seu grande sonho. Ao desembarcar, soube do suicídio de Getúlio. Nervoso, saiu às ruas para registrar a História. E carregou uma das máquinas de seu pai.
Daquele dia em diante se decidiu a fotografar mortos e enterros.
Gilberto da Silva deixou alguns álbuns, onde aparecem mendigos mortos nas calçadas, marginais fuzilados em favelas, personalidades descendo às covas...
De si mesmo quase nada ficou. Há, no entanto, num museu de Riga, uma fotografia desbotada em que aparece a cinco ou seis metros de Vsevolod Pudovkin. No verso dela Gilberto da Silva á chamado de “um camarada brasileiro”.









O VERDADEIRO E ÚNICO INGENIEROS

Massas incalculáveis de estudantes saíam constantemente às ruas. Multidões protestavam e grupos organizados tramavam a revolução. Fortaleza era uma cidade agitadíssima naquele 1968. Espécie de Paris tropical.
Apesar disso, Santiago Sobral vivia debruçado sobre os filósofos. Especialmente os “ultrapassados”. Alheio ao maoísmo, ao trotskismo, à luta armada.
Devotava o esquisito estudante incomum devoção ao argentino José Ingenieros. Lia e relia suas obras. Sobretudo “O homem medíocre”.
Chamavam-no “o filósofo”. E muitos acreditavam ser ele um filósofo. A Filosofia dividiu-se em duas: a dos que ouviam “o filósofo” e a dos que passavam por ele e riam. O primeiro grupo nunca chegou a meia dúzia. Os mesmos rapazes míopes, magros, sujos. O segundo logo dividiu-se em vários grupelhos. Um chamava-o de maluco. Outro, de alienado. O mais violento o acusava de “agente da ditadura”.
Santiago tratava seus amigos de discípulos. E lhes ensinava tudo, desde os primórdios da filosofia. Conhecia todos os gregos: Pitágoras, Parmênides, Empédocles, Xenófanes, Anaximandro. E franceses, ingleses, alemães. Diziam ser mais marxista do que Marx. Porém o melhor de suas palestras começava e terminava no gênio argentino. E passava horas e horas a citar e recitar trechos da obra de Ingenieros.
O Diretor chegou a temer o fechamento da escola. Os alunos trocavam as salas de aula pelo pátio. Um novo Sócrates corrompia a juventude. Imaginou chamar a polícia. Ou dar-lhe cicuta por conta própria.
Mais de uma vez a polícia invadiu a Faculdade. E prendeu dezenas de estudantes. Nunca porém Sobral.
Passados os anos, o pobre Santiago deu para mentir. Dizia-se autor de um livro de filosofia. E andava para cima e para baixo, por salas e corredores da Faculdade, a sobraçar, um volumoso manuscrito, intitulado “O homem medíocre”. Novos colegas o chamavam de maluco, alienado, agente da ditadura. Quase nenhum o ouvia mais. Aqueles poucos rapazes magros, míopes e sujos o abandonaram. Um virou trotskista, outro se matou.
Fora, ocorriam assaltos a bancos, seqüestros de autoridades estrangeiras, prisões, torturas e assassinatos de esquerdistas.
Ainda durante o regime militar, o filósofo de Sobral mudou de identidade, e passou a denominar-se José Ingenieros. Há muitos anos. Um pobre-diabo, um homem medíocre. José Ingenieros só existia um – ele.
Internaram-no como louco. Disseram os psiquiatras ter ele endoidecido de tanto ler. Sobretudo Ingenieros.
Morreu pouco depois, mais magro, mais solitário, mais cheio de filosofias.
Constataram os legistas ter ele morrido de filosofia. Ou da filosofia de José Ingenieros.






CARO ROSTO

Sheila Hicks tinha trinta anos quando conheceu Tonsila do Amaral, que tinha vinte e um. Tonsila estudava artes plásticas e lia Mao Tse-Tung. Sheila seria sua mestra. Fizeram-se amigas. Juntas, foram a cinemas e teatros, visitaram museus, em New York, viajaram pelo país. Sheila desenhou o rosto de Tonsila e quis conhecer o Brasil. Fizeram projetos de viagem. Queria conhecer o Rio de Janeiro e São Paulo, mas também, e sobretudo, a Amazônia e o Nordeste. Os índios... Seria possível vê-los de perto? Contudo não obteve “permissão” para viajar. O governo brasileiro era “comunista”.
Tonsila voltou ao Brasil. E teve início uma prolongada correspondência epistolar. Sheila falava de seus desenhos; Tonsila, de lutas políticas.
Três anos depois, Sheila soube da prisão de Tonsila. Teve um grande susto e chorou muito. Procurou amigos. Precisava ajudar Tonsila. Os militares brasileiros estavam cometendo atrocidades. Sheila e seus amigos foram à Embaixada Brasileira. Nada podia ser feito. A prisão fora legal. Tonsila fazia parte de um grupo subversivo, que lutava pela derrubada do governo.
Anos mais tarde Sheila viu o nome de Tonsila numa relação de desaparecidos. Chorou muito e procurou outros amigos.
O desenho do rosto de Tonsila do Amaral está exposto num museu de New York. E vale milhões de dólares.




ENTRE DANÇARINOS

Uma noite, em sua casa, Mikhail Fokine dançava sozinho. Súbito foi ao chão, de maneira espetacular. Quase quebrou a espinha. Ou algumas costelas. Havia bebido vodca demais. Por amor de Anna Karenina, dançarina do Balé de Moscou.
Nessa noite, ela não dançou, não bebeu vodca e nem sequer pensou em Fokine. Preferiu entregar-se a Serguei Rubliov, “o melhor e mais belo dançarino russo”.
Dia seguinte, no hospital, Mikhail soube de distúrbios em São Petersburgo. Milhares de pessoas mortas. Porém o czar estava redimido e o povo regiamente castigado. E Anna? Como estaria ela? Com certeza sofria. A Rússia pegava fogo. Que virasse outra Roma! E todos os bolcheviques morressem queimados. Não, Anna não era uma bolchevique. Porém não o amava.
Mikhail passou o resto do dia a imaginar-se dançando “Scherazade”. Queria dançar mil e uma noites seguidas. E esquecer de vez a bela bailarina. Esquecer tudo, todos os russos.
Trinta anos depois, Anna Karenina escorregou no salão de sua casa, em Leningrado, e quebrou a bacia. Pobre dançarina! Stalin nem se lembraria dela. No mesmo dia, em New York, o ex-dançarino russo morria na solidão. Chamava-se então Michel Fokine.





O GATO PRETO DE DARWIN

Na casa de Charles Darwin morava Bismarck, um majestoso gato preto. Os dois brincavam o dia todo. O velho naturalista dava piparotes no focinho do animal, puxava-lhe os longos bigodes, lia-lhe trechos da Origem das Espécies. Para aturdi-lo ainda mais, desenhava, em folhas de papel, ratos de meio metro de tamanho. E mostrava-os a Bismarck. O medroso bichano miava, ouriçava-se e fugia. Darwin corria em seu encalço, a morrer de rir.
Apavorado, o felino se escondia o mais longe possível de seu dono.
Arrependido da malvadeza, Charles punha-se a procurar o animal. Metia-se debaixo da cama, subia ao telhado, descia ao porão. Ora, Bismarck tinha pavor daquele porão infestado de ratões.
Desiludido e cansado, Darwin ia dormir. Seus parentes se sentiam aliviados. Não suportavam mais aquelas correrias dentro de casa. Ainda matavam aquele maldito gato. E saíam à caça de Bismarck, armados de paus e facas.
Charles Darwin sonhava. Toda a espécie humana se havia transformado em ratos. Menos ele. E Bismarck se agigantara. Parecia um leão. Um majestoso leão preto. O pavor dos raquíticos ratos.
Agora podiam brincar à vontade. O mundo inteiro era um vasto campo aberto a correrias e estripulias.
O naturalista acordava sobressaltado. O gato se aninhava em seu peito, olhos muitos acessos, fugido da fúria humana.

A INVISIBILIDADE DAS PULGAS

Charles Darwin viveu seus últimos dias a catar pulgas na própria barba. Paciente busca. Parecia um macaco a se coçar. Parentes e amigos do velho naturalista lastimavam seu estado. Caducava, não havia pulga nenhuma.
Imune do falatório doméstico, Darwin enfiava as unhas entre os pêlos da barba e anunciava a captura de mais uma pulga. E enquanto esmagava, sadicamente, o inseto, explicava: são miúdas, microscópicas, invisíveis, mas assim mesmo provocam coceira.
Às vezes o bichinho conseguia ser mais esperto do que Darwin. E pulava, voava, sumia. Ele se irritava. Se não tomasse cuidado, ia terminar devorado pelas pulgas. Uma peste! E, amargurado, falava da onipresença dos insetos. Viviam e se reproduziam em qualquer ambiente. Até no fundo do mar. Até no interior de sua barba.
Seus parentes ameaçavam raspar-lhe a barba. Chamariam o barbeiro Wallace. Operação indolor e profilática. Darwin se escolhia, protegia a longa barba branca com as mãos. Ninguém tocaria nela. Nem Wallace, nem Lamarck, nem Lineu. Se cortassem sua barba, onde encontraria pulgas? Ora, dedicava-se a elaborar uma nova teoria. Tão revolucionária quanto a da evolução das espécies.
E, irritadíssimo, metia os dez dedos na barba. Comichão interminável! Malditas pulgas!



A INEXISTÊNCIA DO ESCUDO DE OURO
Três monges falavam do imperador, do papa e do Diabo. O pior de todos talvez fosse o do meio. O malvado, o devorador, o ferino Leão X. O vendedor de perdões.
Súbito uma moeda rolou pelo chão do aposentado. Ouro puro, reluzente, ofuscante. Um dos religiosos levantou-se e tentou alcançá-la. Outro o imitou. Chocaram-se.
O terceiro, chamado Martinho, nem sequer se moveu. Acompanhou o trajeto da moeda com o olhar. Ela parou exatamente a seus pés.
Chocados, os outros monges xingavam o papa e o imperador. Adoradores do bezerro de ouro!
De posse do escudo, Martinho quis saber a quem ele pertencia. Nem a um nem a outro. De onde viera então aquela rodela? Talvez do quinto dos infernos.
Na moeda havia estampada a efígie do imperador. O poderoso Carlos V, o amigo do papa, o inimigo da Reforma.
Dominado pela ira, Martinho atirou a rodela pela janela. Não se venderia ao luxo romano, ao fausto germano. Morreria na pobreza, junto a Deus.
Os outros monges, no entanto, seguiram atrás da moeda. Saltaram a janela, caíram no jardim. Enfiaram as mãos na terra, feriram-se nos espinhos, despetalaram flores.
Martinho Lutero apoiou os cotovelos no peitoral da janela. Que buscavam com tanto afã seus amigos? Ora, o escudo de ouro.
Depois de horas e horas de vã procura, os dois religiosos voltaram à sala. O outro se pôs a convencê-lo da inexistência do escudo de ouro. Não, não acontecera nenhum fato relacionado ao surgimento de uma moeda. Tudo ilusão. Pura ilusão de óptica. Réstia de sol, borboleta amarela, ou nada.

O CANTO DE NERO

A bacanal parecia não ter fim. Semideitado, embriagado, cansado, Nero delirava. A seu lado, Popéia ria sem parar. E murmurava secretos desejos. O imperador voltou-se para ela e disse uma frase banal, sobre Baco, o vinho, o prazer. Chamou-a, porém, de Otávia.
A imperatriz deixou de rir, por um momento. Depois soltou uma risada. E chamou a atenção de Tigelino para o equívoco cometido por Nero.
O prefeito sorriu, bebeu e ofereceu mais um conselho ao imperador. Bebesse outra taça de vinho. A sobriedade não concernia aos deuses e heróis.
Popéia aplaudiu a idéia de Tigelino. Sim, bebessem todos, por Baco. No entanto há muito Otávia estava morta. Não queria mais ouvir aquele nome.
Parecia não ter fim a bacanal. Todos bebiam, beijavam, comiam, dançavam... E Nero pediu a Popéia sua taça de vinho. Chamou-a, no entanto, de Otávia.
Tigelino sorriu. A imperatriz fez ouvidos de mercador. O imperador ergueu um braço, lentamente. Então dissesse como se chamava. Proclamasse seu nome. Gritasse, para que todos ouvissem.
E Popéia gritou.
Já sentado, o imperador olhou, espantado, para a mulher. Ninguém podia gritar diante de Nero. A não ser ele mesmo.
E pôs-se se pé.
A cambar, gritava: só Nero podia gritar diante de Nero.
O grito se fez canto: só Nero podia gritar diante de Nero.
Achegaram-se dele os músicos, com suas liras e flautas.
Nero gritava-cantava e todos o aplaudiam. Desequilibrado, parecia dançar a dança dos deuses.
Antes de tombar, ainda balbuciou: só Nero gritava diante de Nero
Naquela mesma noite Popéia morreu.

Nota: A primeira esposa de Nero foi Otávia. Repudiou-a, para casar-se com Popéia, exilou-a e mandou matá-la.
















IRMÃOS
Multidões tomavam conta da rua. Gritavam, vaiavam. E ele algemado, sem condições de dar o troco. Erguer um braço, virilmente. Ou inverter a situação: conclamar o povo à revolução e receber dez minutos de aplausos. Havia sido deposto por um bando de generais apoiados por um magote de bandidos civis. Só em pensar nisso sentia o sangue ferver. Malditos golpistas! E o povo ainda acreditava nas acusações que lhe faziam. Gado humano! Ralé daninha! E, num ímpeto, rompeu as algemas. E um revólver apareceu em sua mão. Aqueles ratos calariam a boca. Porém, antes que atirasse, os soldados o agarraram. Alvoroço geral. Murros, pontapés, impropérios.
De qualquer jeito, a arma disparou. A bala voou e atingiu alguém na multidão. A maioria correu. Uns poucos ficaram para socorrer a vítima. Ele e os soldados também acudiram a pessoa ferida. Surpresa, estupor! A mãe dele organizava. A bala acertara o coração. Abraçou-a, chorando, pedindo perdão, desesperado. Jamais imaginara tamanha fatalidade. Antes tivesse nascido na Grécia, fosse Édipo. E nunca matar a própria mãe. Ela, no entanto, ainda o afastou de si e o amaldiçoou.
– Irás para o inferno, matricida, irmão de Nero.
E morreu.
Do meio da multidão fugitiva e apavorada saiu um homem. E dirigiu-se ao pequeno grupo formado ao redor da morta.
– Quem é você? – quis saber o assassino.
O estranho homem ria.
– Eu também matei minha mãe.
E abraçou e chamou Getúlio de irmão. O gaúcho tentou fugir, gritar. O braço de sua mulher o esmagava e ele acordou, aos gritos.


MALDITA GALINHA SAGRADA
Amontoados à porta da casa, os romeiros rezavam, rezingavam, babavam. E ofereciam ao padre um mundo de bichos, cereais, objetos. Havia bodes e botas, papagaios e alpargatas, galinhas e sacos de milho.
O sacerdote mal tocava os presentes. Levassem os bichos para o quintal, depusessem sacos e objetos a um canto. Deus os abençoasse.
Os fiéis buscavam aproximar-se cada vez mais do pastor, vê-lo de mais perto, tocá-lo. Davam um boi por uma polegada a mais. Um rebanho por um passo. Uma boiada por um abraço.
O Padrinho achou bonita uma galinha pedrês. Agarrou-a pelas assas, levantou-a, examinou-a. E viu de perto a cloaca avermelhada. Não teve tempo, porém, de evitar o jato de bosta em pleno rosto.
Na platéia não houve nenhum riso. Somente um gritinho uníssono de espanto.
A galinha voou, arremessada para o alto pelo padre.
– Maldita! Imunda! Diabo! – esbravejava o padrezinho sujo.
Instintivamente, os romeiros capturaram a galinha diabólica e, num piscar de olhos, puxaram-lhe o pescoço. Em seguida, passaram a depená-la.
Ao ver as penas voando, o padre quis com elas limpar o rosto. Os fiéis disseram não. Aquelas penas pretas e brancas eram o diabo.
O pastor de novo se irritou. O diabo não tinha penas. Largassem já a pobre galinha. Uma criatura de Deus. Aquelas inocentes penas, sagradas, santas.
E retirou-se.
Do lado de fora da casa, os romeiros principiaram uma briga. Para uns a galinha continuava maldita, para outros se tornara sagrada.
No quintal, Padre Cícero apascentava seus rebanhos.


O EMBUSTEIRO
Andavam pela caatinga, debaixo de um sol medonho. Não deviam parar tão cedo. Só quando alcançassem a serra. Os bandidos da polícia vinham logo atrás, se não tivessem voltado.
Muitos reclamavam. Melhor enfrentar a volante. Lampião, porém, não pensava assim. E já se dispunha a tomar decisão mais drástica, quando surgiu do mato um grupo armado. Para maior espanto de todos, o chefe do outro bando parecia o próprio Lampião. Verdadeira cópia.
Talvez estivessem diante de um imenso espelho. Melhor fazer em pedaços aquela coisa. E enfrentar quem estivesse por trás daquilo.
Virgulino avançou. O outro Virgulino fez o mesmo. Preparou o golpe mortal. Seu sósia não recuou e ainda o enfrentou. Com idênticos gestos.
E se se tratasse dele mesmo? Como? Só se estivesse realmente diante de um espelho. Não, ninguém levaria tão grande e frágil objeto até aqueles cafundós.
Qual nada! Aqueles bandidos eram da polícia. Vestidos de cangaceiros. Uns embusteiros!
E, facão empunhado, partiu para o outro. Ou matava ou morria. Desferiu o golpe. Atingiu em cheio o pescoço inimigo.
Lampião viu a cabeça do outro desprender-se do corpo e rolar para o chão. Ao mesmo tempo, sentiu sua própria cabeça voar. E, ainda rolando, viu seu próprio corpo, acéfalo, tombar.
Virgulino Lampião deu um salto espetacular, um grito pavoroso, e acordou todo o acampamento.


O INSIDIOSO INSETO VERMELHO
Numa gelada noite de 1944, algo semelhante a uma barata voou e pousou no alto da cabeça de Adolf Hitler. Imediatamente, três pistolas se voltaram para ela. O Führer desmaiou. E, já em sono profundo, balbuciou:
– Alle Menschen sind sterblich (1)
Se as armas fossem disparadas, uma bala acertaria, em cheio, um globo terrestre. Outra perfuraria o boné do chefe. A terceira não tinha rumo certo. Antes que Adolf acordasse, seis furiosas botas esmagaram o insidioso inseto. O almirante von Friedeburg rangia os dentes. O general Jodl mordia a língua. O marechal-de-campo Keitel fazia caretas. O incidente teve outros desdobramentos. Recuperado do susto, Hitler se enfureceu e por pouco não mandou fuzilar seus altos auxiliares. Queria viva a barata. Cabia a ele, o Führer do III Reich, dizimar o inimigo. Pessoalmente, com as próprias mãos. Ou com os próprios pés.
– Não tem mais jeito – lamentava Alfred Jodl.
– Arranjaremos outra – propunha Hans von Friedeburg.
– Tudo é possível – cogitava Wilhelm Keitel.
Sim, havia uma solução: um tal doutor Mengele. Sua ciência faria a barata renascer. Ora, aquela poderia ser uma barata judia. Muito pior: um insidioso inseto vermelho.
– Es lebe die Küchenschabe! (2) – bradava Hitler, olhos fitos na mancha em que se transformara a barata.

(1) Todos os homens são mortais.
(2) Viva a barata!

SAPOS NOJENTOS

Nicolau, o imperador, sorria. A nobreza também sorria. E comia, bebia, tagarelava.
– C’est le plus bel endroit du monde.
– Elles sont jolies.
– Quel triste sire!
Ao lado da imperatriz, um homem se recusava a comer. Havia sapos e pererecas no seu prato. Todos vivos. Uma coisa abominável. Idéia de inimigos da Rússia.
Alexandra parecia espantada. Não via os bichos, mas acreditava em Grigori. E os culpados por tão desagradável feito seriam exemplarmente punidos. Enforcados, fuzilados, esquartejados. Cozinheiros e cozinheiras.
O czar voltou-se para a czarina. Por que tanta irritação? Alguma notícia do querido Alexei? Não, o menino brincava em seus aposentos. No entanto haviam servido ao bom Grigori sapos e pererecas. E urgia punir os culpados. Logicamente, querida. E imediatamente.
Comunicado da decisão, o general Khabalov olhou para Grigori. Aquele bêbado mentia, não havia sapo nenhum sobre a mesa. Mentia ou delirava.
Ninguém mais sorria. Nem comia, nem bebia.
Grigori Rasputin irritou-se. Sim, o palácio estava repleto de bichos imundos, sapos nojentos. E o czar devia livrar-se deles, sem tardança. Daqueles generais incompetentes, que perdiam guerras e entregavam a Santa Rússia aos estrangeiros.

O GUARDIÃO DA CHINA

Sentado no trono, Chang-Kai chek recebia homenagens. Monarcas e chefes-de-estado do mundo inteiro saudavam o imperador da China. O criador de uma nova dinastia, como a dos Tangs, Mings, Hans, Songs...
Havia festa, pompa, luxo no palácio. Muito respeito, quase veneração. Afinal, o imperador da China não era um homem qualquer, porém o chefe de quase um bilhão de homens.
Chang não tirava os olhos dos convidados. Europeus, americanos, asiáticos, africanos. Todos reis, imperadores, ditadores, presidentes. No entanto nenhum deles era o guardião da China. E ria para si mesmo.
Assim estava, quando ouviu um burburinho novo. Talvez estivesse chegando o rei de Creta ou o sultão das mil-e-uma-noites. Entrasse e conhecesse o...
Os convidados abriram alas. Um enorme chinês apareceu no meio do salão, acompanhado de soldados armados.
Chang não despregava os olhos da situação. Quem seria o petulante?
O chinês parou diante de Chang. Fez um breve discurso: a revolução socialista vitoriosa...
O imperador olhou para os lados. Onde andavam os guardas imperiais? E os convidados por que não faziam nada?
– Você está preso – disse Mao Tse-tung, o chinês enorme.
E os guardas vermelhos agarraram Chang-Kai chek.
Debatia-se, tentava desvencilhar-se de seus inimigos, quando acordou.

A VOZ DO URSO FAMINTO

Não havia vivalma naqueles ermos gelados. Mas como tinham desaparecido tantos soldados, tantos camaradas?
Para onde olhava, Joseph Stalin só via gelo. Sim, estava perdido, sozinho naquele deserto gelado. Não podia, no entanto, ficar parado. Caminharia, em qualquer direção. Talvez encontrasse alguém.
Súbito ouvia uma voz, um grito, um urro. Interrompia a marcha, para ouvir melhor aquilo. A voz dizia palavras russas. O timbre parecia de alguém muito conhecido. Lenin? Não. Zinoviev? Não. Kamenev? Não.
Punha a mão em concha no ouvido. Ora, aquela voz vinha do maldito, do bandido, do inimigo Trotski. E dizia zombarias. Ironizava. Oferecia socorro.
Stalin enfurecia-se. Aquele traidor pagaria caro pelo que fazia. Ou já teria poderes suficientes para derrotá-lo?
Deixava de lado os pensamentos e se voltava de novo para a voz. Cada vez mais próxima. Porém já nada dizia. Agora eram urros. Teria Trotski virado urso? Sim, um enorme urso se aproximava. Parecia faminto, feroz.
Stalin tentava fugir e caía. A fera tinha a cara de Trotski e erguia as patas para esmagá-lo.
A tremer de medo, Stalin mijava-se. Mas antes da primeira patada, acordou, aos gritos, todo mijado.



A ARMA DIVINA

Deitado numa rede, Anchieta acordava. Onde andavam os índios? Talvez tivessem ido pescar, caçar, fazer guerra. Oxalá fosse verdade. Havia entre eles muitas belas mulheres. E sempre sensualíssimas em sua nudez escandalosa. Tentação contínua.
Punha a cabeça para fora. Uma indiazinha brincava a certa distância. Sim, os homens, com certeza, se tinham metido no mato.
Deu mais uma espiada. A menininha ainda brincava. Porém avistou também moças. Umas belezinhas! Melhor dormir de novo. Talvez sonhasse com anjos.
De nada adiantavam suas preces. Três ou quatro mulheres se aproximavam. Riam, gesticulavam, falavam. Queriam ver seu corpo. Ele resistia, debatia-se.
No meio da luta, compreendia a verdadeira extensão da brincadeira. Além disso, não conseguia mais contar quantas mãos o cercavam e apalpavam.
A batina não durou nada. Menos ainda as roupas íntimas.
Excitado, entregou-se todo ao vandalismo sexual de suas ovelhas selvagens. Deus o perdoaria.
Uma doce mão agarrou seu pênis. Celestial carícia! Alcançaria o supremo prazer num segundo.
Veio, então, uma dor. Gritou, agitou-se. Nos olhos de todas havia fúria. Nos seus dentes descobriu ódio.
Sim, queriam feri-lo, matá-lo. Repetir rituais macabros, inumanos.
Como salvar-se? Não conseguiria fugir. Nenhuma arma por perto. Só Deus o salvaria da morte.
E se pôs a pedir auxílio divino. Enviasse uma arma. Prometia defender-se apenas. Não feriria de morte nenhum daqueles brutos seres.
Sentiu o pênis avolumar-se. As mulheres deram gritos de espanto. Umas correram, apavoradas.
O milagre acontecia. Deus mandava auxílio real. Com o próprio pênis afugentaria suas inimigas. Porque já parecia do tamanho de uma perna humana. E duro, feito um cacete.
Vendo-se livre, José de Anchieta punha-se de pé. O resto das mulheres fugiam.
Porém, mal segurava o enorme pênis, o padre acordou.
Devia rezar pelos índios do Brasil.








LOUVADO SEJA ALÁ

Passava as mãos no rosto. Que horror! Não havia rosto. Nem olhos, nem nariz, nem boca. Repetio gesto. A mesma superfície lisa, como uma imensa testa. Talvez as mãos tivessem perdido o tato. Ou, por qualquer motivo, os olhos estivessem muito bem fechados. Tentaria reabri-los. Qual! Não possuía olhos. Por menores que fossem. Nada via. Como, então, ler o Alcorão? Desesperado, “gritava” por Alá. Onde encontrar a própria face? Quem teria roubado seus olhos, fechado sua boca, extirpado seu nariz? E se não existisse também o Livro? Nem o Profeta? Nesse caso, para que olhos, ouvidos, boca?
Apalpava a cama. Ora, melhor passar as mãos num corpo de mulher. Desfrutar os prazeres da carne. Mesmo cego a tantos encantos. Mudo, incapaz de dizer amor, gemer. Impossibilitado de sentir o cheiro da volúpia.
Não ouviu voz nenhuma. Porém percebeu que alguém se esquivou, evitou o contato de suas mãos. Talvez a mulher com quem deveria passar aquela noite. Se ao menos pudesse ver! Saber qual de suas mulheres se mostrava tão atrevida!
Após pular da cama, a pessoa caía sobre ele. Virava-o de costas, dominava-o.
Não, não se tratava de mulher. Pois algo pontudo forçava suas nádegas.
No entanto, antes de o ato se consumar, deu um grito pavoroso.
Suado, coração aos pulos, virou-se na cama. Abriu os olhos, mirou-se num espelho. O rosto continuava o mesmo. E ainda se chamava Maomé.
– Louvado seja Alá!

AS MULHERES E O FOGO

As grandes letras do jornal falavam do assassinato de um ministro, em Berlim. O velho Sigmund, porém, nem parecia ter olhado para a gazeta. Manuseava um álbum de fotografias de mulheres nuas. Ora aproximava o rosto do livro, ora balbuciava palavras obscuras, como se falasse às mulheres.
Distraído, o velho só percebeu a chegada dos doutores Otto e Sándor quando estes se puseram a falar. A Alemanha ia pegar fogo.
Como num mecanismo de defesa, Sigmund fechou o álbum, num átimo. Otto Rank sorriu para Sándor Ferenczi. Naquele mato havia coelho. O “mestre” escondia alguma novidade, talvez uma nova teoria da sexualidade. Queriam ver o caderno, os apontamentos.
E se acercaram de Sigmund. Mostrasse o precioso objeto. Deixasse de cerimônias.
Irritado, o velho tentou esconder o livro sob as coxas. Não admitia violações à sua privacidade. E muito menos vigilância a seus atos.
No decorrer do sermão, deixou a cadeira e se pôs a andar. Cheios de curiosidade, Otto e Sándor passaram as folhas do álbum. E novo riso se fez em suas faces. Ora, então o “mestre” apenas olhava fotografias!
Sigmund irritou-se ainda mais.
Minutos depois, nada restava do álbum. O fogo devorou folha após folha. E Sigmund Freud se pôs a ler o jornal. O ministro talvez tivesse merecido aquela morte. O mundo ia pegar fogo.


DELÍRIOS DE UM JOVEM JUDEU

Há quarenta dias Cristo jejuava. Nem sentia mais fome. Ora, não havia nada naquele maldito deserto que pudesse ser comido. Nem gafanhoto, nem rato, nem cobra. Só vento, muito vento. Além de areia e pedras.
Satanás havia aparecido duas ou três vezes para tentá-lo. Fizera até uma boa sugestão: transformar algumas daquelas pedras em pães. Cristo, porém, preferia cumprir, à risca, a promessa feita à Pomba. À noite, cansado de tanto caminhar sob um sol de quarenta graus, Cristo recostou-se a uma rocha. A manhã não tardaria a chegar. E, com ela, o fim do jejum. O vento zunia nos seixos. A areia voava em todos os sentidos. Fazia um frio dos diabos. O sono fugia.
Para maior tormento, Cristo ouviu passos na areia. Abriu os olhos. Um vulto caminhava em sua direção. Algum peregrino como ele. Talvez um indivíduo desgarrado de sua tribo. Arregalou os olhos. Uma mulher! E parecia nua, sem um xale sequer. O vulto aproximou-se ainda mais do solitário homem. Lembrava alguém muito conhecido. Sim, Maria Madalena, em corpo e alma.
– Que queres?
– Estou com muito frio, profeta. Veste-me, depressa.
– Onde estão tuas vestes?
– Transforma parte desta areia ou uns poucos destes seixos em vestes.
O jovem judeu tremia. Deveria ser de novo Satanás. Mais uma tentação. Esfregou os olhos, ergueu-se. Olhou bem para o vulto. Não, não havia mulher nenhuma ali. Só rochas. E mordeu uma pedra. A fome provocava delírios.

VOTO DE CASTIDADE

Mohandas falava da não-violência. E também da justiça e da verdade. Os outros apenas ouviam. Quando muito, emitiam monossílabos, para dizerem ter a mesma opinião de Mohandas.
A tenda mal comportava dez pessoas sentadas. E, no entanto, há horas os cinco permaneciam no seu interior. A Índia não suportava mais a opressão da metrópole. Todos os indianos deviam lutar pela verdade e pela justiça. Sem violência.
Nathuram descruzou as pernas. Pareciam dormentes. Rabindranath o imitou. Harsha parecia conformado. Mas, quando Jawaharlal quis coçar um dos pés, pediu desculpas e retirou-se.
Harsha quis saber se ela vivia com Mohandas. Ora, Mohandas havia feito voto de castidade, há anos. Antes mesmo do voto de luta pela verdade, pela justiça e pela não-violência.
Passado um minuto de silêncio, Nathuram perguntou se Mohandas conhecia a moça. Não, não se recordava de tê-la visto alguma vez.
O primeiro a rir foi Rabindranath. Logo todos riam, menos Mohandas. Não acreditavam em sua palavra? Chamavam-no de mentiroso?
E, irritado, correu à porta da tenda. E pôs-se a gritar: volte aqui, moça.
Os quatro homens riam, incontrolavelmente. A jovem havia sumido. E Mohandas se voltou para o interior da tenda. Insultavam-no, não mereciam acolhida debaixo de seu teto. Fossem embora. E, fora de si, empunhou uma vara e pôs-se a agredir os quatro homens.
Mohandas Gandhi não mentia e jamais quebraria seu voto de castidade.

A REDUZIDA CÓPIA DE SAMAEL

Há dias Samael seguia os passos de Eva. Inicialmente desejou possuí-la. Porém sempre a via na companhia de Adão. Perambulavam pelos matos, nus, banhando-se nos rios, caçando pequenos animais, colhendo frutos. Casados há pouco, ela ainda parecia virgem, tão jovem, tão bela, tão sedutora. Como, pois, seduzi-la? E se matasse Adão? A idéia não parecia má. Viúva, solitária, necessitada de companhia, ela não o rejeitaria. Se já tivesse filhos, talvez nem voltasse a pensar naqueles atos rotineiros de fornicação. Sim, precisava dar-lhe um filho. Pois Adão, embora sendo homem e apresentasse virilidade explícita, certamente ainda não atingira a maturidade suficiente para gerar um filho. Talvez não atingisse o orgasmo ou se contentasse com atos de pura brincadeira de corpos no chão. Inocente, sem malícia, pueril. Devia ser assim.
Dias e noites seguindo os passos da bela mulher, Samael vivia escondendo-se atrás de pedras e árvores. Até disputava os galhos com macacos e serpentes. Ora, por que não pensara nisso antes? – ser como uma serpente. Sim, enrolado em galhos de árvores, poderia facilmente surpreender Eva. Dar-lhe-ia um bote, leva-la-ia ao chão e, enquanto a beijasse - o cuspo sujo, pestilento, de homem solitário -, fa-la-ia desmaiar. E assim a possuiria.
Meses depois nasceu o primeiro filho de Eva. O pobre Adão não parava de sorrir, olhos fitos no pequeno Caim, reduzida cópia do grande Samael.


UM SONHO CARTESIANO

O capítulo mais soberbo de Sonhos Ilustres, de Domenico Moravia, talvez seja aquele dedicado ao filósofo Descartes.
O autor nem sempre informa onde teria colhido o material para a elaboração de sua interessante e volumosa obra. Porém são os livros de memória a fonte principal de sua pesquisa. Não no caso de René Descartes.
Estranhamente, Moravia duvida da autenticidade do sonho cartesiano inserido e analisado em seu livro. Teria sido produto dos dons de ficcionista do pensador francês.
Para reforçar sua tese, o escritor noticia a existência de um romance deixado por Descartes. Inacabado embora, teria a mesma importância do Dom Quixote. Um exagero, certamente.
O livro de Moravia tem causado muita discussão. Chamam-no até de embusteiro, apesar da grandeza de Sonhos Ilustres.
Na verdade, é crença generalizada que o polêmico italiano inventou o tal sonho de Descartes. Se não, subtraiu a “história” das mãos de outro “embusteiro”.
Porém a história da “criação” do sonho deixa de ter qualquer importância diante dele mesmo.
Resumidamente, é ele assim:
Descartes e outra pessoa conversavam. Ele falava, ela ouvia. Um aposento cheio de luzes e brilhos. Parecia um salão de palácio.
Quando a outra pessoa falou, o filósofo compreendeu finalmente tudo: conversava com a jovem rainha Cristina. A filha de Gustavo Adolfo, o falecido rei da Suécia.
Além deles, não havia mais ninguém no salão. A não ser as quase vivas figuras dos quadros colados às paredes. Maravilhas de Botticelli, Rembrandt, Rubens e outros.
Recordava Descartes episódios de sua infância. A casa onde nascera, os pais, Touraine. Sim, apesar de conhecer quase toda Europa, não conseguia esquecer Touraine.
A rainha ria. Seu riso, porém, era de deboche. Ora, Descartes só podia estar fantasiando. Deixasse daquilo. Mentir não ficava bem para um filósofo. Ela sabia perfeitamente nunca ter ele deixado a França. Nem Touraine.
Nesse ponto da narração, Domenico Moravia discorre sobre a Suécia dos séculos passados, esboça um retrato político e intelectual de Cristina e se refere à amizade dela com Descartes.
No sonho, o francês, aborrecido, punha-se a passear pelo salão. As palavras reais o feriam e contrariavam. Devia ou não devia reafirmar que conhecia quase toda Europa? Talvez fosse mais cauteloso mudar de assunto. Sim, a rainha merecia seu respeito, sua amizade.
Acalmado, voltava ao sofá. Aquelas luzes o enfadavam. E a outra pessoa por que se calara? Buscava-a com os olhos. A pessoa continuava no mesmo lugar. Olhava com atenção para ela. Tratava-se, então, de Richelieu.
Explica Moravia não ter havido a transformação de uma personagem em outra. Igualmente não teria ocorrido a substituição física da rainha pelo cardeal. Na verdade, é como se Descartes estivesse sempre a conversar com Richelieu.
De fato, a conversa continuava a mesma de antes. Reatava-se. O outro reafirmava nunca ter Descartes saído de Touraine. E ia mais além: vivera até aquele dia preso na casa de seus pais.
Para não dizer grosserias, o filósofo se punha a andar pelo salão. Talvez Botticelli o acalmasse. Ora, lembrava-se muito bem das longas viagens pela Europa. Não podia esquecer os anos de estudos no colégio de La Flèche.
Como se ouvisse seus pensamentos, Richelieu o chamava de mentiroso. Jamais estudara com os jesuítas. Tudo invencionice. Além do mais, não sabia nada. Um falso pensador.
Disposto a mudar a opinião de seu interlocutor, René Descartes voltava ao sofá. E dava com a presença de Galileu. E era como se estivesse desde o início do sonho a conversar com este. No entanto nem parecia o amigo de antes. Como ousava duvidar de sua sabedoria? Toda Europa já conhecia suas obras. Ou não lera ainda nada de sua autoria? Buscaria os livros.
Galileu ria, debochava de René. Não acreditava numa só palavra dele. Nunca escrevera nada. Nem sequer cartinhas familiares.
Enfurecido, Descartes corria a uma estante, arrebatava alguns livros e os jogava aos pés do outro. Eram tratados de sua autoria, escritos e publicados em latim.
Ria novamente Galileu. Aqueles livros não traziam nenhuma letra. Tudo em branco. Simples papéis.
Do meio do salão, Descartes fitava Francis Bacon, e não mais Galileu Galilei.
Como das outras vezes, não percebera qualquer transformação dos personagens. Nem também a substituição de um por outro. Como se estivesse durante todo o sonho a dialogar com Bacon.
Olhos fitos no inglês, René Descartes batia no peito e dizia ser um grande filósofo. Além das obras monumentais já escritas, pretendia escrever outras. Uma delas sobre a alma.
Discursava, a passear pelo salão. De vez em quando olhava, ufano, para o outro. O mundo inteiro ainda dependeria de suas idéias.
Falava, quase aos gritos.
Em dado momento, porém, o outro também gritou. Descartes assustou-se, parou no meio do salão. Olhou. O rei Gustavo Adolfo parecia enfurecido.
Segundo Domenico Moravia, também neste momento Descartes não percebeu qualquer transformação ou substituição de personagem. Como se, desde a rainha Cristina, estivesse a falar com Gustavo Adolfo.
Ordenava o rei silêncio. Nenhum homem, por mais filósofo que fosse, poderia jactar-se de sabedoria.
René Descartes talvez nem homem fosse. Ou não passasse de uma figura, como as de Botticelli.
Calado e parado diante do rei, o filósofo ouvia insultos. Talvez Descartes nem existisse.
Enquanto Gustavo falava, ele tentava olhar para as luzes, os quadros colados às paredes. Porém não conseguia mover-se, sequer dar um passo.
Tentava falar, mas sua língua parecia presa aos dentes.
E pensar?
Nem isso conseguia mais.


A IDÉIA DE MATAR PILATOS

Jesus Cristo havia sido crucificado e sepultado. A paz reinava, afinal, em Jerusalém. Falava-se, porém, no desaparecimento do cadáver. Os mais fanáticos acreditavam em ressurreição.
Entre inquieto e feliz, Pôncio Pilatos decidia ir a Roma. Transmitiria pessoalmente as novidades a Tibério, o imperador.
E montava seu fogoso cavalo.
Dias e dias de viagem, por desertos, montanhas, penhascais.
Passavam-se meses, anos. E nada de chegar a Roma. Para trás a solidão dos caminhos. Para todos os lados uma só desolação.
Cansado, descia do cavalo e recostava-se ao tronco de uma árvore. Quanto tempo já durava aquela jornada? Cem anos? Mil anos? Melhor voltar. Mas para onde? E para quê?
Remontava e tomava o caminho de volta. Não importava para onde. Aos poucos recobraria a memória.
E tal acontecia. Cada passo do cavalo significava a volta de um instante passado. O tempo se repetia, voltava.
Sucediam-se dias, meses, anos. E o cavaleiro chegava a Jerusalém. Falavam no desaparecimento do cadáver de Cristo.
Inquieto, Pôncio descia do cavalo e se punha a andar pela cidade. Decorriam horas, dias. Chegava ao Calvário. Crucificavam mais um homem. Olhava com atenção para o desgraçado. Lia palavras escritas numa tabuleta: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. E mandava soltarem Cristo da cruz. Arrancassem do chão a cruz, retirassem os pregos do corpo do moribundo.
— Não, eu quero morrer — gemia o judeu.
— Cumpram minhas ordens — gritava Pôncio Pilatos.
— O destino não pode ser mudado. Se eu não morrer agora, crucificado, minha história será outra.
Obedientes, os guardas arrancavam do chão a cruz, deitavam-na e retiravam os pregos que prendiam Jesus ao madeiro.
Livre, Cristo se punha de pé.
— Você me condenou à morte; cumpra sua palavra.
— Mas mudei de idéia e quero que você viva muito e morra de velhice.
A discussão se tornava áspera. Insultavam-se em latim, grego e hebraico.
Súbito o ex-morto se apoderava da espada de um soldado e investia contra a autoridade romana.
Prestes a ser atingido, Pôncio Pilatos deu um grito e acordou.


A DIVISÃO DO MUNDO

Na latrina, Carlos Magno cismava. Conquistar mais terras, expandir o reino, o Regnum Francorum, tornar-se Imperador do Ocidente. No entanto, aquela dor não passava. Maldita comida! Mandaria matar todas as cozinheiras do palácio.
Sim, um novo Império Romano, milhares e milhares de soldados e súditos, terras e mais terras para pilhar, pisar e legar aos filhos.
A dor tornou-se mais intensa. Gemer, a sós, não lhe tiraria o cetro, o título de Rex Francorum et Langobardorum. Mesmo assim, nunca mais comeria tanto. Já não era tão moço.
Uma dor maior sacudiu o rei francês. Evacuou mais. Olhou para baixo. A dor passava. O reino seria expandido, sim. Muitas terras, o mundo inteiro a seus pés. E tudo deixaria para os filhos. Um pedaço para Luís, outro para Pepino, terceira parte para Carlos.
Livre das dores, Carlos Magno lavou-se, vestiu-se e deixou a latrina.
Numa sala, os três meninos brincavam de dividir o reino. Rasgavam um mappa mundi, e riam como nunca.
O rei olhou para eles. Por que haviam feito tudo antes dele?
Pepino olhou para Luís, Carlos para Pepino, Luís para Carlos. Não, não tinham feito nada ainda.
E correram para a latrina.
O mundo ficou dividido no meio da sala.

DESASTRE SOBRE O LABIRINTO DE CRETA

Chamava-se Ícaro. Belo rapaz, apaixonado por aventuras perigosas. Sobretudo aéreas. E quantas quedas, quantas decepções! Desde muito criança experimentava os mais variados vôos. De cima de muros, de galhos de árvores. Sempre incentivado pelo pai. Um sujeito meio louco chamado Dédalo.
— Engraçado, pai, eu sempre pensei que o senhor fosse grego.
Dédalo dizia gostar de boas mentiras. Com isso sempre alcançava seus objetivos. Assim conquistara sua mulher, dizendo-se engenheiro.
— Mas o senhor construiu o labirinto, não foi?
Dédalo ria, gargalhava. Não, nunca construíra nada. Mais uma mentira fabulosa de sua vida.
Ícaro também ria. Enquanto se preparava para mais uma aventura. Iria voar pelos céus.
Ajudado pelo pai, amarrava a si umas enormes asas. Voaria até perto do sol.
— Pode ir, meu filho.
E ele decolava. Partia lentamente, a poucos metros do chão. Batia as asas, subia mais, impunha-se velocidade. Olhava para baixo. O pai se reduzia a quase nada, assim como as casas, as árvores, a própria Terra. Avistava estrelas, que cresciam a cada instante. Um prodígio voar, andar pelo espaço, pleno de liberdade!
Ria, quando avistou um objeto vindo em sua direção. Um meteoro? Um disco voador? Um pássaro? E se o atingisse?
O objeto voava célere contra ele. Um pequeno avião. Aguçou a vista. Havia um homem no aparelho. Podia ver, com nitidez, uma inscrição na parte externa do avião: 14-Bis. E as feições do homem: Alberto Santos Dumont.
Acontecia então o choque. E suas asas se espatifavam. Tonto, caía velozmente.
Num átimo, chocava-se contra o chão, feito uma fruta caída do galho. Em pleno labirinto de Creta.
Estirado na cama, olhos grudados no teto, Santos Dumont gritava.


AS INFINITAS PERNAS DE WELLINGTON

Era anão. Sujeitinho do tamanho de um dedo de homem comum. E comandava milhares de outros seres feitos à sua imagem e semelhança. Valentes soldados.
Sempre vitorioso, esse general de alguns centímetros tinha mania de grandeza. Sonhava conquistar o mundo. Tornar-se o rei da Terra.
Porém chegou o dia de enfrentar um exército de gigantes. Homens enormes, do tamanho dos comuns. E o general anão se pôs a pensar? Que estratégia havia de usar contra os tais gigantes? Fez cálculos, desenhou figuras, anotou nomes e números.
Ao cabo de mil planos mirabolantes, decidiu-se pelo mais ousado: avançar e chegar ao inimigo.
Muitos de seus soldados seriam esmagados pelas botas contrárias. Feito formigas. Em compensação, milhares se salvariam. E escalariam o couro dos calçados. Atingiriam a perna, todo o corpo. Com as baionetas envenenadas, picariam a pele goliarda.
Estratégia de gênio!
Dada a ordem de atacar, o infinitesimal exército avançou. À frente marchou o genial estrategista.
De longe ainda pôde avistar a cara do comandante inimigo. Porém, à medida que avançavam um para o outro, ia deixando de ver partes do corpo gigante. Até enxergar apenas uma enorme bota.
Preocupado com o próprio destino, não teve a oportunidade de constatar a realização integral de seu plano. Milhares de anões esmagados pelas botas gigantes. E outros milhares agarrados ao couro dos calçados.
Ao atingir o topo da bota inimiga, o general anão escorregou. Por sorte caiu para dentro do calçado. Refez-se do susto, agarrou-se aos pêlos da nobre perna. E dela não mais se afastou.
À altura do joelho, pensou dar a primeira alfinetada. Sentia muito calor e cansaço. Urgia pôr termo àquilo. Não, necessitava atingir a cabeça do homem. Daria apenas uma picada mortal.
E subiu mais e mais.
Alcançada a metade da coxa, ouviu um fragor, seguido de insuportável odor. Apavorado, ainda tentou levar as mãos ao nariz. E escorregou pela segunda vez.
Caía, caía, uma queda eterna. Como se as pernas do duque de Wellington fossem infinitas.
E Napoleão Bonaparte acordou, tentando agarrar-se a nada.


UM COVEIRO MONSTRUOSO

Montado num cavalo recém-domado, Átila percorria a vista pelos prados da Panônia. O animal trotava, cheio de garbo, como se quisesse dizer ao homem que também tinha dignidade.
Satisfeito com o procedimento do cavalo, Átila pôs-se a falar, carinhosamente. Dar-lhe-ia um belo nome. Que tal Huno? Não, arranjaria um nome próprio dos melhores animais. Leão, por exemplo. Sim, Leão.
O animal relinchou, como se risse, gostasse da fala do homem.
Átila prometeu outras cortesias ao cavalo. Invadiria Roma, montado nele. Destruiria o Império Romano. E lhe daria até um cognome: Leão, o Cavalo. Para distingui-lo do Papa Leão, o Grande.
De novo o animal relinchou, agora de maneira esquisita, e deu pulos, como se tivesse gostado das últimas palavras do rei.
Para sossegá-lo, Átila comprometeu-se a nomeá-lo papa. O rei do mundo cavalgaria o papa-cavalo.
Leão desembestou e livrou-se, de vez, da carga. Machucado, furioso, Átila sacou a espada e investiu o cavalo. Ia ensinar como uma animal devia tratar um rei.
Ameaçado, o cavalo ergueu as patas dianteiras e, gigantesco, atacou o pequeno homem. E relinchava e arreganhava os dentes.
Átila recuava, praguejava, desequilibrava-se. E terminou caindo num buraco.
Leão chegou à beira da cova, olhou para o homem caído e pôs-se a escavar o chão. Sim, ia jogar terra sobre Átila, enterrá-lo vivo.
Desesperado, o rei dos hunos gritava, se debatia, tentava escalar as paredes da cova. E mais terra sobre ele caía. O cavalo ria, gargalhava, feito um coveiro monstruoso. Átila, porém, salvou-se no último instante. Sacudiram-no e ele acordou.


A FOME DE MALTHUS

Há três dias o reverendo Thomas Malthus não se alimentava. E pouco dormia. Precisava fazer a revisão final de seu livro. Não queria um só erro tipográfico. Nada de gralhas.
Morto de cansaço, sono e fome, adormeceu sobre o impresso. E teve um sonho horrível.
Acordava, faminto, e gritava pela criada. Preparasse urgentemente um farto almoço. A criada, porém, não pareceu ouvi-lo. Irritado, Thomas correu à cozinha. E encontrou o corpo estendido no chão. Fedia. Talvez tivesse morrido de preguiça.
Cada vez mais esfomeado, o economista vasculhou toda a casa à cata de alimento. Nem um só grão de arroz.
Desalentado, Thomas resolveu sair de casa. Iria a um restaurante. Porém teve um grande susto ao abrir a porta. Dezenas de cadáveres estirados ao longo da rua. E moribundos retorcendo-se de dor.
Que peste seria aquela?
O reverendo aproximou-se de um homem que lambia o chão. Dissesse apenas o nome da peste. E o semimorto disse: fome. Não havia mais alimentos em Londres.
Feito um doido, Thomas corria as ruas. Só cadáveres e moribundos. E notícias alarmantes. Em toda Inglaterra não havia mais um único bife. Tudo podre. Como os homens, também ao animais morriam. Nem insetos restavam. Todos haviam sido devorados.
Súbito o economista avistou um belo e enorme rato. Urgia pegá-lo. Daria um suculento bife.
Malthus preparava-se para o bote fatal. Pegaria o bicho pelo rabo. E saltou. O rato, no entanto, não se deixou capturar e fugiu. Não correu muito, porém. À sua frente apareceu um gato encantador, de belos olhos verdes.
A princípio, o economista se desesperou. Seu bife ia virar banquete de gato. Depois se alegrou. Rato no almoço, gato na janta. E armou-se para o duplo ataque.
No último ato do sonho, o gato se transformava em Napoleão Bonaparte. E o rato num lord qualquer. Os franceses haviam, finalmente, invadido a Inglaterra.
Thomas acordou aos gritos, suado, apavorado. A criada lia sua teoria da crise mundial de alimentos. E ria.


BICHO AMARRADO PARA MORRER

Prisioneiro dos tupinambás, Hans aguardava cristãmente a morte. Lembrava-se perfeitamente de tudo, desde sua captura, naquela fatídica manhã de 1554. A chegada à aldeia, a recepção, a festa. Mulheres e crianças o esbofetearam. Cortaram-lhe sobrancelhas e barba. E o amarraram pelo pescoço, como se fosse bicho. Sentira-se espiritualmente aniquilado. Reles vivente. À espera do golpe mortal. Para depois ser esquartejado, assado e comido pelos canibais.
No entanto, logo lhe trouxeram alimentos e, mais tarde, uma jovem índia. Comesse e engordasse. E fizesse da indiazinha sua mulher.
O alemão se recusava a comer aquelas porcarias e não queria a companhia da fêmea. Arrependia-se da viagem ao Brasil. Antes tivesse ido à Índia. Ou estacionado em Lisboa. E chorava, tremia de terror, rezava. Pois vira muitas cabeças de gente espetadas. De homens devorados por seus carcereiros.
Que Deus o livrasse daquela tortura, de tão terrível destino. Não podia escapar à morte, bem sabia, pois mortal nascera. Porém queria morrer em sua terra, junto a seus parentes e de morte natural.
Deitado na rede, Hans pedia o socorro divino. Só o Pai Eterno o salvaria.
Súbito ouviu um farfalhar de ventos e se pôs atento. Talvez uma tempestade. Depois um clarão, como de relâmpago. Olhou para o céu. Nuvens brancas passavam. Soergueu-se e, com grande espanto, viu um vulto descer ao chão. Um velho de longas barbas alvadias e imaculadas vestes.
— Eu sou o Salvador a quem chamaste, meu filho.
Maravilhado, Hans sorria, olhos fitos no ancião.
— Vim para te salvar.
E o Onipotente alisava os cabelos sujos do europeu. Ninguém o mataria. Num minuto estariam na Alemanha. Todo o Atlântico não media um passo.
Tanto barulho só podia ter despertado a indiada. E logo uma dezena de selvagens invadiu a cabana onde o pobre Hans dormia. Quem era o velho?
— Ele é deus, ó brutos!
E o alemão, rindo, se dizia salvo. Fossem os bárbaros matar e comer animais. Nunca o matariam. Seu deus viera salvá-lo. Brevemente estaria do outro lado do mundo. Onde imperavam a lei de Deus, a Justiça, a Civilização. Ficassem com o Diabo e a Barbárie.
Os índios, porém, não deram ouvidos a Hans. Agarraram o velho de barbas brancas e o amarraram com cordas. Agora havia dois escravos e a comilança seria farta. Fariam uma festa espetacular.
Não tardou, foram os dois conduzidos ao centro da aldeia, onde toda a tribo cantava e dançava.
Estupefato, o europeu não reagia. E se deixava conduzir ao holocausto. Não passava mesmo de bicho amarrado para morrer. Ele e seu Deus. Repetição da história de Jesus.
Só restava esperar o desfecho de sua pobre vida. Um golpe de clava na nuca, os miolos saltando longe, o esquartejamento, a fogueira. Depois as bocas famintas em suas carnes.
E o velhinho? Nada faria para livrá-lo do suplício? Pois também lhe cortavam a barba e riam estrepitosamente.
Não, não aguardaria passivamente a morte. Não custava nada tentar uma fuga. Afinal, até Deus o abandonara. Mas coitado do velho, também condenado à morte! E tentava escapar, embora amarrado pelo pescoço. Os selvagens, porém, o perseguiam e pegavam.
— És nosso bicho, como nosso bicho é o teu velhinho.
E se preparavam para o sacrifício. Bebiam, pintavam os prisioneiros, cantavam e dançavam. Um dos homens segurava a clava com que iria matar Hans e o ancião.
Nesse momento Hans Staden acordou, aos berros.


BICHO ASQUEROSO

Três dias antes de morrer, Euclides Azevedo leu uma biografia de Arnaldo de Bréscia. Pouco mais de cinqüenta páginas. O livrete fazia parte de uma coleção. O primeiro volume biografava Frederico Barba-Roxa. Os volumes seguintes eram dedicados a Carlos Martel, Carlos Magno, Henrique IV, Ricardo Coração de Leão e outros monarcas.
Desde adolescente, Euclides sentia imenso prazer em ler biografias. Sobretudo as vidas de personalidades da Idade Média. Como sempre fazia, rabiscou, à margem das páginas, algumas observações. Uma delas diz: “Queimar um homem é crime hediondo. Mais hediondo é queimar mulheres. E crianças. E poetas”.
Euclides pretendia escrever um romance de Joana d’Arc. Não um romance histórico, mas psicológico-político. Seria seu primeiro romance. Anos e anos de leituras e anotações. Vários cadernos repletos de inquisições, atrocidades, fogueiras.
O último capítulo da biografia de Arnaldo de Bréscia é o mais grifado por Euclides. Intitula-se “Preso, estrangulado e queimado”. É a narração minuciosa do fim do grande inimigo do Papa Eugênio III. Capítulo assombroso. Um retrato da mais terrível das mortes. Euclides parecia sentir a proximidade da própria morte. Como se ela fosse um bicho asqueroso.


CONSELHO DE LUÍS XVIII

Durante muito tempo Carlos Prado se considerou desenhista de primeira grandeza. Também muita gente o considerava assim.
Desde menino garatujava, desenhava, pintava. Criança-prodígio, diziam seus pais e parentes. Seria um Michelangelo. Pena ser brasileiro.
Fez-se homem. E, para sorte sua, chegou ao Brasil a Missão Artística Francesa. Com ela, Charles Pradier. Correu ao encontro do artista famoso. Conheceu-o. Viu seus desenhos brasileiros. Sobretudo os de D. João VI. Tudo lhe parecia magnífico. A corte portuguesa parecia a francesa. Magnifique! Elogiava todos os quadros do visitante. Sempre em francês. “Ah! que vous êtes génial!” E não largou mais o francês. Até decorou frases inteiras de Chateaubriand: “Une heure après le concher du soleil, la lune se montra au-dessus des arbres à l’horizon opposé”. E também de Ronsard, Rabelais, Corneille, Racine, Molière, la Fontaine, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot, e muitos outros. Quase morreu de tanto ler. Quase trocou o desenho pela literatura. E se se tornasse poeta? Sim, por que não escrever versos? Em francês, naturalmente. Tentou. Quis imitar André Chénier. Desistiu logo. Seu destino era mesmo o desenho.
A seguir, viajou à Europa. No rastro do suíço. Ah se pudesse hospedar-se na casa dele! Porém Charles nem deu ouvidos a Carlos. De qualquer modo, encontrava-se no Velho Mundo. No melhor dos mundos. Logo ficaria célebre e rico. Seu nome na boca dos reis. E, se tudo se desse como imaginava, logo arranjaria uma francesinha. Casaria na Sainte-Chapelle, na St.-Germain-l’Auxerrois, na Notre-Dame. Se tivesse mais sorte, com uma princesa. E nunca mais veria o Brasil, terra de índios e negros. Sim, nada de morrer no Brasil, obscuro e pobre. Queria seu lugar na galeria dos grandes pintores. Precisava retratar reis, rainhas, princesas. Seria famoso. Mais que Pradier e Debret.
Em Paris conheceu outros pintores e desenhistas. E também condes e condessas, duques e duquesas. O melhor da corte de Luís XVIII. Já falava francês como qualquer parisiense. E até pensou mudar de nome: Charles Pré. Aconselharam-no a mudar de idéia. O nome não agradava.
Na verdade, Carlos Prado queria mesmo conhecer Luís XVIII. E retratá-lo. Houve espanto. O rei nem sequer o receberia. Ele insistia, insistia. Procurava condes, cardeais, madames. Uns riam, outros não o viam. Talvez fosse maluco. Enfim lhe trouxeram a resposta do monarca. Resposta ingrata e desairosa: A França não precisava de desenhistas brasileiros. Fosse desenhar o rei do Brasil. Se é que lá havia rei. Ou se é que o Brasil existia mesmo.
Desiludido, ou mais iludido ainda, voltou à Pátria. E procurou seguir o conselho de Luís XVIII. Depois de muitas idas e vindas, conseguiu ver o rei. Extasiou-se. Finalmente diante de um rei. Embora brasileiro e português. Nesse dia adoeceu, teve insônia, embriagou-se. Tudo em vão. Pois o retrato que fez do rei quase o levou à prisão. D. João indignou-se. Aquilo não era arte. Aquela garatuja não valia nada. Um desaforo! Rei com cara de plebeu. Não, não parecia um rei. Aliás, aquilo não era retrato. Aquele idiota não desenhava nada.


ESPUMAS E ESTRELAS

O físico Alexandre Neves viveu seus últimos dias num manicômio. Completamente abandonado pelos familiares e ex-colegas.
Alexandre fez-se famoso a partir de 1961, quando conheceu Hannes Alfven e se dedicou ao estudo das teorias do futuro Nobel. Logo passou a publicar artigos e ensaios, na revista Física, onde demonstrava erros científicos nas teorias do físico sueco.
Seu mais polêmico ensaio é Nova cosmogonia do sistema solar. Para alguns cientistas, não passa de “um amontoado de baboseiras”. Outros, porém, vêem neste e nos demais estudos de Alexandre os germes da física do século XXI. Jornais e revistas publicaram declarações de uns e outros. Para logo desmentirem tudo. Os jornalistas simplesmente haviam distorcido suas palavras. O Doutor Cícero Plasmático chegou a brincar: nunca falaria ou escreveria a palavra “baboseira”. Muito menos “baba”. Preferia espuma, escuma, espumar, escumar. E cuspia latim: spumas agere in ora.
Alexandre Neves seria a grande vítima moderna da ditadura dos cientistas. Sua loucura teria sido produzida ou mesmo inventada. Seus escritos subvertiam a ordem. Não a da Terra ou a das estrelas. Porém uma ordem menor, a dos homens, ou a de um punhado deles — os físicos.
Recentemente uma pesquisadora descobriu um manuscrito, de provável autoria de Alexandre. Intitula-se Hannes Alfven: a grande mentira. Porém herdeiros do físico brasileiro disseram desconhecer o caderno. Apresentado à imprensa, negaram a existência de obras inéditas deixadas pelo “doido”.
Quem, então, escreveu o polêmico livro? Talvez Prokofiev — brincou um dos filhos de Alexandre, o pianista Sérgio Neves. E referia-se a Serguei Prokofiev, o compositor.
O citado Doutor Cícero, convidado a opinar, mais uma vez gracejou: Aleksandr Prokofiev nunca existiu. Pelo menos no “meio físico”. E, se existiu, não passou de invencionice de Alexandre Neves. Pois uma das afirmações mais bombásticas da obra diz serem as “ondas de Alfven” descoberta de Aleksandr Prokofiev, em 1936, e, assim, deveriam denominar-se “ondas de Prokofiev”.


BELO CÉU, VERO CÉU

Enquanto vasculhava o céu com sua luneta, Gilbert Seurat sonhava com a Terra. Queria conhecer o mundo, viajar pelo planeta. A Europa já lhe parecia a própria casa. Amigos o aconselhavam a se radicar na Alemanha. Falavam de Effelsberg. Porém Gilbert guardava rancor aos alemãos. Seu pai havia morrido em combate aos nazistas. “Coisas do passado”, justificavam. Fosse, então, para os Estados Unidos, se não preferisse a União Soviética ou a China. “O observatório de Fred Whipple...”. Não, nada de comunismos, ideologias, guerras nas estrelas. Queria apenas descobrir outro planeta. E entrar para a História da Astronomia. Por que não chegar ao “teto do mundo” e de lá, com sua luneta, avistar de mais perto a explosão do Universo?
Falaram-lhe de um brasileiro chamado Rubens de Azevedo. Onde ficaria o Brasil? A leste de Plutão, ao sul de Cayenne. Pegou a luneta, levou-a ao olho e sonhou. “É um estudioso da Lua”, leu numa revista.
Partiu de Paris num dia de tempestade. Chegou a Fortaleza numa “tarde belíssima”, como escreveu a um amigo. “Beau ciel, vrai ciel, regarde-moi qui change!”
Apresentou-se ao colega cearense como amador de astronomia. E deu-lhe de presente uma réplica da luneta predileta de Johannes Kepler.
Conversaram durante mil noites e dias. Seraut leu tudo o que lhe apresentou Rubens. Aprendeu logo a língua de Alencar e a fala do Ceará.
Num dia de tempestade viajou de volta a Paris. Levava na bagagem alguns novos astros. E diversos estudos sobre a origem da Lua.


POR CULPA DE ANOUILH

Três dias antes de morrer, Jean Anouilh recebeu a visita de Jorge Menezes. Testemunhas oculares referiram-se a um grande susto do dramaturgo. Jorge apresentou-se em trajes de coveiro. E, pior, leu trechos de seu drama ( ou dramalhão, como diziam alguns críticos ) “Covas, o democrata do Inferno”.
Falaram em mau agouro. Inimigos do dramatista afirmaram ser ele responsável pela morte de muita gente. Sobretudo de colegas de arte. Assim, ficaria só no cenário do teatro brasileiro. Teria pauta com o Diabo. Ou poderes maléficos. Um bruxo, enfim.
Jorge Menezes dizia ter nascido em Oeiras, Piauí. E disso se vangloriava. Ser oeirense causava-lhe orgulho. Muito mais do que ser piauiense e brasileiro. Falava sempre da antiga capital do Piauí. E chegou a escrever o drama Major Fidié, onde narra batalhas travadas entre portugueses e brasileiros durante as lutas pela Independência. Cenário: Oeiras.
A primeira mulher de Menezes dizia, no entanto, ser ele natural do Rio de Janeiro. O pai português de Trancoso. A mãe brasileira e mulata. Mais de dez irmãos, todos pobres.
Começou motorista de madame de Ipanema, fez-se amigo de jornalistas e boêmios, formou-se em Comunicação Social e decidiu ser dramaturgo. Não perdia uma só encenação de Nelson Rodrigues.
É desse tempo a obsessão por fantasias. Vez por outra aparecia vestido de padre, palhaço, mordomo, coveiro... Dizia estar vindo do teatro. Sim, além de escrever dramas, representava.
Ligado ao Partido Comunista e amigo de diplomatas de direita, em 1986 Menezes viajou à Europa. Não gastou um centavo. Hospedou-se em hotéis cinco estrelas, jantou nos melhores restaurantes. E ainda namorou beldades do cinema. Diz ser pai de um dos filhos de certa Sandrine Deneuve. E que Alain Resnais se interessou muito por seus dramas. Para transformá-los em filmes.
Em Paris, Londres, Roma freqüentou redações de jornais, teatros, cafés, livrarias. Conheceu escritores, atrizes, jornalistas e, sobretudo, gente de teatro. E acabou responsável pela morte de Anouilh. Aproveitou-se da acusação para escrever o drama Caro Jean, pasticho de Caro Antônio, do francês. Nunca encenado. Segundo Jorge Menezes, por culpa de Anouilh.

LAMPIÃO À ITALIANA

Ruggero Figini descobriu o Brasil em 1974. Desembarcou na Bahia e logo tratou de conhecer o Pelourinho. Porém queria muito mais que acarajé e candomblé. Cobiçava um papel no filme Dona Flor e seus dois maridos. De preferência o de um deles. Procurou Bruno Barreto. Talvez estivesse no Rio de Janeiro. E Sônia Braga? Ninguém sabia dela.
Lembrou-se do tempo das filmagens de I Girasoli. Nunca esperara ser trocado por Mastroianni. Desesperou-se, arquitetou escândalos. Imaginou até uma agressão física a De Sica.
Desde menino Ruggero sonhava nos braços das mais belas mulheres da Itália. Um dia ainda contracenaria com Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Monica Vitti, Virna Lisa. E ainda escolheria o diretor. Fellini com fulana, Visconti com sicrana, Antonioni com beltrana. E alcançaria o Oscar. Mais de um. Seria famoso no mundo inteiro.
No entanto, os anos se passavam, as atrizes envelheciam, e só lhe sobravam pequenas atuações em filmes medíocres.
E por que não se fazer cineasta? Tudo dependia de encontrar um belo roteiro. Logo alcançaria a fama de Rosselini, Pasolini, Bertolucci. Fossem para o inferno Arnaldo Jabor, Bruno Barreto, Cacá Diegues e todo o alfabeto do cinema brasileiro. Sim, iria dirigir um filme monumental: a vida do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Em italiano o título seria Il Lampione.
Restava encontrar o roteirista. E por que não o já velho amigo Airton Acaiaca? Até porque Airton e Virgulino haviam nascido no Ceará. “Não, Ruggero, Lampião não era cearense. Nem Airton. E onde nascera o roteirista? “Dizem que é mineiro, se não for baiano”. O italiano concluiu: “Melhor assim. Filmaremos em Canudos”. E pôs-se a falar de Antonio Conselheiro.
Para Ruggero, o Lampião do roteirista mais parecia um gângster, um Al Capone. E terminaram se desentendendo. O cineasta chamou Airton de incompetente. Não conhecia a História de seu próprio povo. O brasileiro também não se conteve: “Aventureiro, ator fracassado, impostor”.
Dias depois dessa rusga Ruggero Figini regressou a Roma. Não levava nada, a não ser o roteiro de Acaiaca.
Il Lampione alcançou enorme sucesso na Europa. Não teve, no entanto, a direção de Ruggero, que preferira vender o roteiro a um produtor cinematográfico.
Uma fortuna.


PINTANDO O SETE NA BÉLGICA

Há na “Casa de Benedito Moreira” uma escultura de Constantin Meunier. Consta, porém, ser do brasileiro a peça. Chama-se Homem cansado, e deve ser de 1891.
Na “Casa”, dirigida por Heloísa Moreira, bisneta do escultor cearense, estão alguns utensílios domésticos e objetos de trabalho usados e utilizados por Benedito. Sem contar esculturas e quadros tidos como de sua autoria. Os mais valiosos seriam uma estátua de Napoleão, um retrato de Darwin, máscara de Brahms. Os quadros parecem imitações de obras famosas. O mais estranho é copiarem pintores de todas as épocas: Hugo van der Goes e Grant Wood, Adriaen van Ostade e Toulousse-Lautrec, Hans Holbein e Paul Cézanne, numa miscelânea dos diabos.
O escultor-pintor brasileiro viveu na Bélgica, entre os anos de 1887 e 1896. Teria sido “discípulo” de Meunier. E também amigo de James Ensor. Obras como “A entrada de Cristo em Bruxelas” e “Máscaras singulares” teriam nascido diretamente da orientação de Benedito. Soltasse mais a fantasia. Introduzisse nas cenas do cotidiano figuras de sonho, como máscaras e esqueletos.
Meunier teria lamentado o destino de seu colega. Aquilo levaria Ensor ao fracasso. Ninguém compraria seus quadros. E Moreira teria respondido: melhor para você, meu caro discípulo.
Para Caio Barroso, no entanto, tudo isso é mentira. Há uma só verdade: Benedito furtou esboços de James Ensor e de Constantin Meunier.
Heloísa não chegou a conhecer o bisavô famoso. Desde cedo, porém, dedicou-se a seguir os passos de Benedito — quer pintando e esculpindo, quer preservando-lhe a memória. Escreveu até um livro: A Influência de Benedito Moreira na Obra de Constantin Meunier. Um equívoco clamoroso, segundo Caio Barroso. Ora, se influência tivesse havido, o influenciado teria sido Benedito. Como não pintou nem esculpiu nada durante sua longa vida, a influência não existiu. E, por não constar ter Meunier sido gatuno, a verdadeira arte de Moreira nada deve ao belga. E Caio assim define seu compatrício: “astuto ladrão de esboços, quadros e esculturas. Mais um trapaceiro no mundo das artes”.


RATO SONÂMBULO

O compositor Francisco Vitória viveu entre 1731 e 1800. Deixou pouquíssimas composições. Algumas sonatas, meia dúzia de árias, cantatas, concertos, fugas, fantasias, serenatas e uma sinfonia inacabada. A mais conhecida é a Sonata Sonâmbula para Violino.
Vitória quase nada viveu no Brasil. Toda sua formação musical se deu em capitais européias. Em Paris conheceu grandes nomes da música, como Jean-François D’Andrieu. Sonhava tornar-se organista. Ser um novo Bach. O sucessor de Jean na capela real. Tais fantasias, no entanto, jamais poderiam se realizar. Faltava-lhe talento, embora tenha imitado compositores do tamanho de Haendel e Haydn. Além do mais, o ser brasileiro significava impedimento ao cargo. Por último, tocava órgão como o pior dos organistas.
Pesa sobre ele grave acusação: quase toda sua obra seria resultado de plágio. Há quem diga mais: teria ele se apropriado de originais de compositores como Bach e Buxtehude. Suas fantasias e fugas, segundo estudiosos, têm a marca de Bach. Sua Sonata Sonâmbula seria obra de Jean-François D’Andrieu.
O furto poderá ter ocorrido às vésperas da morte do organista francês. Vitória parecia a sombra de Jean. E chegou ao cúmulo de se candidatar a depositário dos despojos do compositor. Muito antes da morte deste. D’Andrieu repeliu prontamente a proposta. Mesmo assim, o brasileiro não se afastou dele. Seguiu-lhe os passos até a morte.
Segundo os acusadores, a sonata de D’Andrieu nunca havia sido divulgada. Talvez não tivesse passado de rascunho.
Assim, Francisco Vitória seria apenas um rato de orquestra. Um compositor sonâmbulo. Ou coisa pior.

VERS SANS RIMES

Gaspar Barbacena conheceu Laurent Tailhade numa noite de 1894. Dias depois, um atentado anarquista quase matou o poeta francês. No ano anterior, Laurent havia defendido Vaillant da acusação de ter lançado uma bomba contra a Câmara.
O brasileiro visitava a França pela segunda vez. Queria conhecer mais novidades da literatura européia e levá-las ao Brasil. Na bagagem conduzia exemplares da Machado, Cruz e Sousa e outros, além de seus próprios escritos. Versos em português e francês. Poesia de inspiração revolucionária. Odes à Comuna e aos revolucionários de 1871. Inclusive a Édouard Vaillant. E sátiras aos burgueses, aos inimigos do socialismo. Teria sido um Castro Alves mais próximo dos ideais socialistas. Um pré-modernista, predecessor de Oswald de Andrade.
Numa carta a seu irmão Edmundo, diz Gaspar ter Tailhade elogiado os seus versos. E anuncia sua viagem de regresso. Logo, porém, se daria a grande tragédia. A viagem não se completou: Barbacena desapareceu no mar. Talvez por vontade própria, segundo as investigações policiais. Apesar de nunca ter manifestado índole suicida.
Em 1987 apareceu em Paris um livro intitulado Vers Sans Rimes, como de autoria de certo Jacques Vaillant. Talvez neto daquele anarquista do tempo de Laurent.
Informa Jair Barbacena tratar-se de um conjunto de poemas de seu esquecido ascendente.
Gaspar viveu menos de trinta anos e nunca publicou um só verso. Porém chegou a divulgar no Brasil obras de autores franceses, sobretudo Laurent Tailhade.
Em poder de Jair Barbacena há um calhamaço manuscrito. São os versos originais de Gaspar, em português e francês. Os mesmos publicados sob o título Vers Sans Rimes. Há também uma carta datada de 13 de dezembro de 1893 e dirigida a Gaspar. O autor é Laurent. Quase ilegível, fala de agitações políticas em Paris e tece loas a um anarquista chamado Vaillant.

CONCÓRDIA NA ÓRBITA DA TERRA

Salomão Morais foi o primeiro brasileiro a traduzir o De Orbis Terrae Concordia, de Guillaume Postel. Aliás, contam-se às dezenas suas traduções de obras antigas. Entre outras, citam-se O Mistério de Eva, Canção dos Nibelungos e A Morte do Rei Artur.
Latinistas de renome, como Girolano Bramante, apontaram inúmeros senões nessas traduções. Há trechos ininteligíveis.
Autor de alguns bons livros — sobretudo o Cantares — Salomão é um dos mais conceituados estudiosos da vida e da obra do escritor francês. Já é clássico seu ensaio Postel: Cristão ou Muçulmano? No entanto, seu mais polêmico livro é Postel na Meca, onde relata e analisa a passagem do professor pela cidade sagrada do Islã.
Um dos trechos mais intrigantes do ensaio é este: “O jesuíta beijou a pedra negra. Em seguida desnudou-se e, como em delírio ou êxtase, tentou abraçá-la. Seu corpo tremia. Em seus olhos havia certa cupidez asinina”.
Deboche ao islamismo — sentenciaram alguns.
O estudioso brasileiro, dono de uma das mais ricas bibliotecas particulares do mundo, é também acusado de falsificar a História e de furtar livros raros de bibliotecas públicas. Seu exemplar do De Orbis teria pertencido à Biblioteca do Vaticano. Salomão alega ter adquirido o livro numa loja de antigüidades, em Paris. Se alguém o furtou, este alguém seria membro da Igreja Católica.
Além disso, o acervo iconográfico de Salomão contém gravuras tidas como falsificações. Numa delas, Guillaume Postel aparece montado num camelo e lendo o Alcorão. Segundo Salomão, a pintura é obra de Frans Post.
Entidades holandesas e francesas ameaçaram processar o literato brasileiro. O autor de Paisagem Rural não pintaria tela tão ordinária. As pinturas atribuídas a Post seriam obra de Hubert Heinsius, um impostor. Tendo vivido entre 1655 e 1723, apresentava-se como herdeiro do pintor holandês. Pintava quadros de notória pobreza conceptual e os vendia como se pintados por Frans Post.

FALSIFICADORES E CANIBAIS

Florídio Mandrano deixou apenas um caderno manuscrito. A caligrafia é um primor. Nenhuma rasura. O texto, no entanto, é pura desordem. Como se sua mente estivesse em ebulição. Nas primeiras linhas tentou justificar o não ter escrito nada até então. Fala de medo da mediocridade e da imitação. E cita trecho do livro A Arte da Falsificação, do sueco Vilgot Sucksdorff: “Quem falsificou a Bíblia? Segundo Domitius Tacitus, o primeiro falsificador do Gênesis teria sido o apóstolo Paulo”.
Tacitus escreveu uns comentários ao Gênesis, em latim. O livro permaneceu ignorado durante séculos. Sua primeira tradução se deu em 1785, por Nikolai Tcherenkov. No prefácio, o tradutor russo afirma ter tomado conhecimento da existência dos “comentários”, ao ler uma carta de Karl Thorvaldsen a Hans Staden. Nela, o pesquisador dinamarquês anuncia a publicação de seu Os Canibais da Ilha de Java.
Um dos capítulos mais intrigantes do livro de Thorvaldsen, intitulado Como devoravam crianças, traz a seguinte descrição: “O matador aproximava-se da vítima e desferia-lhe um golpe na nuca. Logo lançavam o corpo à fogueira. Ainda mal assado, retiravam-no e punham-se a esfolá-lo”.
Acusaram Thorvaldsen de falsificar Staden. Todas as informações constantes de seu livro teriam sido colhidas em Staden. Ou seja, transportou os canibais do Brasil para Java. Criativo, narra minuciosamente diversas cenas de canibalismo.
Ao final do caderno, Florídio cita o livro Fundamentos do Canibalismo, de Sándor Thököly. Nenhuma referência ao livro de Thorvaldsen. Há, porém, diversas citações de Staden.
Uma das idéias centrais do escritor húngaro associa o ato canibal ao ato sexual. Neste, o sujeito passivo da relação estaria sendo devorado pelo outro. Sobretudo nas relações não atinentes à procriação, como o coito anal e a felação. E cita o exemplo clássico da aranha fêmea, que devora o macho após o acasalamento.
É também de Thököly o polêmico ensaio Violência e Morte. Analisa o comportamento violento de animais e do homem. “A inteligência superior — diz — não impediu que o homem continuasse violento. Nesse aspecto, o homem moderno em nada difere do primitivo”.
Sándor Thököly foi vítima da violência humana. Assassinaram-no a facadas numa rua de Budapeste. A polícia nunca descobriu o homicida. Ou os homicidas. Já Florídio Mandrano foi devorado por um leão de zoológico.

UMA PÁGINA DE ROBBE-GRILLET

Quando Jean Denis Lanson esteve no Brasil, o repórter Guido Mocho foi incumbido de entrevistá-lo para o Diário da Tarde.
Segundo o editor, só Guido poderia realizar uma boa entrevista. “Você sabe francês, e basta”.
O repórter quis se esquivar. Ora, não entendia nada de literatura. Quando estudante, havia lido meia dúzia de romances, sem qualquer prazer. Alencar, um chato. Machado, enfadonho. E sempre confundiu Manoel Antonio de Almeida com Joaquim Manuel de Macedo. A Moreninha e As Memórias de um Sargento de Milícias lhe pareciam do mesmo autor. “E quem lhe disse que o homem é literato?”
Lanson acabara de publicar o livro Il est tard. Um jornal falava em romance. Aliás, no nouveau roman.
O editor do Diário explicou: não se tratava de literatura, mas de obra sobre ecologia.
Um colega de Guido riu de todos: andavam fazendo uma grande confusão. Estivera na França e ouvira falar do grande físico Jean Denis Lanson. Il est tard tratava da questão nuclear.
Guido dirigiu-se à Embaixada da França. Precisava esclarecer aquilo. Como fazer a entrevista, se só sabia o nome do personagem da entrevista? Receberam-no com excessiva cordialidade. Contudo nem o Embaixador sabia mais do que a imprensa brasileira sobre o tal Lanson. “Que s’est-il passé?” Talvez o visitante fosse Gustave Lanson, o grande crítico literário. Não, não. Este havia morrido em 1934.
Com horas de atraso, Guido chegou ao hotel onde se hospedava o francês. O livro? Não, não sabia de que livro falava o repórter. “Je ne sais rien, mais je voudrais savoir quelque chose”.
Passada a primeira hora, ainda não haviam chegado a qualquer acordo. Lanson só lia literatura de entretenimento. Nunca conseguira ler mais de uma página de Robbe-Grillet. E de Natalie Sarraute? Desconhecia. E Claude Simon? O deputado acusado de...? Guido mudou de assunto. E a Amazônia? Se pudesse, passaria alguns dias lá, nas praias, olhando as garotas e seus magníficos biquínis. E ria, esfregava as mãos. “Dieu me pardonne! Ah! que je suis content!”
O repórter passou à guerra nuclear. O que seria da humanidade, após a catástrofe? Lanson sorveu sua bebida e quase nada falou. “De quoi parles-tu?” Guido olhou para o teto, como para o céu, e imitou bombas explodindo: bum-bum-bum. Sim, sim, viagens pelos espaços siderais. Adorava Uma Odisséia no Espaço. Que filme! Logo, porém, desceram às nuvens, que também não podiam ver. Depois, à fumaça de seus cigarros. E flutuaram, quase mudos. Por fim, baixaram a si mesmos e, atônitos, abraçaram-se. “Au revoir!”
Cabisbaixo, Guido tomou o rumo do jornal.
A entrevista deu muito o que falar. O Diário da Tarde vendeu mais de um milhão de exemplares. Guido Bezerra Mocho ganhou abraços, aplausos, prêmios. Fez-se glorioso, de repente.
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URBI ET ORBI

Estendeu-se no leito, como se fosse santo. A idéia de uma encíclica tomava-lhe a mente desde cedo. Cogitações em elos. No entanto, uma dor no peito o fazia indisposto. O mundo pegava fogo, no seio da Igreja antigas vilanias renasciam entre colunas, pelos corredores, nos átrios. E no interior dos corpos os invisíveis seres do mal se agitavam, destruíam paredes, cavavam fossos. Precisava dormir, descansar. O fogo não se apagaria de vez, mas pelo menos algumas chamas poderiam se tornar mais brandas. Eu sou Deus. Os astros olham para mim, pequeninos. Vejo tudo, a Terra, as estrelas, o firmamento, o infinito. Sobre o chão as criaturas em permanente matança. Comem, bebem, dançam, correm, fornicam, nascem, morrem. Asco de tudo e de todos. Por que não fulminá-los com raios? Carne queimada, pronta para o consumo. Cócegas, coceiras. E se aniquilasse tudo? Cidades, campos, o mundo? Coça-se com insistência. Formigas passeiam por seu corpo. Sacode-se na cama. O mundo treme em nunca visto terremoto. Tempestades, águas revoltas, incêndios, vulcões parece explodirem a Terra. Inúmeros pequenos seres tomam conta do corpo do Papa. A dor no peito aumenta. Gases escapam do orifício. Ouvem-se estrondos na alcova. Iniciava-se a destruição do orbe. Eu sou o destruidor do mal. Mais gases infestavam o ambiente. Pelo reto saíam diminutas massas. O mundo fedia e nada o aromatizaria. Entretanto, o Sumo Pontífice sonhava além da realidade. Sentado em imenso vaso sanitário – semelhante ao sólio papal – defecava. Em baixo se formava um monte de excrementos, que aumentava a cada instante. Ao redor do vaso ou do trono as fezes se acumulavam e ocupavam todo o espaço da sala. O pobre homem sentia sufocar, fazia esforços para respirar. Os resíduos já fervilhavam, como se em processo de fermentação. E sempre a se avolumarem. Em pouco tempo, todo o ambiente se repletava de massa fecal. O ser havia desaparecido, soterrado pelas fezes. Ora, eu sou feito de fezes, eu sou um monte de fezes. Eu sou isto tudo. Mas sou Deus, antes de tudo.
Quando acordou, a cama coberta de dejetos, lembrou-se da encíclica e escreveu na parede, com os dedos sujos: Urbi et orbi.
Fortaleza, 28 de abril de 2005
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quinta-feira, 1 de maio de 2008

Contistas publicados até agora

Quase 100 contistas publicados no blog:
(para ler, digite o nome em “pesquisar blog”, no alto, à esquerda)

Adélia Prado
Adolfo Caminha
Airton Monte
Alcântara Machado
Aleilton Fonseca
Amílcar Bettega
Ana Miranda
Aníbal Machado
Artur Azevedo
Astolfo Lima
Astrid Cabral
Autran Dourado
Barros Pinho
Batista de Lima
Bernardo Élis
Braga Montenegro
Caio Fernando Abreu
Caio Porfírio Carneiro
Carlos Emílio Corrêa Lima
Cecília Prada
Charles Kiefer
Chico Lopes
Cida Sepúlveda
Clarice Lispector
Coelho Neto
Cyro de Mattos
Dalton Trevisan
Darcy Azambuja
Deonísio da Silva
Dimas Carvalho
Edson Guedes de Morais
Eduardo Campos
Emanuel Medeiros Vieira
Enéas Athanázio
Fabrício Carpinejar
Fernando Bonassi
Francisco Miguel de Moura
Francisco Sobreira
Fran Martins
Gilmar de Carvalho
Glauco Mattoso
Graciliano Ramos
Guimarães Rosa
Gustavo Barroso
Hélio Pólvora
Herberto Sales
Herman Lima
Humberto de Campos
Ignácio de Loyola
Ivan Ângelo
João Gilberto Noll
João Silvério Trevisan
João Simões Lopes
João Ubaldo Ribeiro
Jorge Pieiro
José Cândido de Carvalho
José Hélder de Souza
José J. Veiga
Juarez Barroso
Lima Barreto
Luiz Ruffato
Luiz Vilela
Lygia Fagundes Telles
Machado de Assis
Manoel Lobato
Marçal Aquino
Marcelino Freire
Márcia Denser
Mário de Andrade
Maximiano Campos
Moacyr Scliar
Monteiro Lobato
Moreira Campos
Murilo Rubião
Nélida Piñon
Nelson de Oliveira
Nilto Maciel
Oliveira Paiva
Orígenes Lessa
Osman Lins
Otto Lara Rezende
Paulo de Tarso Pardal
Pedro Salgueiro
Rachel de Queiroz
Rachel Jardim
Ribeiro Couto
Rinaldo de Fernandes
Ronaldo Cagiano
Ronaldo Correia de Brito
Rubem Fonseca
Sérgio Faraco
Sérgio Sant’anna
Sérgio Telles
Sônia Coutinho
Tânia Jamardo Faillace
Tércia Montenegro
Victor Giudice


Necessitamos publicar os seguintes contistas e outros:
(Quem puder ajudar, favor enviar um conto, pelo menos)
Breno Accioly
Elias José
Flávio José Cardoso
Gerardo Mello Mourão
Holdemar Menezes
João Antônio
Jorge Medauar
José Edson Gomes
Lourenço Cazarré
Mário Pontes
Miguel Jorge
Miguel Sanches Neto
Moacyr C. Lopes
Samuel Rawet
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sábado, 26 de abril de 2008

Edson Guedes de Morais

Edson Guedes de Morais nasceu em Campina Grande (PB) em 1930. Reside em Pernambuco. Poeta, contista e crítico. Autor de Vinte Anos Outra Vez e a Virgindade do Mundo, contos, 1987, e outros livros. Estreou em 1956 com Dispersão, poesia. Seguiram-se A História Verdadeira da Morte do Delegado, poesia-cordel, 1963; Um Homem e os Homens Lá Fora, contos, 1963; In Oito, 1964, poesia; Artesãos do Nada, 1973, romance; Outras Lembranças, Outra Casa, Outros Mortos, 1976, novela; Monstro, Besta-Fera, Como Saiu nos Jornais, 1975, teatro; As Coisas, Assim Como São, Assim São, 1978, teatro. Tem romances e peças de teatro inéditos.


Vinte anos outra vez e a virgindade do mundo

O sol a prumo, tininte, as sombras por debaixo das coisas, as sombras das árvores à roda dos troncos, geometricamente, sobre os dormidos da grande sesta. O céu ardendo, campanulado de prata, sobre a casa, o lago, a vastidão perdida nos confins vislumbrados, sobre o caminho, o que chamavam de caminho, passagem de ventos, remoinho, sem vegetação, terra crestada, pedra, pó, quase esquecida lembrança de gente passando, chegando. Silêncio. Imobilidade.
Uns nas redes rotas, outros nos batentes das portas ou sobre troncos e pedras sombreados, tosquenejando, baba escorrendo, cheiro forte de sumim, de tabaco, de urina velha pelos cantos. Velhas paredes, velho teto esburacado, velha mesa, um copo, um livro, uma faca.
De repente, um grito. Sobressalto, cunha no sono, no entorpecimento de depois do sumim. Confundidos, sem entenderem, ainda, aquele grito, a própria surpresa de haver um grito, um silêncio maior, depois, expectante, e o burburinho, ruído de passos, novos gritos: “No Caminho!” Alguns deixando a casa, suas ruínas, as sombras das árvores, subindo ao mirante, confirmando o grito: “No Caminho!”.
Impulsionados por uma força nova ou muito antiga – fermento ou lia de muitas noites de esperança ou desesperação, sempre um deles subindo e no alto do mirante o olhar no longe – tentam correr. Alguns se sentaram, sem forças para mais, no desconforto, torpor depois dos sonhos, lembranças perdidas, lugares, nomes, rostos – nevoeiro, imagens morrendo – papel amarelado, tinta esmaecida, o livro, a revista, onde as mulheres viam um rosto sem rugas, cabelos escuros, palavras como família, filhos, juventude, amor, coisas antigas, quase esquecidas, como os nomes dos que se perderam pelas montanhas, dos que se afogaram por um excesso de sumim, como os nomes esquecidos daqueles que, loucos ou conscientes, saíram em dias nebulentos, contornaram a casa para o lado do abismo e se precipitaram. Muitos ainda conseguiram, no entanto, levantar e caminhar, chegar ao pátio, e puderam ver, aproximando-se, o inacreditável, o visitante cercado pelos outros, caminhando depressa, à frente dos outros, como se fosse ele a guiar aqueles que, em trepolia, tentavam alcançá-lo, tocá-lo, abrindo espaço maior junto da casa, quando os que saíam levantavam os braços em susto e cumprimento, dando as boas vindas, indicando a sombra, o banco de pedra.
E o visitante sentou-se, tirou o chapéu, aliviou os pés, despiu o casaco, aceitou a água, perguntou quem eram, se disse perdido, desencaminhado naqueles ermos, vindo de outras terras. E eles ouviram aquela voz clara, precisa – mais que as palavras, o som, a música; e olhavam aquela pele lisa, rosada, aqueles cabelos negros esvoaçantes; bastavam-se naquela contemplação: o movimento das mãos, os gestos leves, desprendidos, o nada esforço das pernas a se alarem por sobre o banco, aquele fruir de energia, aquela radiação que lhes acendia no peito tumescido de sombras o esquecido calor, afogando cansaços e desesperanças. E, quando ele riu, todos riram com ele: suas bocas se abriram, gengivais, em risos, coisa nova ali, que eles gozaram sem poupança, em suspensão, como crianças excitadas no jardim zoológico, como crentes em adoração aos pés do altar, como velhos que se lembravam da alegria.
O suor a lhe descer do rosto, ao longo do pescoço – inútil a sombra e os repetidos goles de água fresca – a roupa aderente ao corpo: ele sentiu-se cansado; aquelas criaturas o incomodavam, aqueles olhos chamejantes o perturbavam. Ele esticou as pernas, recostou-se no banco e fechou os olhos por um momento. Estaria sonhando? Que língua falava aquela gente? Nenhuma resposta lhe deram às suas perguntas: sorriam, pareciam dementes, mas, estranhamente, sentia-se aturdido com a força que parecia vir daqueles olhos e amedrontado por continuar a senti-la mesmo com os olhos fechados. Afastando o calafrio, olhou à volta, sorriu um sorriso largo, ostensivo – e todas as bocas se abriram à sua volta, sorrindo. Levantou-se e caminhou, saindo da sombra. Sentiu que o conduziam para o lago, por entre as árvores.
No lago, algumas mulheres entraram na água e se sentaram no raso, entre as pedras; outros molharam os pés, as mãos e o rosto e se contentaram; os demais fizeram um círculo, o visitante era o centro, e eles o olhavam e ele se sentiu envolto, flutuante, desligado, leve e, ao mesmo tempo, presa, coisa ancorada, peixe na rede; maior, então, o desprazimento de ver aquela gente como zumbis de olhos acesos, em desvairança, ossos muxibentos sob os farrapos, peitos e sexos descobertos.
A superfície do lago uma chapa de aço, um grande espelho ao declive do sol; os que estavam na água pareciam a gosto e ele, o visitante, quis, também, aquele refrigério. “Sim, eu quero”, disse alto, como se o tivessem convidado. Despiu a camisa, tirou os calções, a malha e, desnudo também de qualquer cuidado, caminhou para dentro do lago, sob a luz intensa que caía oblíqua, reverberava e se espargia, envolvendo seu corpo, convergindo para ele e, simultaneamente, como se irradiada dele, de seu corpo branco-dourado-nacarado, mirificamente, segundo o viam aqueles olhos ansiosos enquanto ele corria para o meio do lago.
Elasticidade, ritmo solto, espelho quebrado se refazendo, calicromia, esferas douradas, opalescentes, os respingos brilhantes salpicados, rolando na pele vibrante. Abraço, grito partido, instante suspenso. Ele pulou, mergulhou; completou-se o grito. Mas logo, de novo, o corpo surgindo, recriando o mundo.
Alguns caíram apagados, dormidos para sonhos mais leves; outros correram, revigorados, para o meio do lago, contaminados, possuídos, soprados de novo, transfigurados, pois se viam, reviam-se, naquele corpo jovem, tinham vinte anos, outra vez, e a virgindade do mundo. Não podiam deixar, novamente, lhes escapasse a Primavera: correram para ela, lutaram por ela, prenderam-na nos braços, aos gritos, desesperados, garras fincadas, espadanando sangue e a areia do fundo, amontoado de corpos derrengados, mas, naquele momento, possuídos da febre, como no tresvario de mil frutos de sumim.
Depois, um corpo rijo amolentado – postura de ave após o tiro, braços abertos, inúteis asas sobre a água, sopro desfeito – mancha crescendo rubra, ocaso do sol por sobre o lago.
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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Maximiano Campos

Maximiano Campos nasceu no Recife, em 1940, e morreu em 2008. No final da década de 60, publicou o primeiro romance, Sem Lei Nem Rei, transposto para a música por Capiba, com um longo prefácio de Ariano Suassuna, que analisava as qualidades de sua obra e o desenvolvimento da literatura nordestina. Na década de 70, publicou o livro As Emboscadas da Sorte, onde se encontra o conto "Na Estrada", um dos seus melhores trabalhos literários e dos momentos mais altos da literatura brasileira. Em 75, a Editora Artenova, do Rio de Janeiro, publicou a novela Major Façanha, que se transformou, imediatamente, num sucesso de crítica e de público. A Memória Revoltada foi publicada no início dos anos 80, pelas Edições Pirata, em co-edição com a Civilização Brasileira. Escreveu um longo ensaio para o posfácio do livro A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, saudando as qualidades do autor de O Auto da Compadecida. Tem contos publicados em várias revistas e antologias brasileiras, além de livros para-didáticos. Publicou duas antologias e deixou muitos contos inéditos.

As feras mortas

Você pode dizer que é mentira minha. Quem sabe? A verdade é que estou sendo perseguindo. As notícias dos jornais falam de misérias. Alguns amigos se afastaram, arrebentaram-se algumas esperanças. No rastro dos meus fracassos, chegou a angústia endemoniada. Mas, o pior é o tempo que me persegue. O tempo anda me perseguindo. O tempo do relógio, o que me escraviza na repartição, e o outro: o tempo comum a todos nós, espectadores dos grandes desassossegos da ambição universal que, às vezes, assume a forma de massacres, guerras, explosão de ódios, como espasmos epiléticos da humanidade. O tempo é um calhorda, tanto serve a Deus quanto ao Diabo. Você está rindo, mas eu lhe digo: o tempo é um assassino perigoso. Mata a mocidade, desejos, amizades, depois, na velhice, dá o golpe final no que resta de nós. Meu amigo, a realidade nem sempre é a verdade. Além do mais, cada qual tem a sua. Sabe de uma coisa? A realidade também anda me perseguindo. Agora é que você vai rir mesmo, mas vou lhe dizer: eu sou o que sonho. Eaqui, nesta sala, o meu sonho anda solto, fera liberta, desembestada em descampos sem cerca nem dono. A realidade quer arrebentar comigo. Mas eu vou me proteger com o sonho. Esse vai ser o meu castelo, nele vou colocar o mundo verdadeiro, o descompromissado com as etiquetas, os horários, as convivências interesseiras. É assim mesmo: a realidade quis me fazer medo. O tempo quis e quer acabar comigo. Sei que há dois grandes circos armados por Deus: o da vida e o da morte. O danado, mesmo, é o preço que se paga para tomar parte no espetáculo. Os que têm fé afirmam que o circo da morte é limpo asseado. Mas ninguém, ainda, conseguiu sair dele e voltar para contar aos que estão no circo da vida como é o espetáculo. Pode até ser o silêncio. Não sei porque, mas acho que o tempo é um palhaço maldoso e meio sem graça. E a realidade é uma velha atriz cansada, com uma maquilagem agressiva e a mania de dar más notícias. E a nossa atuação nisso tudo? Nisso tudo não, no circo da vida. Obrigam a gente a entrar na jaula do leão, dar saltos mortais, aplaudir o palhaço, ser o palhaço, e tudo isso sem repouso, mudando sempre de lugares. Pois bem, não saio mais desta sala . Sei que o tempo não é um cão que a gente enxote com facilidade, nem a realidade apenas uma percepção, espécie de fotografia da obra de Deus. Fechei os olhos para toda essa farsa. Sonho. Pra mim, sonhar é que é viver. Olhe: esta casa tem duas salas: numa coloquei o passado, noutra, o futuro. O presente não me interessa muito. Além do mais, o presente é feito água de rio, quando a gente vê já passou. E nunca se pode distinguir a que passou da que está passando e da que vai passar; o importante é o rio. Naquela sala, ali em frente, há dois retratos: um de Napoleão e outro de César. Todos os dias eu indago a eles: "Onde está agora o poder de vocês"?
- E o que é que eles lhe respondem?
- Você está querendo fazer deboche. Não o chamei aqui. Eles não respondem nada. Claro que não poderiam responder, a realidade não deixa que eles respondam.
- O que é que a realidade tem a ver com isso?
Tem a ver que a realidade não vale grande coisa. Olhe, você não devia estar aqui conversando comigo. Você só acredita... Bem, mas não quero julgá-lo. A realidade é o que estou conversando com você, os móveis que você está vendo ao meu redor, a hora que o seu relógio está marcando, as minhas feições, o timbre da minha voz. Mas o meu sonho você desconhece. Bem, deixemos isso pra lá. Napoleão e César estão perdidos, um apunhalado, e o outro dizem que foi envenenado.
- Você está um bocado confuso. Não estou entendendo direito o que está querendo dizer.
- Ah, você está dizendo que me acha confuso. Não foi isso o que quis dizer? Como? Não compreende o que estou falando? Mas não me preocupo com essa sua opinião. O que mais exige compreensão é a realidade, e esta também me persegue, essa miserável. O meu sonho? Olhe, para pessoas feito você, que vivem a fazer perguntas e indagações, os sonhos são feras mortas. As explicações, às vezes, matam. Mas você não vai matar os meus sonhos. As minhas feras estão vivas e libertas, correndo nos descampos ensolarados da imaginação. Sei que, um dia, os meus sonhos serão feras mortas. Mas eu carregarei comigo estas feras até que o tempo coloque cercas nos descampos e apague todas as lembranças. Um homem vale o que valem as suas feras.
Não me faça mais perguntas, você está atrapalhando tudo.
- Mas, você mesmo, no início da conversa, se queixou de que estava perdendo alguns amigos. Pensei que você estava precisando de apoio.
- Olhe aí, você querendo botar lógica nas minhas palavras. Você não tem nada a ver com o que eu digo ou deixo de dizer.
- É, acho que vou embora. Lamento muito ter encontrado você neste estado.
Foi embora. O sujeito que estava conversando comigo foi embora. Mas eu ainda estou falando. Continuo a falar. Que importa que não estejam me escutando? Agora mesmo vou colocar outra pessoa para me ouvir. Pronto, outra pessoa já está aqui na sala. Vou botar essa outra pessoa para conversar com Napoleão e César e ficar ouvindo a conversadeles. A pessoa está dizendo que não precisa conversar diante dos retratos. Tem razão. Os dois guerreiros já estão aqui, na sala, e começaram a conversar com o visitante. Já estão discutindo há duas horas. Vou entrar na conversa: daqui a pouco, eles se atracam. A conversa está ficando desagradável porque a ambição deles já está aparecendo. E, vou acabar com essa conversa. A ambição é danada de parecida com a realidade e a realidade é minha inimiga. O meu sonho agora está liberto e o meu silêncio me apazigua. O meu silêncio, essa fera de estimação. Mas por favor, não zombem. Volto a apelar: acabem com esses risos! Continuam rindo? Pois bem, os retratos estão nos seus lugares, ninguém conversou nada. É isso que querem que eu diga? E o meu silêncio? Ah, está solto no sonho, nesse descampo ensolarado, nessa imensidão das impossibilidades conquistadas porque imaginadas. A conversa pára aqui. Mas, na verdade, ela continua, e as feras viram rebanhos, o tempo acovardado vai fugir. O tempo é um covarde, foge sempre, arrastando a mocidade. Estou sonhando, por isso me calo. Os pensamentos partem na imaginação rumo ao outro circo. Vou entrar lá, vou entrar naquele circo, no outro, onde os espetáculos não devem ter tristes intervalos. O intervalo, o último, é agora, pronto, já estou prestes a ultrapassá-lo. Depois, talvez meus amigos entendam que não quis ofendê-los, é que o outro circo estava abrindo para mim as suas portas. E a morte é a única certeza que pode trazer alguma novidade.
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sábado, 19 de abril de 2008

Astrid Cabral


Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda, transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 em conseqüência do golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa. Publicou diversos volumes de poemas e contos.



Águas represadas

Terei eu três anos? Pouco importa. É quando me sinto inaugurando o mundo dentro de enorme bacia de alumínio cheiinha d’água. Estou ao sol e o sol se multiplica e se esfacela em reflexos que dançam e ondulam sob minhas mãos. Em vão tento agarrá-los, esses pseudos peixes. Bato no corpo da água fresca, fria, penetrável. Corpo que se fende, salta, saltita, se estilhaça em gotas que espirram das bordas molhando o mosaico do chão, ou se recompõem rapidinho, escorrendo por meus ombros e braços, regressando à bacia e deixando-me entrever o corpo imerso, barriga, pernas, pés, tudo oscilando, mesmo que eu fique imóvel. Chamam-me e me finjo de surda, atenta que estou ao chapinhar da água sob as palmadinhas que improviso transbordante de euforia. Tenho o rosto mais úmido que focinho de cachorro e língua de gato. Ouço dizerem, deixa a patinha na lagoa dela enquanto houver sol. O sol não se apagou. Esse dia nunca anoiteceu, sempre luminoso dentro de mim.
O tio me toma pela mão e me leva à praia. Ainda é madrugada quando deixamos a casa. Tudo é ainda um azul geral, imenso caldo de anil, mal se adivinhando o desenho do mundo. Na rua as janelas fechadas parecem dormir junto com as pálpebras dos moradores. Criança pequenina não pode tomar sol forte. Serei tão pequena assim? Me lembro da irmãzinha que ficou no berço, nem engatinhar sabe e só passeia de colo em colo. Já na praia o azul noturno começa a empalidecer. Vai ficando tão esmaecido que distingo comprida linha entre a areia clara e o mar verdeazul. Vem que aqui é bem manso. Vou caminhando, a areia umedecida cochichando no atrito de moldar-me os pés, que, adiante, param de deixar rastro e mergulham na água rasa. Depois é aquela sensação gostosa do abraço molhado me envolvendo suave, repetidas vezes, grudando-se a mim na lã molhada do maillot.
Descubro que o vento é quem franze a pele do mar. Quero permanecer com o mar até o pescoço, que o vento não sopre em mim arrepiando-me toda, enregelando-me a pele, fazendo-me bater o queixo, dentes contra dentes. Quero sentir o balanço da onda, o vaivém me tocando, ora devagarzinho, ora de supetão, os cabelos pingando sabor de sal na boca. Arregalo os olhos no fundo d’água, lá estão peixinhos passeando, brincando de nadar. Sinto-me em casa que nem eles. Nenhum me diz vai embora, seu lugar não é aqui, por isso me demoro tentando pegá-los e, quando o tio decide voltar, fico choramingando, mas tio, o sol não está forte, não vou me queimar nem um tantinho, juro.
Mas vem o dia em que vejo riachos se desatando dos olhos de minha mãe. Sou levada pra bem longe em conseqüência desse pranto. Estou num navio do tamanho de um quarteirão, lá dentro até parece uma cidade, mas o mar é bem maior, tanto que até se encosta no céu. Tiro o anel de chapa do dedo, jogo dentro de um copo d’água e ele logo se afunda. Que milagre será esse do navio tão pesado não afundar. As pessoas me seguram e dizem, cuidado cuidado senão você cai, menina, tem muito tubarão rondando o navio. Penso no mar tão amiguinho que ficou lá atrás na beira da praia e estranho aquela superfície proibida, infinita, que não posso tocar, apenas olhar à distância pelo redondo da vigia ou do convés, se alguém me vigia. No entanto me fascina saber que deslizo nas costas do monstro colossal de quem não vejo cabeça nem cauda, só o lombo, às vezes com escamas de ouro e prata. Horas há em que ele se sacode e vira pratos, talheres, entorna copos nas mesas. É como se ele fosse um simples balanço de jardim, indo bem lá em cima, bem lá em baixo, só que não chega a me molhar. Passa tempo até que amanheço sobre novas águas, de outra cor e de outro cheiro. São bem mais estreitas e calmas, de um amarelo pálido, e com o correr dos dias vão se misturando, primeiro com outras verdes cor de chuchu, mais adiante, com outras escuras, cor de café. Menina, vem ver o encontro das águas, de um lado café-com-leite, de outro café puro. O rio fica malhado como o couro de um boi gigante, quem sabe de um cavalo, pois vai correndo apressado no meio do verde, sem ficar assim paradão feito boi sonolento. Então começa minha vida no meio dos rios.
Manaus é moça debruçada no espelho do Rio Negro, que avança por ela com os longos braços dos igarapés, encharcando a saia de seus quintais, improvisando piscinas selvagens nos subúrbios. Aos domingos, além das missas, rola a alegria dos banhos nos rústicos balneários. Vamos ao parque maior resgatar o passado anfíbio. Vamos mergulhar, bubuiar, afogar e ressuscitar, fazer guerras aquáticas, inventar metamorfoses fantásticas: eu sou tartaruga, tu, maninha, és curimatã, Lacy, faz de conta ser arraia, Manão, rã, Auxi, tucunaré, Ivan é boto, Cláudio, jacaré. Ao cair da noite somos arrancados daquele paraíso, membros cansados, ouvidos entupidos, cabelos pedindo pente, e, misturado ao suave torpor fruto do dia intenso, o sonho do próximo domingo no mesmo local. Durante a semana, a condenação ao banho de cuia, a tina entre quatro paredes, a não ser que a chuva aconteça. Se trovões perturbam o silêncio das tardes, arrastando invisíveis móveis pelo soalho dos céus, os cães, tomados de pânico, se põem a latir e o alvoroço se apossa de nossos corações. Ficamos assuntando as nuvens, pastoreando com o olhar aquele rebanho que, a qualquer momento, pode se dispersar tangido pela ventania ou se transformar num imenso chuveiro. Vem chuva, cai chuva, gritamos cantando, e agradecemos a bênção descendo sobre as cabeças, ensopando blusas e camisas. Corremos a apanhar as mangas derrubadas por fortes pancadas, e vamos enchendo alguidar e paneiros, e nos dispomos a recolher a roupa secando nos varais. A do quarador pode ficar lá mesmo, os dedos da chuva vão esfregar. Sentimos os dedos da chuva na própria cara, nossos cabelos misturados aos cabelos da chuva. Corremos para que as gotas batendo nas pálpebras gerem fagulhas de luz nos olhos. Temos a impressão de farejar estrelinhas cadentes, de esfregar a cabeça num pedaço de céu que, despencado, aterrizou. Gostamos quando folhas secas, gravetos e terra vão tapando os ralos de escoamento, a casa semi-inundada mais parece um dos muitos barracos flutuantes que surgem à margem dos igarapés. Os capachos abandonam as soleiras, os pés das mesas e cadeiras vão sumindo, as pontas das toalhas arrastando nas poças. Nossa alegria só míngua quando os adultos dão cobro à enchente desentupindo os bueiros e a água vai se recolhendo na boca dos ralos, deixando de herança fina lama sobre os mosaicos da copa. Após tantas correntes e corredeiras, triviais e domésticas, tantos passeios ao cais flutuante, acompanhando o volume das águas, ano após ano, nas amuradas do porto, vendo chegar e partir canoas, catraias, batelões, gaiolas e navios de grande calado, não resisto ao fascínio das viagens. Desejo outras cachoeiras que não a caseira Tarumã de fins de semana.
Viajo atraída por remotos caudais, véus de névoa e bruma. É como se as cachoeiras cantantes me chamassem lá de dentro dos matos e florestas: Itiquira, Iguaçu, Niagara. Turista afobada, experimento o clímax da surpresa, o rápido êxtase aos pés do belo, ali debaixo de coroas de respingos, a saliva generosa da natureza me cuspindo, enquanto afronto o perigo em barcos mínimos e atrevidos. Da aventura sobram algumas fotos, tipo, vejam não estou inventando façanha, não é nenhuma mentira. Coleciono fotos, estratégia para documentar momentos de prazer. Aqui está uma: eu molhando os pés no Jordão, rio que no Amazonas não passaria de anônimo igarapé. Fico ruminando os versos de Pessoa: o mito é o nada que é tudo. Esta, sai das águas doces para as salgadas: estou com a irmã às margens do Mar Morto. Aí nos deitamos em régio colchão d’água, o que humilha todos os artigos hospitalares homônimos. Mais que a volúpia do contato com o líquido denso, cativa-nos o sossego da segurança absoluta. Sobre o mar estéril, maciçamente mineral, nada de cetáceos, peixes, moluscos, algas. Só nós duas, únicos seres orgânicos a flutuar solitárias, sem o menor esforço, sem ameaça de naufrágio ou medo de tubarão, no regaço de um mar tão morto que é até mesmo incapaz de matar.
Ao rememorar doces convivências com a água, transporto-me ao inverno de 67 em Paris. Tenho 30 anos e pela primeira vez na vida o destino me apresenta à neve. Confesso: o coração, dentro do peito tropical, se derrete de emoção igual a sorvete. Enfim, vejo com meus olhos, sinto com minhas mão o que desde menina é mito de Natal, arremedo de algodão nos galhos da árvore carregada de presentes e prendas, referência onipresente nos relatos da remota Europa. Lá vou eu pela rua, embrulhada em peles e lãs, renegando o incômodo peso nos ombros, me sentindo o próprio cabide sob a escravidão do casco, xingando o bafo de geladeira e o cárcere das botas, quando maravilha! os flocos de neve principiam a tombar de mansinho feito borboletas brancas sarabandeando, o céu desabando pétalas e o maná bíblico descendo em silêncio, solene, num gesto litúrgico de batismo. A suavidade é tal que suplanta a da chuva, o toque da água não líquida bem mais sutil, mais imperceptível. A suprema delicadeza com que me envolve o corpo não deixa rastro. Não é por acaso que neve rima com leve, a finura do gesto fazendo jus à palavra. O episódio acontece junto ao Musée Cluny. Sinto-me muito especial, outra Dama do Unicórnio, ungida pelo milenar manto do inverno. E o deleite é tamanho que esqueço a carapaça das roupas, para mim armadura medieval. Levito em plena rua. A idéia de que a água possa se condensar, se amontoar, dispor de contornos, desenhar sua forma, perder a transparência, o brilho de espelho, a lâmina mineral, a inquietação, me seduz dramaticamente. Prodígio da natureza a me enfeitiçar. Delícia, levá-la à boca misturada com mel e limão em prazerosos piqueniques na montanha. Só equivalente a, sol a pino, lamber picolés de guaraná e groselha, os rústicos cubos de gelo comprados a tostões nas tavernas de Manaus. Volta-me o prazer de pastorear os lingotes de gelo empanados na serragem, tal e qual gordos bifes d’água à milanesa. Serviam para refrescar aluás, gingibirras e demais bebericos de festas. Era tão bom encostar os pulsos no gelo a fim de esfriar o sangue que vasculharia o corpo inteiro. Ver o gelo urinando das carroças, ou a se desmanchar no mormaço das ruas, me dá a certeza de quão artificial e transitória é a carga engendrada no maquinismo da fábrica de cerveja, lá nos confins da cidade.
Décadas depois, atravesso árduos invernos de gelo em Chicago. Só o aquecimento artificial permite que a água circule nos canos. Recordo a chegada da primavera, a sensação de alívio ao contemplar a fonte de Buckingham esguichando no ar floração de altos jatos, o sussurro dos jorros ao cabo de meses a fio de total inércia, o ímpeto das águas não mais paralíticas, marmóreas, caladas. Penso neste país de águas tropicais sempre soltas, rolando nas vastas bacias de caudalosas correntes e afluentes mil, nos açudes, nos pequenos algibes e cacimbas, nos olhinhos d’água, nas bicas e, sobretudo no Atlântico que lambe o litoral leste com imponência oceânica.
Lavo minha alma em todas essas águas livres e me comprazo com os miúdos fios d’água que brotam das torneiras e me dão banho e enchem meu copo. E agradeço diariamente a serena alegria do corpo limpo e da sede saciada. Eu, também água.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Aleilton Fonseca



Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, Bahia, em 1959, viveu em Ilhéus, Uruçuca, Salvador, João Pessoa, Vitória da Conquista e São Paulo e atualmente reside em Salvador. Poeta, ensaísta e professor universitário, é graduado e mestre em Literatura Brasileira e fez Doutorado na USP. Já publicou contos, poemas, artigos e resenhas em jornais, revistas e periódicos especializados. Publicou três livros de poesia: Movimento de Sondagem (Coleção dos Novos, 1981), O Espelho da Consciência (1984) e Teoria particular (mas nem tanto) do poema (1994). Acaba de publicar o ensaio crítico Enredo Romântico música ao fundo (Manifestações lúdico-musicais no romance urbano do Romantismo). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996. Rua Rubem Berta 267, ap 402 Ed. Iana - Pituba CEP 41.820-040 Salvador- Bahia

O sabor das nuvens

Era aquele cheiro cálido de biscoitos no formo. Invadir o portão era sempre o sonho, a vontade de ver como se faziam biscoitos, quantas mãos os amassavam, enfornavam, acomodavam nas embalagens coloridas. Mas não podia, que lá sempre havia o homem a vigiar, sozinho, quieto na guarita. Ele se ocupava em ouvir um rádio de pilha, enquanto os nossos olhos escalavam o ar para colher a fumacinha, um sorriso sorrateiro da chaminé multiplicando-se em nuvens baixas. Elas levavam aos arredores de nossas casas as cores silenciosas daquele gosto morninho. Dava-nos vontade de saborear a fábrica inteira.
Era uma enorme casa. O ruído dos geradores era o aviso, o coração da fábrica pulsava: distraía-nos como um motor de nave em vôo, zumbindo nos ouvidos curiosos. Mas, o portão! Sempre fechado aos estranhos – estranho, eu?! –, a guarita e seu morador solitário, escutando aquelas notícias. Seu mundo saía do rádio e ali mesmo se esvaía. E as letras vermelhas, iradas, gritavam: ENTRADA PROIBIDA
Agora, não: eu ia vencendo portão adentro, de repente escancarado; nem portão que era, mas a entrada que me chamava sem impor condições:
– Ei, o senhor está procurando alguma coisa? - um menino me atalhou.
– Biscoitos! – respondi, sem deixar escapar-me o fio de meu próprio tempo.
– No meio do mato? - ele insistiu.
– Não, no meio da fábrica.
– ?!
– Huummm. Esse cheiro! - murmurei, sentindo-me orvalhar nos lábios.
– Cheiro de mato e insetos - ele pontuou-se no real.
– Não, biscoitos quentinhos.
– ?!
– Veja a fumaça da chaminé.
O menino olhou para as nuvens, que se iam altas e ensolaradas, me encarou e, distanciando-se um pouco, me observava de um certo soslaio, bem que desconfiava de mim. Eu estava um doido? Ambos fizemos pausas, entrecortadas de olhares esconsos. E, nesse diálogo, já de somente olhar, nos tangenciávamos, nos recortes do tempo. Cada qual seus quais, com suas estampas, em que a vida pode ser revisitada.
Era um menino e sua bicicleta, nas rodas de seu presente. Eu, então... Ele encostou o brinquedo numa estaca sobrevivente, entrou na fábrica saltando por sobre um resto de parede. E me disse que seu avô trabalhara ali antigamente. Ao se aproximar, ele afastou as ramagens tenras, por entre as touceiras de mato. Colheu um melão-de-são-caetano e o apertou entre os dedos, as partes se abrindo em estrela, expondo as carnes vivas e sementes do fruto silvestre. Era bonito, desde menino eu achava: pena que não se prestava a melhor degustação, só servia para alimentar o sonho. Aquele fruto viera do passado, entrando portão adentro para tomar conta de tudo. Eram as ramagens da mão do tempo.
– Olhe isso!
O menino tocou o pé na parede e me disse que estava tudo podre. O telhado viera abaixo, os cupins devoraram as madeiras. Eu ouvia o relato, mas não acompanhava seus olhos. Ouvia mesmo era a engrenagem trabalhando. As máquinas que nunca vi, apenas as imaginara, pelo som do trabalho que os cobogós me avisavam. Dois tijolos saltaram, quebrando-se sobre o capim rasteiro que assoalhava o lugar. Eram dois tijolos que se esmigalhavam, mas eu os revia intactos, na parede firme, na cor do óxido de terra, sempre novos.
O menino montou de um salto, saiu cavalgando a bicicleta, ia-se equilibrado. Segui atrás, sem saber ao certo por que o acompanhava. Lá adiante, vi quando ele entrou num terreiro, a casa simples mais ao fundo. Continuei caminhando, até me acercar da grade baixa do portão. Na frente da casa compunham-se pequenos canteiros de flores, acenavam-me ali nessa busca as rosas e seus espinhos. Havia uma aroeira jovem, sob a qual um banco de madeira convidava à sombra:
– Ô de casa! – me arrisquei a novo rumo.
Um homem de boa idade assomou à porta, logo me averiguava as feições, certamente para ver se me conhecia de outro tempo ou lugar. Ele veio ao meu encontro. Senti o seu esforço a esmo: não, ele não me conhecia. Eu desatei a cena:
– Boa-tarde. O senhor é seu...?
– Ivo, eu mesmo. Boa tarde. É alguma coisa? – ele respondeu e perguntou, reticente.
– Nada. Ia passando, seu neto me disse que o senhor trabalhou na antiga fábrica, então...
– Ah, sim, trabalhei, né? Mas isso faz muitos anos, pra lá de uns trinta! – ele informou, enquanto apontava o banco de madeira, num convite.
– É, faz tempo! - comentei, enquanto nos sentávamos à sombra.
– O senhor veja: o tempo passa, leva tudo. Leva a gente também - ele filosofou, buscando apoio nas nuvens.
– O senhor se importaria de me falar um pouco daquele tempo, da fábrica, como era antigamente?
A primeira frase de sua resposta foi um gesto silencioso, de quase em quase, desde seus olhos para os meus. Depois seu olhar fugiu para os galhos da aroeira que nos assistia. Esse seu Ivo, avô do menino, estava já encabulado. Eu lhe trazia aquele assunto morto, num repente voltando à luz da tarde. Ele estava surpreso. Depois de se cultivar absorto, num quase sorriso, ele murmurou, com jeito de certa tristeza:
– Ah, não sei lhe contar, não. Não sei de lá, nada.
– Mas, e o serviço, lá dentro? – eu quis insistir.
– Lá dentro, não lembro.
– Mas se o senhor trabalhou lá?!
– Mas eu só trabalhava fora.
– Ah – murmurei, desapontado.
– Quem é o senhor? – ele reverteu a entrevista, mas já eu desanimara.
Fiquei de pé, olhei a aroeira tranqüila, ele também se levantou. O menino vinha de volta, os olhos acesos em nossa direção.
– Contou a ele, vô? – disse, com o ar orgulhoso.
– O quê?
– Que o senhor era vigia da fábrica?
Para mim, esta revelação do menino, diante da fala vazia do seu avô. Meio a contragosto, o velho esfregou as mãos, com os dedos entrelaçados, e confirmou:
– Eu era só mesmo vigia.
Os três ficamos calados. Eu reconhecia naquele homem a função que nos impedia de alimentar a curiosidade, de nos arriscar à prova de alguns biscoitos. Ele ficava de guarda na guarita para que os meninos vadios não entrassem. No seu sem jeito, ele confessava isso, meio que pesaroso, até mesmo descontente. Restava-nos aquele silêncio em branco.
Então eu cumprimentei o velho com um gesto e disse “até logo”. Aquilo era mesmo um adeus. Ele, cabisbaixo, nem respondeu. Segui pelo caminho de barro, sem ânimo sequer de olhar para trás. De repente, ouvi que o menino me seguia, em meu rumo direto de volta à fábrica. Meus olhos ainda iam cheios das imagens que aquele avô não pudera me contar. Toda a fábrica para ele resumia-se à mínima guarita, o tamanho exato de sua história. Eu me senti pleno, tinha a fábrica inteira dentro de meus olhos. E agora ia seguindo, o menino guiando, sem palavras quais que fossem.
– Essa fábrica foi importante aqui, o senhor sabe? – ele se esforçava para preencher a página que o seu avô rasgara sem querer.
Eu fui seguindo pelo acostamento da pista recém-asfaltada, enquanto o menino me acompanhava, pedalando devagar. Aproximei-me do velho prédio e agora eu via de fato as ramagens que invadiam os restos das paredes, entrando e saindo pelos cobogós sobreviventes.
De novo, entrei pelo vão aberto das ruínas da guarita onde ficava o vigia: era a boca do tempo que tudo engolira. E percorri aquele mapa da fábrica, um debucho antigo perdido nas memórias envelhecidas de uns e sepultadas de outros. Eu rabiscava as imagens, preenchendo-me de todos os talvezes. Riscava por onde fosse que ficava cada máquina, onde era o forno, onde se empacotava, tudo agora um ex-existir das coisas e dos gestos. Os operários de novo a postos, suas vozes e passos abafados pela vibração das máquinas. Quantas vezes eu sonhara ser um deles! Dentro de mim a massa ia engrossando, os biscoitos tomando forma e daí ao forno, saindo de lá quentinhos para os pacotes e para as latas.
Eu não podia me perder daquele cheiro. Eu precisava me repor no saber experiente que a vida desbota e destrata, nas rimas certas do texto, a súmula do sim e do nada, as respostas que a gente colhe como frutos de safra no pomar. Estou aqui, mas cheguei tarde, contudo em data aprazada: em vez de massa, preparo um outro tipo de fermento.
O relógio sumiu de minha rota, eu me vi num ponto suspenso, as reticências entre duas vírgulas absortas, antes de assinar aquela sentença. Eu tinha de reconhecer: três gerações, o avô, eu e o menino vivíamos cada um sua própria alegoria, cada qual a mais plausível e incerta. Em cada um de nós havia uma fábrica diferente brotando de dentro do mato, que invadia os nossos olhos e os nossos dias. Dos três sobreviventes do sonho, apenas eu tinha pena e papel; e sabia sentir as cores, o gosto e o sabor das nuvens.
Tudo sobrevive nos sulcos que as letras escavam sobre o mudo pergaminho. Debaixo dos riscos, sobrevivem as demais escritas.
Eis a fábrica. Entrei de novo, sem licença. Eu andava a esmo, pelo meio do salão de trabalho, tropeçando nos matos rasteiros. Eu só queria repor as peças em seus lugares, ligar as máquinas, aquecer o forno e despertar a chaminé. O menino de novo me observava, talvez curioso ante minha empreitada. Eu perscrutava-lhe uma pergunta que ele não alcançou formular. Eu, também funcionário, em certo depois, minha função era a última de todas. Enfim, eu agora a exercia. Ouvi que a fábrica apitava e me senti arrepiar inteiro. Estava findo esse turno de trabalho. Então eu fui saindo.
– Esta fábrica está morta.
O menino disse isto e retomou sua bicicleta. Deu uma última olhada, foi-se a guiar para longe, fazendo girar o tempo presente. Era já o cair da tarde; e dentro de mim o apito da fábrica chorava. Eu via de novo a fumaça formando nuvens e provava o cheiro morno dos biscoitos. Continuei caminhando, sem olhar para trás, os matos já não me incomodavam. Era hora, e eu ia saindo pelo mesmo portão aberto, por onde as minhas lágrimas passavam.

(Do livro O Desterro dos Mortos (Relume Dumará), 2001)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cyro de Mattos




Cyro de Mattos nasceu em Itabuna em 31 de janeiro de 1939. Advogado e jornalista com passagem na imprensa do Rio. Autor de 16 livros. Colaborador de revistas e jornais culturais importantes do Brasil. Contos seus foram publicados em Portugal, Alemanha, Suíça, Dinamarca e Rússia. Com o livro Os Brabos conquistou o Prêmio Nacional de Contos Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e com Os Recuados conquistou o Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras e Menção Honrosa do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Sua narrativa “Ladainha das Pedras” foi incluída na antologia Visões da América Latina, publicada na Dinamarca e organizada por Uffe Harder e Peter Poulsen. Publicou alguns livros de poesias. Seu nome figura em obras como Novo Dicionário de Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes; Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho; Literatura e Linguagem, de Nelly Novaes Coelho; Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado; Bibliografia Crítica do Conto Brasileiro, de Celuta Moreira Gomes e Theresa da Silva Aguiar; e na Enciclopédia Barsa.

Terras da Morte

Queria acompanhar um enterro e ver pela primeira vez como era que enterravam o defunto no cemitério. O enterro às vezes passava pela rua do comércio. As pessoas cabisbaixas atrás seguiam o caixão com o defunto, que era levado pelos homens mais jovens. Quando cansavam, revezavam-se. Outros homens seguravam agora nas alças do caixão, e o cortejo prosseguia em silêncio na rua de chão batido. Contornava a rua do comércio, rumo ao cemitério.
Gente parava nos passeios, tirava o chapéu em sinal de respeito ao morto, curiosos apareciam na porta das lojas. Ficavam olhando o enterro passar com as pessoas tristes. Algumas levavam flores nos braços, os parentes e amigos do morto. Quando era enterro de criança, meninos e meninas acompanhavam o cortejo à frente do caixão, vestidos como anjo num camisolão de cetim branco, uma coroa de flores na cabeça. Tinham asas feitas com penas de galinha, presas às costas. Levavam flores alvas e cantavam canto de igreja com os pequenos corações contritos.
A primeira vez que vi um enterro de criança soube então que menino como eu também morria. Ia para o céu, claro, o padre dizia isso na missa, que Jesus gostava muito das crianças porque eram puras, não tinham os pecados de gente grande.
Mas o que era a morte, comecei a indagar lá em casa. A mãe falou que era uma mulher feia, mas quem acreditava em Jesus e seguia os preceitos que o filho de Deus ensinava não devia temê-la. Quando ela chegava para carregar uma pessoa para o além, que é o outro mundo, quem foi bom aqui nesta terra, não cometeu pecado pesado, vai ter o seu anjo de guarda para levar a alma para morar na casa de Nosso Senhor. Quem foi mau, cometeu os piores pecados, como matar o semelhante, a morte leva a alma dele para o fogo do inferno. Quem foi ora bom, ora mau, vai ser levado para o purgatório, uma espécie de lugar onde a alma fica sofrendo pelos pecados menos pesados que cometeu até se purificar e alcançar o perdão de Deus.
Tudo isso que a mãe explicava sobre a morte podia ter sua verdade e até me convencia em parte sobre o que essa mulher feia gostava de fazer a cada pessoa que levava para outras terras.. Só não gostava quando perguntava se um menino depois de morto podia voltar de novo para brincar com os amigos aqui na terra, e a mãe revelava que nunca ninguém soube que isso já havia acontecido um dia.
- Então a morte que vá comer bosta de galinha! – dizia eu, fazendo com que minha mãe desse uma boa risada.
Quando perguntava ao pai o que era a morte, ele prontamente dizia que com ele a bicha imunda não viesse se fazer de prosa. A taca de couro grosso estava ali mesmo guardada no baú para dar umas boas tacadas na indesejada, se ela algum dia entendesse de querer lhe fazer uma visita.
Sorria agora eu, satisfeito com a coragem que o pai demonstrava para fazer correr a morte, se ousasse aparecer lá em casa, ia receber na mesma hora uma boa surra aplicada nas costelas dela com a taca de couro grosso.
Naquele dia resolvi acompanhar o enterro que passava pela rua do comércio com poucas pessoas. No início acompanhei de longe, precavendo-me para que algum amigo de meus pais não me visse e fosse contar depois o que eles certamente não aprovariam. Ficariam zangados e me colocariam de castigo. Proibido de brincar com os amigos por vários dias.
Quando da ladeira em que o enterro subia vagaroso se avistou o muro do cemitério, aproximei-me por trás das pessoas que participavam daquele cortejo calado, com seus ares tristes. Pouco depois, entrava com o enterro no cemitério, que eu via pela primeira vez e que me deu com seus ares sombrios um frio na barriga, como nunca tinha sentido. Tímido passei os olhos pelas galerias com muitas gavetas tapadas com tijolos, pintadas de cal. O nome do falecido inscrito em cada gaveta. Observei capelas com retrato dos falecidos lá dentro, escultura de homens importantes em cima dos mausoléus de mármore. Lá embaixo, a terra cheia de cruzes indicava covas rasas, provavelmente ali os pobres eram enterrados. Foi para lá que o enterro se dirigiu.
A cova já estava cavada num buraco para receber o caixão com o morto. Antes de descerem o caixão, a mulher de cabelos brancos, num vestido pobre, pediu que tirassem a tampa. Queria ver o marido pela última vez. Ela passou a mão no rosto do morto, que estava preto feito carvão, os olhos fechados. A mulher começou a chorar alto. Esperei que descessem devagar o caixão no buraco, , estava amarrado com cordas grossas pelas alças..O coveiro jogou depois pás de terra, que aos poucos foi enchendo o buraco. A mulher continuava a chorar alto. Comecei também a chorar e, antes que ouvissem meu choro, fui saindo dali nervoso, tropeçando nos passos.
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